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CHEGA !!! Nossa produtora Ana Rúbia dá o grito

CHEGA !!! Nossa produtora Ana Rúbia dá o grito

C H E G A! Pra dizer, ver e ouvir

Sem rodeios, indo direto ao assunto: atualmente Ze Celso Martinez Correa é o artista mais importante e significativo para as Artes Cênicas Brazyleiras. Ele está no ápice.

Está no topo da escala qualquer que mede as contribuições de um cidadão, de um criador para o desenvolvimento de seu país. São 53 anos de vida imersa na Arte. Pensando, buscando, errando, aprimorando, fazendo movimentos que a olhos leigos parecem “repetições”. As repetições de um velho. E no entanto esses pequenos andares circulares (da roda sagrada) acontecem às vezes trazendo transformações imperceptíveis, às vezes subindo em estrondosa espiral.

Esse mesmo criador que segue com idéias e obras cada vez mais geniais, capazes de transformar a sociedade,  não consegue ser ouvido por outros que também estão no topo. Não consegue chegar na Chefe da Política Brazyleira para expor seu pensamento e seu Ardor, que fazem toda a diferença em meio aos acontecimentos gerais.

É algo chocante esse descaso por alguém do mais notório saber, do mais fino talento.

Vivemos no país do “pessoal”. Se se tem relações, tem aquele “com quem falar”, consegue se avançar, mesmo que a passos curtos e titubeantes, ao sabor dos humores pessoais, rumo à realização.

Se não tem, estanca no 4º Escalão Emperrado do Império. Ali, ao rés da tal escala de valores qualquer, onde estão (infelizmente) os Autômatos da Burocrácia, ergue-se uma parede de Aço, uma barreira de Fogo. Se não insistir muito (e às vezes mesmo assim) elas são intransponíveis. É um exercício para poucos bem dotados.

É o que acontece , num implacável moto continuum da área artística: sem aquela mão paciente e solidária que te leva até o gabinete central, o ocupante desse mesmo gabinete nem sequer toma conhecimento de sua questão. O filtro acontece antes e vai-se saber por quais critérios.

Ao menos é o que aparenta na situação vivida ontem,  23 de maio de 2011, quando 15 minutos depois de um telefonema para checar o recebimento de um email (sim, ele chegou e seria impresso e entregue ao assessor pessoal para despachar com a presidenta e enviar uma resposta), o Assessor do Assessor responde de forma absolutamente mecânica: o assunto foi encaminhado  ao órgão cabível para atender a Cultura, o Minc. A impressão que fica é que sequer foi lido, pois logo no cabeçalho estava dito que a mesma mensagem havia sido enviada à Ministra, não precisava enviar de novo! Pra que encaminhar um assunto que já estava lá?

O mais impressionante foi a agilidade: em 15 minutos o email foi impresso, um mensageiro (tipo aquele da Maratona Grega) atravessou corredores extensos com ele em punho, adentrou ao gabinete da Presidenta, que largou o que estava fazendo, leu-o expressamente e por fim despachou: encaminhem para o Minc. Querem nos fazer crer q isso aconteceu? (Dramaturgicamente tratamos o assunto como, um Épico?  Ou uma tragicomédia?).

Vivemos no país das aparências. Parece que valorizamos isso (o bom e o belo), parece que combatemos aquilo (o feio e o mal). Dicotomias e maniqueísmos para lá, o mundo e sua consciência jovem de radical transformação pelos novos acessos à produção de Informação, de Arte, de Cultura, de Ciência e Invenção, me leva a engrossar o Coro dos que dizem:

C H E G A

Pacificamente digo Chega.

Chega de pequenos e mesquinhos pensamentos

Chega de movimentos de marionetes capengas

De ter de mexer os pauzinhos pra balançar os bracinhos

Chega de escutar sem ouvir

Chega de ver sem enxergar

Chega de falar sem dizer

Falta estética

Falta conteúdo de vida pulsante

Falta tesão de serestarfazer

É no mínimo destoante e anti natural esse descaso por criadores de valor nacional.

Em mais de 20 Anos na Produção da Arte do Brasil, e hoje trabalhando com Zé Celso, a melhor cabeça-coração-alma das Artes Cênicas em ação, tenho praticamente que implorar para ter um projeto atendido.Vale mais o sistema de convencimento do Valor Daquilo do que o Valor Daquilo em si próprio, na sua essência.

O movimento deveria ser inverso.

As autoridades brasileiras deveriam vir até Zé Celso e fazer-lhe Oferendas.

Aquela velha e desgastada máxima plantada na Ditadura, de que o Brasil é um país de jovens, equivocadamente formou uma consciência pueril, infantilizada, rasa.

Toda Cultura parte, em seu princípio universal, do abstrato para o pálpavel. E todas, sem exceção, têm um tênue fio que as liga a ancestralidade. Em qualquer local onde se reúnam seres humanos,  em tribos, clãs, cidades, campos, templos, comunidades e etc, ao menos um ponto é comum: a Sabedoria dos Mais Velhos é que governa. A palavra de alguém que tem a Sabedoria do Tempo (ao mínimo) precisa ser ouvida, sob o risco de fazer sucumbir todo um grupamento humano.

No Candomblé, no Budismo, no Judaísmo, no Islamismo, no Hinduísmo, entre os Celtas, Japoneses, Chineses, Aborígenes da Nova Zelândia, Esquimós, Europeus: Aquele que vive tanto e com tanta obra realizada é quem mais sabe e no atual momento de sua trajetória está com Poder e Clareza para indicar rumos, dispor de instrumentos que podem melhorar a vida de quem vem depois dele.

Esse ancestral conhecimento sequer é cogitado pela sociedade brasileira e seus governantes. Ser Velho aqui é TABU.

E por ser TABU é mais fácil e cômodo taxa-lo de louco, de delirante, de senil, do que ouvi-lo, ve-lo e deixa-lo dizer.

Só os que sonham e se apaixonam pela Vida tem o Phoder Humano de transforma-la. Uma phala dessa assusta a parda burocrácia dos infindáveis trâmites. Que nos diz que temos de resumir o currículo de uma companhia de Arte  com 53 Anos de criação em 2 páginas (tamanho máximo permitido) para poder “caber” num Edital de Montagem de Peça Inédita.

Quero dizer C H  E G A para isso.

Chega para esse eterno movimento que não sai do lugar, enroscado numa teia estratificante ao invés de irradiante como é a web  de nossos tempos.

O Brasil precisa agradecer e Bater Cabeça para seus grandes criadores.

Zé Celso está topo dessa lista e deve ser o 1º a ser permanentemente incentivado, adotado, financiado, enaltecido pela Política Cultura. E depois de abrir as portas e mentes, outros Grandes Criadores espalhados pelo País de Dentro devem também ser reconhecidos e contemplados pela suas importâncias e influências capitais na sociedade, também agentes de transformação de Vidas de cada um e de muitos.

Sou testemuha.

Sou ouvinte de depoimentos. Dezenas, centenas deles, sobre a Real transformação que a Obra de Arte do Te-Ato, filosofia e técnica criadas por Ze Celso e pela Cia Oficina Uzyna Uzona, provoca em cada indíviduo.

E lá no alto, nessa altura do jogo da Arte, as autoridades não o ouvem.

De novo o ranço da Ditadura, que desperta o medo de que ele fale sem pudor, de que mostre seu corpo sem pudor. Ou mesmo de que se exponha e exiba o Ser Humano na sua Natureza.

Chega de tanta fraqueza

É inevitável que com as respostas que ouço diariamente, vindas dos vários escalões das várias esferas do poder público brazyleiro, eu tenha de fazer coro aos espanhóis e também me afirmar:

Indignada!

Pacificamente indignada com

O descaso

O abandono

A ausência de plano

A perda do tesão

O vazio sem sonhos

A imobilidade

A passividade diante da vibração incessante

O automatismo

A não informação

Abram seus sentidos e percebam que somos nós aqui e agora que fazemos a História

Com nossos atos e atitudes, nossos movimentos e concretudes.

Hoje, ouvir sobre um plano, um projeto, um sonho é um privilégio de poucos.

Lula soube faze-lo ao ouvir Miguel Nicolelis contar seus experimentos e afirmar que é possível realizar o sonho (penso que Nicolelis deve ter feito um tour de force para chegar ao presidente).

Lula ouviu porque é um antropófago, que se interessa pelo que é dos outros. Ele instintivamente se alimenta devorando o que melhor se apresenta. É capturando, engordando, cozinhando, picando, temperando que ele nos preparou novas comidas enquanto era o Chefe das tribos e as ofereceu como Biscoito Fino para serem por todos devoradas.

Esse espírito é inato ao brasileiro. É complicado o raciocinio antropófago? Talvez para os burocratas lineares ainda parados em Aristóteles. Mas já é mais fácil para os constelacionais navegantes do mundo irreversivelmente globalizado. Comermos e sermos comidos é o que acontece  todo tempo com quem está em comunicação e conexão.

Zé Celso, comendo Oswald de Andrade, teve a Sabedoria de sacar qual é a movida e também a generosiade de dividir. Por isso tanta insistência no Teatro de Estádio, na Universidade Antropófaga, na Oficina de Florestas, que para ouvidos moucos parece uma boba repetição.

Nesse conjunto está o legado de um gênio (quer ele goste ou não do termo). E o mais importante: num momento em que ele está Vivo e Vitalizado, Vivíssimo para mostrar como seguir adiante, para ensinar como criar os instrumentos. É um momento crucial que não pode ser desperdiçado, porque se isso acontecer quem tem o Poder de impulsionar a genialidade brasileira vai dar um atestado de ignorância e estupidez.

Hoje há uma real possibilidade de transformar o Presente, de fazer a Virada, que assim se apresenta:

De um lado o grupo Silvio Santos quer se desfazer (finalmente e depois de quebrado pelo capitalismo exarcebado) do terreno que cosmicamente pertence à Arte e compõe o cenário do Oficina. De outro lado a Prefeitura de SP (à primeira vista tida como o elemento mais fraco da tríade pública formada ainda pelo estado e união) tem a moeda forte: outros terrenos na cidade para serem trocados por construções de creches. De outro lado temos o bairro do Bixiga na Periferia do Centro de SP, que está sedento por equipamentos públicos, pela creche que foi anunciada como Objeto de Desejo do projeto do prefeito. De outro lado tem a Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona para completar a Obra de Lina Bardi, para formar novas cabeças com novas fórmulas, comento do Te-Ato criado por Ze Celso. De outro lado tem o movimento artístico paulista, que para o Oficina se volta querendo aprender sobre tudo isso, querendo seguir esses passos rebolantes, como antes já comeram Meyerhold, Stanislavski, Grotowiski, Piscator  tantos outros gênios das Artes. De outro lado há o público, que descobre a Vida além da telinha da TV, com o poder entrar sem ter de pagar um terço de seu salário num ingresso. Um público de uma vitalidade impressionante. De outro lado há os comerciantes, prestadores de serviços, artesãos que vagam por essa periferia, em sub condições de informalidade e perdendo a concorrência implacável das megas corporações. Ali todos podem se profissionalizar, virar cidadãos.

São tantos lados que de fato na geometria não podemos tratar de figuras pontiagudas que se encontram nos cantos, mas sim de algo mais elementar: o círculo, a roda que traz em si concentrada a energia cósmica. E redondo são os estádios. E na roda giramos todos, cada um passando pelo lugar antes ocupado pelo outro.

É disso que Zé eu e todos que dizem C H E G A

Querem falar, ser ouvidos e vistos

Tem alguém aí do outro lado pra contracenar nesse Ato?

Sampã, 24 de Maio de 2011

Ana Rúbia de Melo

Produtora, fazedora de sonhos, realizadora e “lust for life” (com tesão pela vida)

ARDOR

AMOR

Na FELICIDADE GUERREIRA

“Para comentar leia o texto em nosso blog”:http://blog.teatroficina.com.br/?p=2780