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DESPEJO DE UM EMBRIÃO DE DEMOCRACIA URBANA

DESPEJO DE UM EMBRIÃO DE DEMOCRACIA URBANA

A luta é tão desigual que a possibilidade de vitória deve nos encorajar a agir. Nós da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona, nós, amigos do Oficina, nós que travamos nesta crise o mais que necessário e oportuno combate pela preservação e ampliação das conquistas do Meio Ambiente. A Ecologia Urbana está ameaçada : um espaço de Democracia nos Baixos do Minhocão em frente ao Oficina, justamente que reinterpreta esta obra fatídica da ditadura militar, “O Elevado”, que levou o nome do ditador Costa e Silva, quase a desintegrar inteiramente o tecido social do Bairro Umbigo de São Paulo, o Bixiga. Luta que neste momento de Crise, é oportuna historicamente e se dá em toda face da terra, para impedir guerras, terrorismos, ismos e mais ismos, e fazer do mundo um Pomar, um Jardim habitável, respirável e até naturalmente cheiroso, diante de tanta Brutalide.

A área do Minhocão em frente ao prédio da Jaceguay 520, faz parte do ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE, o complexo Urbano pelo qual a Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona luta há quase 30 anos. A área dos Baixos do Minhocão está neste projeto, destinada à criação de um dos nossos maiores arquitetos urbanistas: Paulo Mendes da Rocha. Uma ÁGORA, no sentido grego do termo, de espaço iniciador histórico da DEMOCRACIA, ocidental.

Um espaço público para o povo do Bexiga, São Paulo, e porque não do Mundo, encontrar-se e ter em suas mãos o destino do Bairro, Umbigo de uma das maiores Metrópoles do Planeta Terra. Talvez a mais carente de VERDE, a mais careca, a mais sacrificada pela especulação imobiliária no Brasil e no Mundo.

O Espaço tem atendido, atualmente à necessidade crescente do Oficina de ter um espaço onde possa guardar material cênico, exclusivamente das peças que estão acontecendo na Pista do Teat(r)o. Alugamos um Depósito na Rua São Domingos, para depósito de material cênico de todas nossas peças, mas é sempre necessário ter próximo o material que entra nas cenas no dia. Além disso tem atendido outra necessidade, mais importante ainda, a do enorme público que frequenta o Oficina, de um espaço para convivência, para alimentar-se, beber, conversar, estar.

Traz ainda a possibilidade de povoar, trazer alegria, para a região solitária e mal iluminada que ronda o Oficina, em meio aos escombros do Grupo SS, como aconteceu com o maravilhoso trabalho dos SATYROS na Praça Roosevelt.

Esboço de Paulo Mendes para a Ágora, clique na imagem para ver o desenho original

Ágora aberta ao público no dia do cinquentenário do Oficina, 28 de outubro de 2008

Acabei de fazer o prefácio de um livro sobre a Tropicália, “BRUTALIDADE JARDIM” (Brutality Garden) escrito por um americano professor de literatura brasileira na Tulane University em New Orleans, em que me foi revelado o termo HOMOSOCIAL, sem conotações diretamente sexuais, mas sim, Políticas. Os americanos na onda do CHANGE que elegeu Obama, trabalham a AFETIVIDADE como uma categoria Política. Aliás o Obama com sua elegância, delicadeza, demonstra em si o poder desta categoria nova na Política com P maiúsculo: o AFETO.

A ÁGORA é um lugar de exercício da POLÍTICA DO AFETO, o espaço da prática da homosociabilidade, ameaçada a transformar-se num lugar de consumismo, incentivador de toda a energia do capitalismo egóico, monologador, matéria prima desta Crise que o Mundo inteiro vive atualmente, trazida pela sofística financeira, Miss Especulação.

Nosso advogado Dr. Cristiano Padial Fogaça Pereira, deve entrar com uma ação, pois este lugar está em situação de contencioso. Por trás de uma funcionária nutricionista que pede que retiremos nosso material imediatamente daquele espaço, porque “vai haver uma reforma”, está certamente tudo que motiva a demolição da área do entorno Tombado do Teat(r)o Oficina. Pergunta-se : para quê ?

O público ainda não tem conhecimento: “720 apartamentos” ou “um Shoping” ?

Uma dezena de moradores de rua abriga-se embaixo do minhocão em frente ao Oficina do outro lado da rua e ao Sacolão

Em frente aos muros de portas e janelas emparedadas durante a demolição que já dura mais de 20 anos um morador de rua dorme

O Grupo SS está neste ser ou não ser sobre o que pode ser mais finaceiramente vantajoso e possível dentro dos frágeis fios da lei Urbana, defendendo timidamente a Cidade.

Está no contencioso porque tramita no MINISTÉRIO DA CULTURA magnificamente gerido pelo Ecologista Juca Ferreira, e no seu organismo de proteção ao Patrimônio, o IPHAN, sob direção do jovem e dinâmico arquiteto Luis Fernando Almeida, um PROCESSO DE TOMBAMENTO DO TEAT(r)O OFICINA como PATRIMÔNIO CULTURAL BRASILEIRO, de número 014 50005 674 2008- 21 e outro de seu ENTORNO QUALIFICADO para realização da complementação do projeto da arquiteta LINA BARDI de número 1515 T. B 04.

Este assunto todo tem de ser tratado publicamente.

Trata-se de uma questão que é a dominante nestes tempos de Crise : a do MEIO AMBIENTE, destruído pela especulacão financeira, sobretudo a Imobiliária.

Tudo está sendo feito na Moita.

A exposição pública deste fato, dá possibilidade de evitar-se mais um Crime Ambiental : a destruição do Bairro do Bixiga como Ponto de encontro fora dos guetos, da cidade de São Paulo.

O janelão do Oficina, ameaçado de tumulamento pela construção do grupo Silvio Santos – foto Nelson Kon

É preciso reforçar este lugar que já foi cosmopolita, enfraquecido, por sua divisão pela Construção do Minhocão, mas hoje merecendo uma real revitalização de acordo com seu destino histórico de ser uma Lapa, um Pelourinho, um Greenwich Village, uma Rive Gauche de São Paulo, enfim o lugar acolhedor da mistura social, que existe em qualquer capital do mundo e mais que isso, o da morada de um povo que lá vive, que sai para rua, põe cadeiras na calçada, e é em si um patrimônio, por trazer em seu corpo a história do lugar.

Este povo é exatamente nosso público alvo para o ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE, com a Universidade Antropófaga, a Oficina de Florestas, a ÁGORA e o Teatro de Extádio, conjuntos urbanos sem grades que queremos criar.

Os nordestinos, os italianos fundadores das primeiras cantinas, o Vai Vai, dos afro-descendentes, primeiros proprietários do Bairro, são importantíssimos para a criação de um espaço público cultural sem grades.

Beco do Oficina com a saída fechada e janelão, vistos do hoje estacionamento do Baú da Felicidade – fotos Cassandra Mello

As terras do Bixiga foram de Libertas, uma ex-excrava, proprietária da Chácara do Bexiga, que ía até a Avenida Paulista. Estas terras foram griladas, seu povo morador foi arrancado do seu Quilombo de que eram proprietários e jogados no Cortiço, nas “Cabeças de Porco.”

O mesmo pode voltar a acontecer agora, como já vem acontecendo: os moradores pobres, a riqueza do Bairro, que merece enriquecer-se no lugar que cultivou, estará toda ameaçada mais uma vez de ser levada para a mais remota periferia das periferias.

Já aconteceu com os os moradores do Prédio que foi da Caixa Econômica, entre eles Ariclenes Barroso, um de nossos mais talentosos jovens atores, vindo do nosso trabalho com as crianças do Bairro : O BEXIGÃO, que lá morava, teve de mudar-se pra bem longe do teat(r)o onde se formou, se forma e hoje trabalha profissionalmente.

Portanto acho justo tirar da clandestinidade este despejo que está sendo feito de parte do Corpo de um Teat(r)o, O Oficina, justamente no ano que comemora seus heróicos 50 anos de Vida Fértil no Bairro do Bixiga, Bela Vista.

Guerra pela paz.

Um grande abraço a todos que lutam com felicidade guerreira na

Guerra na Paz e pela preciosidade do Meio Ambiente.

José Celso Martinez Corrêa

Amor

Humor e Muito Mais