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Como foi a sessão de anistia de Zé Celso

Como foi a sessão de anistia de Zé Celso

A sessão de apreciação do pedido de anistia e indenização de José Celso Martinez Corrêa, ocorrida na quarta-feira durante a tarde, reuniu mais de 300 pessoas entre público, representantes do estado, jornalistas, muitos fotógrafos e videomakers, além do corpo que forma a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. A sessão começou com apenas cinco minutos de atraso, graças à insistência do diretor: “a pontualidade é uma questão política”. O decorrer da seção, com os discursos do presidente da Comissão de Anistia Paulo Abrão e de Zé celso, patentearia a crença de que todo ser humano é político, e todo ser é humano.

Recebidos pelo coro ao som do canto Sérvio-Croata Oj Dodole, uma invocação à chuva, os homens engravatados e o público tiveram seus pés lavados e aos poucos ocuparam os bancos, colchões e pufes arranjados em torno da pista-mesa do Banquete. O espetáculo foi misturado à sessão solene dirigida pelo cerimonial do Ministério da Justiça. O nascimento de Dionísio precedeu o início da apreciação do pedido de anistia e os atores do Oficina estiveram presentes, em suas personagens, Zeus, Hera, Diótima, Eros, ao longo da sessão que teve as formalidades e o protocolo dissolvidos no meio-ambiente erótico do Banquete.

Ex-ator amador, o relator do processo, Prudente José Silveira Mello, por essa razão escolhido para redigí-lo, passou à sua leitura. Pontuando os atos de bravura do anistiando, narrou algumas das afrontas necessárias ao regime a partir de 1964 para que se pudesse praticar arte no Brasil dos anos de chumbo até afinal sua prisão, liberdade condicional e o exílio em Portugal, Moçambique, França e Inglaterra. Tratado como personagem no relato que se desenrola do início da ditadura até a anistia política em 1979, Zé Celso sofre uma série ininterrupta de acusações lançadas pelo aparelho do estado de forma a reprimir sempre seu trabalho e impedir, nas encenações, desde o Rei da Vela até Gracias Senhor, a iluminação da realidade política daquela atualidade, encoberta também pela censura oficial das obras de arte realizadas por órgãos oficiais do governo.

O relator do processo Prudente Mello

Após a leitura do processo, a palavra foi passada ao diretor do Oficina que explanou a visão que tem hoje dos direitos humanos. Invocou Oswald de Andrade, que acreditava que os direitos humanos nasceram quando os europeus chegaram ao Brasil e encontraram os índios nus pois os corpos expostos, idênticos aos seus, tornavam evidente que todos, mesmo os de além-mar, eram iguais. Desse encontro resultou também, na alma indefinida brasileira que se formaria a partir da mistura das raças, a consciência animista da vida. Os índios atribuem alma a todos os seres, não apenas à espécie humana, mas às plantas, aos minerais, a todos os habitantes visíveis, de modo que os direitos humanos deveriam ser estendidos a tudo: a todos os seres e ao meio-ambiente. O diretor elogiou o 3º Plano Nacional dos Direitos Humanos, que toca em todos os tabus da nacionalidade, e trata, dessa forma transversal, os direitos da humanidade e afirmou compreender hoje que o “tigre”, o sistema capitalista que impede o fim de todas as torturas, guerras e fechamentos nacionais, é realmente de papel, como dizia Mao Tse Tung, e por isso o temor que o mantém intocado é desnecessário.

Diótima (Camila Mota) e a Bandeira das Liberdades Democráticas

Após sua fala foram chamados a voto os conselheiros Aline Sueli, Luciana Garcia, José Carlos Moreira, Eneá de Stutz Almeida, Roberta Camineiro Baggio e Rita Sipahi, que por unanimidade acompanharam o relator em seu pedido de anistia e indenização ao diretor do Oficina. Bastante emocionados, oriundos principalmente das faculdades de direito, expressaram o contentamento com a fala de Zé Celso, “a melhor aula de direito” que tiveram e relataram que ao longo das caravanas que a Comissão tem realizado impressionaram-se com a capacidade daqueles que foram perseguidos e torturados de transformar a dor em amor, o que sintetiza a obra do diretor no Teatro Oficina.


Os conselheiros

Zé Celso e Paulo Abrão, após o pedido público de perdão

No ano de 399 a.C., o filósofo Sócrates, personagem incarnada por Zé Celso no Banquete de Platão, foi condenado à morte por corrupção de menores e incitamento de crença em deuses que estavam fora da religião oficial grega. Com a mesma idade, na quarta-feira passada, pode-se dizer que o diretor do Oficina foi condenado à vida, ao receber o perdão e indenização do estado pela tortura e perseguição que sofreu e o reconhecimento do trabalho de superação e cultivo da vida realizado há mais de cinquenta anos por ele e pelos elos do cordão de ouro reunidos em torno da bigorna.

Outras matérias:

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texto Tommy della Pietra / fotos Maurício Shirakawa