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Carta aberta à Prefeita de São Paulo, Marta Suplicy

Para esclarecer o assunto Teatro Oficina e Bela Vista Festival Center apenas levemente tocado na nossa tumultuada conversa no salão azul do Palácio das Indústrias quando da apresentação do plano da prefeitura para intervenção no centro de São Paulo:

O Teatro Oficina vive, agora, sua exogênese.

Estamos nascendo para o mundo como um teatro do mundo, transportando via Internet, rádiodifusão, e gravação de DVDs das peças o trabalho realizado e vivido na Rua Jaceguai 520, Bixiga, área central da cidade de São Paulo, fundo do vale do Rio Anhangabaú já soterrado.

Essa exportacão é sim uma fruta Pau-Brasil, e tem muito que ver com a “idade da pedra” em que fomos pela senhora acusados de estar, temos também a idade da pedra em todas as nossas idades, e por isso estamos livres de uma civilização que é sinônimo de construção de feudos comerciais e soterramento de todo o passado, tenha ele quarenta anos, como o Teatro Oficina, cem anos, como o modernismo, ou três milhões de anos.

Nosso trabalho contemporâneo quer se realizar em praça pública, já tinha essa necessidade quando Lina Bardi projetou o atual teatro e junto com ele o palco ao ar livre que nos uniria a Rua Japurá e, num eixo de obras públicas interessantíssimo, ao vale do Anhangabaú. Esse projeto existe sim, ao contrário do que disse a senhora, e estamos enviando fotos da maquete e esboços anexos.

É essa projeção, de um futuro de trabalho público e inserido socialmente como uma Ágora, um espaço da realização de toda a teatralidade e difusão das discussões acerca das coisas do homem, que deu subsídio para que se realizasse, em 1982, um tombamento revolucionário pelo CONDEPHAAT, um tombamento que garantia a ereção de um novo edifício, que garantia inclusive nosso direito de uso do solo e impedia que ele fosse incorporado pelo grupo Silvio Santos, à época tentando comprá-lo e portanto não se importando com o seu desaparecimento.

Atualmente esse tombamento, tão incompreensível para quem olha os edifícios da cidade e vê apenas o potencial construtivo dos terrenos que ocupam, tem sido, de maneira distorcida, utilizado pelo grupo Silvio Santos como argumento para provar não ter sido tombada a arquitetura do Teatro Oficina. Mas ela foi sim tombada, ainda como projeto e foi também tombado o trabalho da companhia.

Fomos também acusados pela senhora de não termos ouvido as propostas do grupo Silvio Santos durante a negociação travada com intermédio da promotoria pública do Estado. É mentira. Tudo foi ouvido e discutido e se não foi possível chegar a um acordo podemos garantir que não foi um impasse arquitetônico. Há milhares de maneiras de realizarmos os dois projetos sem precisarmos absolutamente soterrar a Ágora, a praça pública, a rua-rio, o parque de que tanto precisa a cidade.

Vale ainda ressaltar que, ouvindo a apresentação do plano de reconstrução do centro apresentado por Clara Ant, ficamos convencidos de que esse futuro espaço público na Rua Jaceguai deve ser uma das grandes transformações urbanísticas incluídas no projeto já que resgata o caráter público do espaço público e é ação urbanística com inclusão social.

Em resposta à sua afirmativa de que o grupo Silvio Santos terá o shopping pois compra aqueles terrenos há vinte anos, gostaríamos de esclarecer como observadores presentes e não comprados, que esses terrenos são objeto de especulação há vinte anos, abrigando estacionamentos. Prática que, a senhora bem sabe, deteriora a região que agora, devidamente desertificada, tem o seu apoio para ser revitalizada com a construção de um shopping center !

Não é possível que um teatro, implantado no fundo do vale do Anhangabaú, com a vital necessidade, por causa do trabalho que abriga e do seu tombamento histórico revolucionário, de se abrir para ser praça e palco do teatro de estádio sonhado há pelo menos 100 anos por Oswald de Andrade, Nelson Rodrigues e por nós, se transforme, em alguns meses, na casa de cachorro de um horroroso shopping center cuja implantação desconsidera a história, e a coreografia do país e da terra em que está.

Tommy Pietra

Teatro Oficina Uzyna Uzona