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Anistia política para Zé Celso

Anistia política para Zé Celso

José Celso Martinez Corrêa, 73 Anos completados em 30 de março, receberá o Perdão do Estado Brasileiro em Sessão Especial de Anistia Política no Teatro Oficina.

 

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JUSTIÇA DE XANGÔ – RAIA JÁ !

 

No dia 7 de abril de 2010 a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça do Brasil anistiará o ex-perseguido político José Celso Martinez Corrêa, diretor artístico e presidente da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona.

A seguir à solenidade haverá sessão especial, gratuita, de O Banquete, de Platão.

SERVIÇOS
35a Caravana da Anistia
Sessão Especial de Requerimento de Anistia Política de José Celso Martinez Corrêa
07/04/2010 – 4a feira -14h
Teatro Oficina > rua Jaceguai, 520 Bixiga São Paulo
Info > 11. 3104.0678
Entrada gratuita, retirada de ingresso no local a partir de 11h


No dia 22 de maio de 1974, por volta do meio-dia, quando procurava entrar no prédio de sua irmã Ana Maria na rua Caio Prado, bairro da Consolação em São Paulo, o diretor de teatro Zé Celso foi abordado por homens armados que o encapuzaram, colocaram-no dentro de um carro e o levaram. Ele estava sendo preso por agentes da ditadura militar brasileira e levado para o Departamento de Ordem Política e Social, na região da Luz, onde passaria quase um mês. No “forno” do Dops, foi torturado. Passou pelo Pau de Arara e levou choques e golpes na cabeça que arrancaram-lhe alguns dentes. Depois foi jogado em uma solitária com a luz acesa dia e noite, ouvindo os gritos dos outros torturados. Seu diploma de advogado não lhe valeu cela especial, e a motivação da prisão é até hoje desconhecida. No mesmo dia 22 outras três pessoas foram presas: Celso Lucas, cineasta à época participante da Comunidade Oficina, também torturado na Luz, Maria do Rosário Martinez Corrêa, irmã de Zé Celso que foi levada do mesmo apartamento em frente ao qual o capturaram e a empregada doméstica Maria de Lourdes Santos Souza, a Dilurdes. Os agentes do Dops levaram também uma caderneta de telefones da casa onde eram anotadas as ligações interurbanas feitas pelos moradores para que se pudesse dividir a conta mensal.

Zé Celso estava morando provisoriamente na casa de suas irmãs pois o apartamento na Rua Humaitá, antes ocupado pela Comunidade Oficina Samba, havia sido invadido e revirado pela polícia no mês anterior, assim como o Teatro Oficina, invadido em 20 de abril, quando foram presas as pessoas que ali trabalhavam, acusadas por tráfico de entorpecentes. Desde 1969, a partir do decreto do Ato Institucional nº 5, que proibiu a reunião das pessoas em determinados lugares públicos procurando justamente abater os trabalhos de teatro que ainda se realizavam, na maioria dos casos de maneira clandestina, era quase impossível trabalhar em São Paulo, e provavelmente em todo o território nacional. O Oficina, assim como outros grupos artísticos tinha se tornado uma comunidade menos por opção, mas porque era a única maneira possível de se poder trabalhar.

Zé foi solto em 17 de junho e permaneceu em liberdade condicional tendo de se apresentar semanalmente ao Dops. Tinha os companheiros de trabalho presos e nenhuma possibilidade de se integrar nem mesmo aos poucos trabalhos mantidos na “oficialidade” pois tinha passado pelo Dops e isso comprometia quem quer que o aceitasse para trabalhar.

Sem nenhuma condição de trabalho no Brasil a Comunidade Oficina Samba se organizou ao longo de 1974 e a partir de setembro daquele ano partiu em levas para Portugal onde o grupo, formado então por dezenove pessoas, passou a trabalhar exilado, apoiado pelas condições dadas pela Revolução dos Cravos de 25 abril daquele ano. O arquivo do Oficina, já volumoso à época, foi em parte contrabandeado para o exterior e em parte escondido no país, a partir dos esforços de Maria Alice Vergueiro, também artista do grupo.

O exílio durou 5 anos aproximadamente. O grupo, em alguns momentos reduzido apenas a Zé Celso e Celso Lucas, trabalhou em Lisboa, Moçambique, Paris e Londres, com teatro e cinema, e realizou nesse período grandes filmes até hoje pouco conhecidos do público.

A partir de 1979, com a lenta e restrita abertura brasileira, Zé Celso e os artistas do Oficina voltaram ao país e desconhecendo as reais condições de trabalho esperavam encontrar muito maior liberdade do que de fato encontraram. Ainda neste ano, o filme “25”, primeiro filme moçambicano, realizado com o Instituto Nacional de Cinema daquele país durante sua libertação, em 1975, foi relacionado na programação de uma mostra que aconteceria no auditório da Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo. O curador dessa mostra, Ivo Branco, havia conseguido a liberação do filme, não oficialmente censurado, no departamento de censura. No dia de sua exibição a diretora da biblioteca, alinhada aos reacionários que mantinham o país fechado e as atividades artísticas policiadas, movimentou o departamento de censura para que a exibição fosse cancelada em cima da hora.

Apesar da falsa liberdade brasileira do início dos anos 80, o grupo Oficina recriou-se a partir das ricas experiências do exílio e batalhou mais de dez anos para erguer o novo Oficina e conseguir voltar à superfície social brasileira a partir da década de 90.

A situação atual brasileira, com a recente formulação do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, que toca em tabus nunca antes discutidos abertamente, trouxe de volta a discussão sobre a revisão da lei de anistia, e possível punição daqueles que cometeram crimes hoje considerados por diversas entidades internacionais como lesa-humanidade. Zé Celso, ao ser solicitado para assinar uma petição de apoio à culpabilidade dos torturadores, redigiu um manifesto poético em que pede o fim de todas as torturas brasileiras atuais oriundas de três grandes tabus em que ainda hoje a sociedade não quer tocar: a descriminalização das drogas; a criminalização da homofobia e a relativização da propriedade privada em acordo com suas funções sociais, assentada na constituição brasileira, caso único no mundo, como princípio.

Este manifesto pode ser lido aqui.