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Diário de São Paulo 10 de junho de 2010

Diário de São Paulo 10 de junho de 2010

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Teatro histórico complica planos do Grupo Silvio Santos
Tombamento do Oficina pelo Iphan pode acabar com os planos do Grupo Silvio Santos

FABIANO NUNES
fabiano.nunes@diariosp.com.br

No próximo dia 24 de junho pode chegar ao fim uma batalha de três décadas entre o Grupo Oficina, liderado pelo diretor José Celso Martinez Corrêa, e o Grupo Silvio Santos (GSS). Os grupos, que são contemporâneos (ambos foram fundados em 1958), travam uma briga de David e Golias por um terreno na Bela Vista, no Centro de São Paulo. O empresário tem projeto para a construção de um shopping ou mesmo torres de apartamentos na Rua Jaceguai, o que poderia descaracterizar a casa de espetáculos. O terreno do homem do Baú fica ao lado do prédio do Oficina, que tem projeto arquitetônico assinado por Lina Bo Bardi (1914-1992), também responsável pelo prédio do Masp, na Av. Paulista.

O teatro, que já foi tombado pelo Condephaat em 1983 (órgão que cuida do patrimônio histórico estadual), também poderá passar pelo mesmo processo, agora pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o que poderia colocar um ponto final na disputal. O processo deve ser analisado pelo conselho do Iphan no próximo dia 24.

De acordo com legislação do Condephaat, qualquer alteração num raio de 300 metros de um bem tombado precisa de uma autorização do conselho. Em 2001, após o órgão dar sinal verde para que o dono do SBT instalasse um empreendimento no local, o Instituto Lina Bo Bardi entrou com uma ação civil pública para anular a decisão. De acordo com o Condephaat, o GSS apresentou um projeto para a construção no terreno ao lado do teatro, mas ele deverá ser novamente analisado em breve pelo conselho. O GSS não quis se pronunciar sobre o caso.

A reunião do conselho consultivo do Iphan é emblemática. A decisão praticamente anularia a vitória parcial do GSS no âmbito estadual. Segundo o instituto, o tombamento federal tem como objetivo preservar bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também de valor afetivo para a população, impedindo a destruição e sua descaracterização. “Esse novo tombamento segue o resguardo do entorno do terreno. O Condephaat, através dos governadores que se seguiram nos últimos mandatos, cedeu totalmente à pressão da especulação financeira e praticamente passou a desconsiderar a lei do entorno. Hoje é um organismo com muito pouco poder”, disparou José Celso. De acordo com o Iphan, caso seja aprovada a intenção de proteger um determinado bem, seja cultural ou natural, é expedida uma notificação ao seu proprietário. Essa notificação significa que o bem já se encontra sob proteção legal.

Em abril de 2004 Silvio Santos esteve na sede do teatro para um encontro com o diretor teatral. Na oportunidade, José Celso apresentou ao empresário um projeto de expansão do teatro, que previa a utilização dos terrenos onde haveria a construção do shopping, na tentativa de conciliar as duas propostas. O apresentador disse que avaliaria a possibilidade do projeto. A batalha, que teve momentos de cordialidade neste encontro, pode acabar com o tombamento pelo Iphan nos próximos dias.

Construção está barrada até análise do tombamento
Confira entrevista com José Celso Martinez Corrêa.

DIÁRIO: A quem pertence o teatro atualmente?
JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA: O Teatro Oficina pertence a secretaria estadual de Cultura, foi desapropriado em 1984 pelo governador Franco Montoro, para que não fosse engolido pelo Baú da Felicidade. Durante o governo interino de Cláudio Lembo foi concedida a cessão de uso por 90 anos do terreno à Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona.

O projeto do Grupo SS descaracterizaria o teatro?
O Oficina teve um tombamento revolucionário, pois João Carlos Martins, secretário da Cultura na época, tomou uma posição firme diante da ameaça do teatro ser vendido ao GSS. Havia a possibilidade da construção de um shopping, hoje pretendem levantar três torres de apartamentos. Em ambos os casos estas obras destruiriam o teatro concebido por Lina.

O que seria perdido?
Há um janelão enorme que dá para a cidade, com que o público e os atores contracenam. É como se fosse o famoso vão do Masp. Por outro lado Lina plantou uma árvore de cesalpina que inicia-se no jardim do Oficina, atravessa o janelão e penetra com sua copa imensa o terreno. Há um teto móvel que dá para os céu, enfim, é uma concepção de espaço teatral revolucionária sem igual no mundo.

Por enquanto o GSS está impedido de construir?
O GSS, apesar de ter destruído todo o entorno, inclusive botando abaixo a primeira sinagoga de São Paulo e duas vilas romanas tombadas pelo Condephaat, não pode por lei iniciar a construção das duas torres e iniciar a venda dos apartamentos enquanto o projeto federal estiver em discussão.