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É PRECISO SALVAR O OFICINA

É PRECISO SALVAR O OFICINA

É Preciso Salvar o Oficina
Paulo Francis, de Nova York 
26 de Outubro de 1980
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Estou sabendo que o Teatro Oficina está ameaçado de perder o teatro que será comprado por Silvio Santos. Não quero acreditar nisso. O Oficina é uma das raras glorias incontestadas do teatro brasileiro, produto talvez o mais versátil e brilhante da revolução do teatro brasileiro entre 1955-1964, seja em autores convencionais, Gorky, Max Fritsch, ou em revivendo um dos mestres do modernismo brasileiro, Oswald de Andrade, José Celso Martinez e companheiros deixaram uma marca que ninguém apagará.

E São Paulo, digo o Estado, a cidade e a imprensa, vão permitir isso? Pelo que vale aqui fica meu espanto e protesto. O espanto é que essa revolução no teatro brasileiro começou em São Paulo e no Rio, quando apareceram diretores como Flávio Rangel, Antunes Filho, Augusto Boal, autores como Jorge Andrade, Oduvaldo Viana Filho, Gianfrancesco Guarnieri, Dias Gomes, companhias renovadas como a de Maria Della Costa, o Teatro dos Sete, Tonia – Celi – Autran, o Arena, o TBC, etc.
Não quero me alongar em nomes e no assunto. Quero é frisar que foi um esforço combinado de governos, do Estado, de jornais (“O Estado de São Paulo” tinha três críticos influentes, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi e Delmiro Gonçalves, a “Folha”, Paulo Mendonça), que tornou possível essa revolução.
E agora? Isso vai ser entregue ao meretrício (e possível abuso da bolsa popular, nos tais “carnets”) de um mambembe como Silvio Santos, que representa o pior “show business” brasileiro?

A questão, claro, é econômica. O sr. Silvio Santos tem todo o direito de comprar o imóvel., o teatro. O que não é admissível é que as forças políticas, econômicas e culturais de São Paulo permitam que isso aconteça, particularmente quando José Celso Martinez pretendia transformar o local e rua num centro cultural variado.

Francamente, só acompanho política brasileira no que se refere a reflexos no exterior, pouco sei sobre o Sr. Maluf, exceto que é violento em expressar opiniões e posições e que é violentamente combatido. Mas seja ele o que for, não deve fugir da responsabilidade de manter Sâo Paulo no centro da cultura no Brasil. Que são Paulo mate essa companhia, permitindo que Silvio Santos continue reduzindo à miséria a sensibilidade do povo, com um estúdio de TV, fazendo circo, é um escândalo que o Sr. Maluf devia evitar.

Nos tempos mais negros da ditadura o Oficina certamente foi visado como inimigo. Bem, e quem não foi? E na revolução do teatro brasileiro havia um forte componente de esquerda, mas isso nunca impediu “O Estado de São Paulo” de prestigiá-la pelos valores culturais que trouxe ao Estado e à cidade. O Sr. Maluf terá menos grandeza que os Mesquitas?

Todo mundo me fala da desagregação da sociedade brasileira. Mas não quero acreditar que tenha chegado ao ponto em que São Paulo se permite despejar uma das companhias mais produtivas e experimentais que o teatro brasileiro já produziu. Seria uma vergonha para a cidade, para o Estado, para os paulistas, para nós todos.

Se o governo não ajudar o Oficina, espero que grupos particulares apareçam e façam a hipoteca que pode salvar o Oficina, que afinal é uma das raras companhias que restam de um movimento teatral que deixou marca em nossa história. “Vender” o Oficina a um explorador da cabeça do povo é uma traição. É, em verdade, uma ameaça a segurança nacional. Não posso e não quero acreditar que isso vai acontecer logo em São Paulo. Tenho dito

Paulo Francis | Fotografia de Bob Wolfenson


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