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Adriano Salhab escreve sobre a Macumba Antropófaga...

Adriano Salhab escreve sobre a Macumba Antropófaga 2012

*Oficina faz sua Parada Antropófaga*

Por Adriano Salhab*

Enfrentando a ditadura do automóvel, incorporando os exus-mirins da vizinhança, segue o cortejo antropófago pelas históricas ruas do Bexiga.
O breve, mas intenso passeio pelos entornos do Teatro Oficina tem o valor inestimável, não só de fazer baixar Cacilda na frente do TBC, pra que esta incorpore Tarsila, ou literalmente tirar de casa o Poeta Oswald (do apartamento onde realmente morou), para formar o casal mais bonito e rico da cidade de São Pã em 1921, mas também pra receber das sacadas e janelas das ruas Abolição e Major Diogo, os confetes e acenos dos carinhosos moradores que já aguardam o desfile momesco/circense passar.
A trupe segue driblando o transito intenso, culminando com a incauta participação de um bravo morador da Japurá, que por cima do ignóbil coro de buzinas impacientes, recita de sua sacada um poema de Luiz Gonzaga Filho.
Quando finda o tour, na rua Santo Amaro, adentra-se novamente no ex-litigioso, atual terreno de troca-troca do Grupo Silvio Santos, cedido ao Oficina. A decida delicada por um corredor verde que dá acesso à enorme área com a Grande Lona armada e um mini morro de entulhos já fecundado pelas anteriores temporadas, me faz sentir a real possibilidade de que ali se estabeleça e se tombe o Teatro de Estádio Oswald de Andrade com suas Oficinas de Florestas e Olimpíadas de Cultura, para todos, para sempre.
O primeiro ato da Macumba, mais ritualístico, situa o espectador nas bases históricas do Manifesto Antropofágico de Oswald.
O espetáculo remete do Abapuru de Tarsila, pedra fundamental inspiradora do Manifesto, à influência da cocaína na psicanálise freudiana.
Deliciosamente permeada pela banda mista formada por integrantes da Trupe Chá de Boldo + Músicos Circenses + a percussionista Carina Iglecias e o excelente pianista cubano, Pepe Cisneros, a peça convida todos à ciranda do “Ser ou não ser Tupi”.
A Ópera de Carnaval se faz pungente com ousadas interpretações da banda e coro como no Mandú-Çarará e Choro 10 de Villa Lobos.
Em que outro teatro, mundo afora, a música é tão diversamente aproveitada, desde um cortejo acústico pelas ruas, à uma suave harpa numa cena “celestial”, passando por jazz com Torés indígenas incidentais?
A enorme sobreposição de citações e acontecimentos, tão ricamente e insistentemente explorados pelo teatro tropicalista de Zé Celso, desde a década de 60, já era um prelúdio do que hoje chamamos de Era da Informação.
Mas do que nunca, os conceitos de Terreiro Eletrônico e Bárbaros Tecnizados são explorados na Macumba Antropófaga, tanto pela web-transmissão ao vivo, quanto pelo convite à twitagem coletiva no meio da cena.
No segundo ato, o teatro vem à tona: o ritualístico dá uma trégua para as interpretações marcantes. Na brilhante homenagem à cineasta Elaine César, Camila Mota faz arrepiar a alma com a glossolalia de uma mãe castrada, sem palavras, mas com o coração na boca. Mariano Mattos Martins está ótimo de Penteu/desembargador e Wilson Feitosa voa pelos ares como Deus/trapezista.
Sempre impagável, Zé Celso, seja de anfitrião/Pássaro Vermelho ou Papa, nos conduz às reflexões morais de sempre e de agora, questionando principalmente o equivocado e exagerado foco religioso nos debates polêmicos, em que atualmente se perdem nossas instituições e mídias em detrimento ao fazer cultural, que por si só, sempre teve o poder de resolver e reinventar os embates humanos e metafísicos, e por hora, no Brasil, se vê sufocado por mais uma política propositada de negligência de investimentos, que surpreendentemente o governo Dilma impõe!
Como Grand Finale, o público é instigado a se auto coroar com louros de cannabis e proclamar a liberação das drogas, fechando o ciclo dos dedos nas feridas que a Macumba trata.
O Oficina é um verdadeiro oásis que insiste em cada vez mais se afirmar no meio da selva de concreto do Bexiga. Mas apesar da aparente vitória que a ocupação do terreno do Grupo SS suscita, ainda falta muito para um despertar das autoridades artísticas e políticas que podem com ações simples de desapropriação e tombamento, garantir que a cidade possa usufruir, não só do teatro de vidro e aço projetado por Lina Bardi que ali se encontra, mas também do magnífico Teatro de Estádio, que deve se tornar uma referência mundial do possível e urgente reflorestamento urbano e renascimento cultural que as grandes metrópoles tanto necessitam.
São Paulo merece!

*Adriano Salhab é ator, cantor, compositor e instrumentista. Seu site é o “www.adrianosalhab.com”:htto://www.adrianosalhab.com


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