ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE

 

Ah! Anhangá! Anhangabaú da Feliz Cidade!

1968 – a companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, ainda Cia de Teatro Oficina, monta a peça Nas Selva das Cidades, de Brecht. A arquiteto Lina Bo Bardi estreia no Oficina criando a arquitetura cênica da peça com a matéria-prima e o lixo  das demolições dos sobrados que iam sendo destruídos para dar passagem ao minhocão, durante a ditadura militar. Lina faz o gesto inaugural, abre o trabalho xamânico da troca, traz o Bixiga pra dentro do teatro, leva o teatro pra fora, pro Bixiga. Parodia o slogan da ‘Cidade que se humaniza’ da São Paulo em processo de urbanização colonial e higienista pondo em cena o bordão pra fazer fundo pra encenação da Selva nos palcos do Oficina. Comunica o interior do teatro com a matéria concreta e desumanizada da cidade de Sampã. Lina antecipa, intui a transparência e abertura radical que vai dar no teatro inaugurado em 1993.

Nos primeiros croquis de Lina Bardi para o teatro, ela já esboçava o Teatro de Estádio, imaginado por Oswald de Andrade, na direção de criar um teatro que superasse o psicologismo do teatro de câmera, do palco à italiana, um teatro para multidão, que provocasse a mesma ligação e catarse que o futebol de estádio cria nos torcedores. Lina Bardi e Edson Elito desenharam e fizeram maquete desta proposta no terreno dos fundos do teatro. O palco rua do teatro seguia como uma língua para fora do prédio entrava no teatro a céu aberto e seguia para a rua Japurá, dali serpenteava para o Vale do Anhangabaú, e para o Vale, Lina tinha um projeto chamado Anhangabaú Tobogã, que não venceu um concurso de 1981, mas era um projeto que trazia uma mudança de paradigma para o processo de urbanização que São Paulo vinha sofrendo. Lina e o Tyaso do Oficina  tinham esta ambição de conectar estes equipamentos culturais e de criar um teatro escancarado para a cidade, trazendo um sentido inédito para teatro: a perspectiva urbana.

Mas pra chegar na perspectiva urbana de hoje, uma polifonia de vozes, um coro de atuadores que apaixonados e atraídos irresistivelmente por esta terra, trabalharam na abertura gradual do interior da Jaceguay 520, pra rua, pro bairro, pra Sampã, pro Cosmos.

E pro terreno entorno ao Teat(r)o Oficina, sempre trabalhado pra transformar um terreno privado em uma terra pública, com o movimento já presente em tempos imemoriais nesta terra do Bixiga, de Sampã, e aberto em praça pública por Oswald de Andrade: a Antropofagia!

COSMOLOGIA DO ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE


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