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Críticas alemãs de A Terra e O Homem

Críticas alemãs de A Terra e O Homem

OS DANÇARINOS CANTORES CAMINHAM NOS LIMITES. Uma atmosfera embriagante, uma festa dos sentidos nasce do excesso de música, luz, cheiros e movimentos. O que parece ser uma improvisação anárquica é uma coreografia inteligente — numa aparente inocência escondem-se profissionalismo e disciplina. Dançam a terra, o Brasil, cantam o sertão e as estrelas, decompõem longitudes e latitudes. Há momentos de transbordante desejo de vida; de repente, a cena se transforma num circo com trajes fantásticos, engolidores de fogo e acrobatas e, a música se eleva à ópera. O circo pega fogo. Também há momentos tocantes: às vezes, o sentido profundo se une à brincadeira de maneira maravilhosamente insana. Tudo sempre trata do amor: seja quando queimam fogos, seja quando derramam água dos baldes, quando simbolizando a chuva, o lamento da sanfona, quando besuntam corpos nus de lama. Ou quando se beijam escancaradamente uns aos outros deixando os europeus boquiabertos. Esse teatro é de inclusão. Dizia o ditado ?quem canta seu males espanta?. Poderia ser este o mote da noite.
Gudrun Norbisrath, ?Westdeutsche Allgemeine Zeitung”

Citações da Bíblia misturam-se aos manifestos ético-sociais. Engajamento social é a principal questão desse ringue que será tão longo quanto a tetralogia dos Nibelungos de Wagner. No final não há o ocaso dos deuses, mas ?a guerra?.

Michael-Georg Müller, ?Westfälische Rundschau?

Como numa procissão, os atores conduzem o público pelo braço, de mãos dadas e dançando. A alma alemã já irritada com tanta proximidade. Vai demorar horas para tirá-lo da reserva. Mas aí inicia-se uma aventura teatral, jamais vivida na Alemanha: ?Guerra no Sertão? uma ópera carnavalesca em que o frívolo e o lascivo, a alegria de viver e a quebra de tabu do carnaval sul-americano, se misturam à gravidade e aos grandes sentimentos da ópera. Os atores são tudo: as estrelas que brilham no céu, a chuva redentora depois da seca, o rio que gera vidas, os conquistadores e o povo massacrado, os bandos fatigantes e os falsos curandeiros. É um teatro que de um encanto arcaico, extremamente sensual, repleto de paixão ? teatro absoluto excessivo, com uma liberdade sexual estranha e, em parte, drástica para olhares europeus. Envolvidas por aromas e sons, à meia-luz , surgem imagens jamais vistas. Isso aqui é um pedaço do Brasil, feito de ar. E mais uma vez a música, rompendo com todas as barreiras, dá resposta a todas as questões ? confraternizando e libertando. Quando esse elenco canta, somos arrebatados pela crença ingênua, porém convicta, que o canto tem mais força que qualquer arma..

Alfred Pfeffer, ?Recklinghäuser Zeitung?

A maneira que Zé Celso tematiza o racismo do romance ? em parte de maneira satírica e cômica, ainda que citada textualmente ? é brilhante. E, de repente, parece ser a coisa mais natural do mundo, uma dúzia de visitantes do festival estar deitada no chão aos beijos, no meio dos brasileiros, seminus. O que Zé Celso oferece é um poderoso caleidoscópio de lições de geografia, jogos misteriosos e carnaval. Emocional, engajado, orgiástico. O que em primeiro lugar é patriótico, segundo muito erótico e terceiro, altamente político. Em vez de arte e artificialidade, Zé Celso oferece plena vida. A anciã de verdade, seios de verdade, leite materno de verdade, visionários verdadeiramente tomados, resistência real. Uma revolta orgiástica.

Ursula Pfennig, ?Westfälischer Anzeiger?

Cunha já definira, o que representa a ?brasilianidade?, com precisão nunca vista: as regras vigentes (ou justamente a falta de regras) num crisol de culturas, seguidas muito mais à risca, do que na mais rica América do Norte. Longamente e de novo e sempre com novas cantigas rítmicas e coros, se movimentam as três noites, que Zé Celso destilara do romance de Cunha, na pista desse estudo mais para sociológico.

De onde a força do coletivo poderia se alimentar, se não da mais intensiva conspiração intelectual ou emocional, que mantém essas noites em eterno movimento ? dedicadamente até o limite da dor, feliz, satisfeita e brava a multidão flutua pela epopéia de Cunha, hora após hora, para dentro e para fora, às vezes conduzida pelo canto do coro acompanhado da orquestra ao vivo de percussão, sanfona e violão, às vezes, por falas recitadas pelo coro. Os atores mudam constantemente a imagem que o palco lhes oferece ? antes meditativa e suplicante, arrastada por panos como se fossem correntes de rio na primeira parte, a mais abstrata da história, comprometida com a festa popular na segunda parte e estritamente orientada pela história do Conselherio na terceira, até a vitória provisória do gozo e utopia.

À primeira vista, as pessoas podem perder a fala ? diante dessa nudez completamente desavergonhada que perpassa as três noites da maratona de ?Os sertões?. Um segundo olhar, porém, é mais interessante ? o que se vive-apresenta aqui como sexualidade escancarada, seja pela câmera de vídeo sempre presente, arriscando o olhar para o ?oráculo vaginal? ou pelo prólogo que inicia com sexo oral, impossível de não ser visto, ou pelas fontes de leite jorrando dos peitos maternos inchados ou pelo novo homem brasileiro gerado sempre de novo com grande prazer e energia: o tema sempre é só o motivo e nunca o ato em si. Em outras palavras: não se especula em nada o fato de se estar pelado, seja entre as atrizes e os atores e tampouco os convidados mais ousados ( veja acima). E após três noites, primeiro durante quatro horas e meia, depois cinco e meia e depois seis e meia, nenhum a ninguém mais ocorre que possa se tratar de tesão. Ao invés disso, o elenco, agora vestido e molhado de suor, vai de fileira em fileira, pessoa a pessoa, para abraçar e beijar, seja lá quem for, sem distinção.

Antes já dançamos, num cursinho básico, dessa vez, os passos do carnaval mais simples e os mais avançados; quem quisesses podia se batizar, escolhendo um novo nome. E na hora do intervalo na parte mais furiosa de ?Os Sertões? , público e elenco estavam deitados, espalhados pelo palco, cabeça de um no colo do outro. Onde mais isso seria possível, ficar assim deitado coladinho, nos braços um no outro, amando, senão no teatro? Na terapia é que não. Unidos no tempo, ficamos com mulheres lindas inatingíveis, homens maravilhosos e no meio deles, crianças felizes do projeto social ?Bixiga?, que o teatro do Zé Celso mantém e com o que conseguiu, junto com o elenco, tirar da rua e trazer para o teatro, as crianças que antes arrombavam os carros estacionados em frente ao teatro.

Agora são de uma energia tão contagiante que o grupo todo ganhou muito com isso. Na terceira parte de ?Os Sertões?, o circo infantil do Bexiga faz uma grande apresentação. Todos eles, mulheres, homens, crianças, o próprio Zé Celso e Rene Grumiel, que como bailarina e coreógrafa conheceu a Europa moderna do anos vinte do século passado, não se bastam e mostram que precisam de nós porque sabem que precisamos deles.

Michael Laages, ?Theater heute? 5/2004

Anke agradece. Melhor dito, canta. Ela canta uma canção que soa como que emprestada da última missa. Simples e bonita mantém a melodia, o refrão e o tema: ?sing, sing, sing everybody sing!? E depois disso, na segunda e na terceira estrofe, a mesma coisa: ?dance e naturalmente love? ? porque o tempo na terra é muito curto para ser perdido com coisas menos importantes, por isso vamos cantar, dançar e amar do fundo dos nossos corações. E agora todos!

Anke é uma fã. Na primeira noite com Zé e Haroldo, Ricardo e Adão Marcelo e Fransergio, Pedro e André, no primeiro encontro com Luciana e Patrícia e Letícia e Adriana e Camila e Ana Guilhermina e todos os outros do elenco do Teatro Oficina., na estonteante apresentação da frágil Pené Grumiel, bem como das furiosas crianças de São Paulo, Anke se tornou fã. É claro que ela não tinha noção do que iria presenciar de excepcionalmente estranho na encenação de Zé Celso da obra centenária de Euclides da Cunha sobre a guerra no sertão, em 1897. Pode Ter sido só por coincidência ou mera curiosidade o que levou Anke aos brasileiros ? mas nesses dias (e Anke não deixou de ir em nenhum) o teatro e essas pessoas de outra estrela tocaram, moveram, seduziram, transformaram, atingiram, modificaram Anke no mínimo 150%. Ela viveu teatro como nunca antes e por isso agradeceu e cantou, porque sua vivência foi única; e os brasileiros também se sentiram exatamente assim. A despedida pode ter sido cafona; não importa. Mas nesta última noite, até mesmo o mais metido dos espectadores participou cantando um pouco. Dos brasileiros então nem se fala.

E aí Zé Celso, o velho mago, tentou criar um daqueles estados orgiásticos, centro e inspiração de seu teatro, com batuque, dança, canto, beijos e nudez. Depois disso no galpão, ninguém conseguia desgrudar de ninguém Em Marl. À noite também, no bar ( que estava querendo fechar) e, finalmente, na manhã seguinte, principalmente quando os jovens amigos e amigas de Reclinghausen tinham de se despedir das crianças de São Paulo ? muitas lágrimas rolaram.
Michael Laages, ?Theater heute? 8/2004