O CINEMA COMO ARTE E PELE

CRÍTICA | Um devaneio consequente a partir dos filmes O Rei da Vela e Pitanga.

por Ruy Filho

No CADERNO TRANSVERSAL da Antro Positivo 

Ir ao cinema é um movimento talvez em extinção. Não o cinema como linguagem, mas o ir, propriamente. Digo isso, sem maiores responsabilidades ou grandes argumentos, pela perspectiva de quem observa o movimento que conduz o espectador à sala. Séries televisivas dão novos contornos ao comportamento do que assistir e também onde. E como são muitas, e muitas vezes mais interessantes, as salas tradicionais às grandes telas acabam se valendo de filmes de ação, efeitos, tridimensionalidades, personalidades em excesso e estratégias de marketing. Raros são os filmes que se querem arte. Ao menos por aqui. Em casa, na comodidade dos horários escolhidos, das pausas sem dilemas, do voltar a fita, das conversas em alto volume sem qualquer preocupação em atrapalhar a experiência, tudo é mais leve, mais fácil, mais adaptável, mais oportuno, mais atraente, mais e mais. No conforto, tudo parece mesmo ser mais. Ir ao cinema, por sua vez, é caro, quase sempre, e depende dos interesses das salas e distribuidoras do que poderemos e quando assistir. Sem falar da inevitável condição de enfrentar os insuportáveis corredores dos shoppings. Então, se não o cinema em si está em extinção, afinal há cineastas excepcionais em muitos cantos por aí, e confessando desde já o apelo dramático ao início desse texto, ao menos extingue-se boa parte do que a ele é produzido. Sem espectadores, alguns filmes não sobrevivem. E esse é o maior desassossego aos apaixonados pela sétima ou qualquer arte, pois é essa exatamente essa a parte que mais vale ser assistida.

Ir ao cinema é a ilusão de reconhecermos nossa época. Digo isso, diferentemente, então, com certa complexidade na sentença, argumentando a partir da dimensão do quão o Brasil, e especificamente ele, nos é apresentado nas produções recentes. Entre comédias românticas e comédias simplesmente, surgiu na última década uma geração de cineastas que volta o olhar ao país e suas entranhas. Mas nem tanto assim. As tentativas de muitas dessas narrativas são reviravoltas ao mercado, é verdade, contudo limitadas ao que delas se espera como argumento. Olham o entorno como quem defende uma tese que o antecede, apenas para validá-la, e não problematizá-la. Há nisso o imediato preenchimento de uma lacuna ideológica que não mais se via representada esteticamente e, cada vez menos, politicamente. Se a rubrica do ideológico serve bem aos contextos argumentativos de certas posições políticas; não se pode dizer o mesmo quanto à criação estética. As linguagens triviais sustentam roteiros fracos, de um suposto naturalismo crítico, no entanto mais como disfarces conceituais ao resultado simplório e superficial de nossas fotografias, retóricas, diálogos e proposições. O cinema brasileiro, por fim, se tornou a inevitável face à serviço de discursos, afastando-se das possibilidades de invenção da linguagem, de ser antes a dimensão poética dos artistas que o realizam. Exatamente a parte que mais vale existir.

Então chegamos inexplicavelmente a 2017. Sobrevivemos ao ano que passou e a mesma conclusão já pode ser dada a este. Sobrevivência como sendo uma espécie de resistência vazia, pela qual apenas o existir e permanecer parecem ser suficientes. Tem sido assim há décadas. E pouco, de fato, se transformou com tal postura dos nossos artistas. Ao contrário. Estamos cada dia pior, e nada parece ser forte o suficiente para inverter essa trajetória. Reclamações e acusações se provaram ridiculamente inúteis. Será?

Se discursos não servem para modificar contextos bipartidos; se protestos não servem para o cinismo impregnado; se lamentos não são capazes de sensibilizar; se valores são transitórios e por isso mesmo manipulados; se verdades não mais existem; se a realidade se amplifica e desdobra sobre ela mesma em variações e sistemas de poder; se o outro tem menos importância do que o próprio; se o amanhã está inevitavelmente contaminado e destinado, então como reagir? Como pode o cinema empreender ao outro um estado sensível que vá além dos mercados de conclusões e sensações programadas?

A resposta parece mesmo impossível. Mas não é. E nesse mesmo descontrolado 2017, dois dos mais relevantes filmes modernos brasileiros ocupam as telas de cinemas, ainda que por poucos dias, poucas salas, ainda que só em ocasiões. Curiosamente, ou nem tanto assim, ambos trazem um Brasil passado que exige ser novamente futuro, que solicita a dimensão do amanhã pela perspectiva de outro visível possível e não mais a melancolia decorrente da estagnação. São, ambos os filmes, gritos, e são também carnes. São verbos e são olhos. São rasgos e destroços e medos. E liberdades tamanhas, que não se pode controlá-las. São, para além de tanto, arte, em seu sentido mais humanizado e dionisíaco. O REI DA VELA e PITANGA deveriam estar em todas as salas desse país atingido pela desesperança, em todas as televisões e casas sucumbidas pelo niilismo, em todas as paredes de escolas convidando as pessoas a abandonarem suas mesas e lousas para olharem a grandeza de existências poéticas. E deveríamos, então, assistir O REI DA VELA dançando junto a quaisquer outros em praças públicas. E deveríamos assistir PITANGA, à beira-mar, de mãos dadas a qualquer um, após um pôr-do-sol.

Quando Zé Celso montou o texto de Oswald de Andrade, na cada vez mais próxima de retorno década de 1960, revolucionou a perspectiva do teatro em muitos dos valores até então dados como imprescindíveis. Abriu o teatro brasileiro ao que de mais moderno poderia existir à sociedade. Não o modernismo andradeano da academia esclarecida, mas o oswaldiano libertário. A antropofagização como estado inerente de devoração estética e simbólica; a regurgitação como proposição anárquica e libertária. Precisou de décadas para que o filme fosse finalizado, após viajar por continentes escondido e surgir aqui e ali contrabandeado. Sobrevivente às violências e histórias, hoje aparece mesclando cenas de ensaios, apresentações no teatro e pública, ficcionalizações da própria montagem, materiais documentais do cotidiano e pequenas instâncias do viver comum, depoimentos. E a resposta é espantosa. O filme é ainda o que de mais alucinado e potente essa estética foi capaz de produzir. Essa? Esqueça as fronteiras dos movimentos. Não apenas como tropicalista ou qualquer coisa assim. Abra o olhar. É mais. Falo sobre ser grande mesmo dentre os maiores.

Há na montagem propositadamente caótica a explosão das artificialidades que se fingem perfeitas, não para lhe produzir efeitos de obra pura, mas para lhe retirar qualquer dimensão purista e puritana. E se realiza, ao fim, como a soma das experiências narrativa e estética que necessitam o próprio corpo do espectador em seu estado máximo de alerta. É preciso ver, ouvir, assimilar e se deixar possuir pela dinâmica de um rito fílmico, cujas três horas de projeção evocam. Não há tentativas de facilitar esse convívio. A cadência é crescente como se fosse realmente chegar ao grito mais profundo de um animal acuado. Assusta e seduz. Ou melhor, assusta por tamanha profundidade de sua sedução. E seduz assim porque passamos as suas horas em profundo desafio sobre nós mesmos, nossos limites, nossas emergências vazias, buscando referências que se esbarram e ainda assim são insuficientes. É inevitável associá-lo ao discurso incontrolável de Glauber Rocha e suas películas, ao carnavalesco de Arthur Omar e suas imagens em colorido eufórico, ao mítico de Miguel do Rio Branco e a presença como estatuto de rebeldia, ao existir em ação de Oiticica, às vozes em canto das rádios e a utopia de um país futuro, à verborragia sonora de Duprat… Alguns vieram depois, outros surgiram praticamente ao mesmo instante. O fato é que o Brasil se fez e se descobriu mais específico a partir da peça O Rei da Vela, ampliando seu desejo por revolução em muitos aspectos. E o filme, ainda que possam ser trazidas muitas outras aproximações, tem igual capacidade em reinventar o país nesse novo instante. É, por conseguinte, muitos e ele mesmo. É soma e singularidade epicêntrica que não busca mais a revolução, e sim a insurreição contra as mais precisas certezas.

Como base estão principalmente artistas, e nada mais. Um devaneio poético surgido consequente ao existir ao seu tempo, e que podemos conferir como fundamental ao agora, sem nada perder. Poucos trabalhos são tão impressionante quanto o de Renato Borghi em cena. Possivelmente o maior já realizado por um ator aqui, seja no teatro, seja no cinema. E é, assistindo a ele e tantos outros brilhantes, que se entende a dimensão maior alcançada ao não querer traduções e simplificações, ao não ser a voz pública e dizer o que se espera ouvir. O REI DA VELA, Zé e Renato, sobretudo, essa união cósmica entre dois gênios nascidos no mesmo dia, do mesmo mês, do mesmo ano, expõe de modo definitivo o quanto a produção cinematográfica no Brasil está previsível, careta, chata e rendida aos discursos e aos sistemas de mercado regidos por ideologias e contra-ideologias. Se cabe algo mais a esse filme é a competência em ser incontrolável, imprevisível, belo, anárquico, necessariamente perigoso, autoral, erótico, pornográfico, multidimensional. O REI DA VELA é uma aula sobre outra potência do que pode e precisa ser a arte no cinema. E, acima de tudo, uma aula do que é capaz alguns homens e mulheres quando se olham e se reconhecem artistas.

Como disse, antes, são dois filmes… Quando Camila Pitanga resolveu fazer um filme sobre e com seu pai –  nessa década que simplesmente se tornou aterrorizantemente outra, desde o inicio do projeto -, revolucionou a maneira de como podemos entender muitos dos valores, até então dados por perdidos e insolúveis. Antônio Pitanga está longe de ser qualquer pessoa. E o filme é mais do que sobre isso. Ao construir sua persona e não apenas traduzí-la, Camila concretiza um olhar à cinematografia brasileira também a partir da figura do negro. Isso é revelador. Por mais que digam ser alienação não ter percebido isso antes, não é apenas sobre a obviedade do existir negro que trata. Vai muito além. Rascunha sociedade, política, cultura, religiosidade, épocas e outros tantos aspectos. Sem precisar ser excessivamente ideológica, os argumentos surgem pela trajetória e potência oferecida por Pitanga, expõe haver sim um espaço maior ao artista, quando este se fundamenta como tal. Em nenhum momento nega-se a negritude ou as condições de submissão imposta ao negro, portanto. Opta acertadamente não fazer disso o discurso autoexplicativo. Se o fizesse, chegaria aos mesmos limites e estereótipos de muitas produções atuais à desculpa de manifestos. E por superar,  o filme é imensamente mais profundo. Ao trazer o negro como identidade possível também ao artista, o filme conduz o espectador a algo mais inesperado e dolorido. O negro como apenas alguém. Alguém como apenas a possibilidade de ser qualquer um. O qualquer um como igual e digno de ser apenas ele mesmo. Não é essa postura simples de ser assumida, em tempos de confronto ao racismo ainda imposto de maneira tão cruel. O que amplia a urgência em assistí-lo em tela grande, em público, em conjunto, mais do que no silêncio do quarto. Assim, Pitanga, o ator, é inicialmente o artista, e não apenas o corpo, a pele. É arte em expansão e superação das regras brancas que a ele não se impuseram plenamente. É a face de uma brasilidade destemida, sedutora, linda, apaixonante e afável.

Se em O REI DA VELA descobrimos, durante o passar do filme, os artistas existentes naquelas pessoas, em PITANGA surge o homem, dionisiacamente, ao artista exposto, ao convívio com um talento especial, cuja qualidade vaza em gestos e olhares improvisados. Para ele, as câmeras é como se fossemos nós, instrumentos ao contato com o outro, conversas, abraços fortes, carinhos sinceros. É encantador assistir a cada momento seu nesses muitos clássicos do cinema nacional. Pitanga esteve em todos os instantes importantes da nossa história e do cinema dialogando através de sua imagem, colorindo a tela branca com seu existir negro em movimento, como se define em determinado momento. Todavia, ainda que isso seja muito, é pouco perto dele mesmo. São os instantes de conversas com convidados os mergulhos mais preciosos. Encontros com quem compartilhou sua vida, romances, trabalhos, ou mesmo os dois. E é esse homem, essa divertida figura realmente incrível, já  que não é possível dizer menos, a real revolução que precisamos recuperar.

Por trazer em si o sorriso, Pitanga desestabiliza por sua sedução. A fala gentil, o gesto amigável, os olhos sempre próximos aos com quem conversa. Frase à frase surge sua inteligência crítica singular, irônica, experiente. Experimentada, melhor dizendo. Pois fez da vida seu alicerce aos desejos, e não o desejar como desculpa ao viver. Sim, isso muda muito. É preciso aceitar-se vivo, e assim se querer. É preciso pulsar e nisso descobrir o infinito. PITANGA é sobretudo a dimensão possível de um homem apaixonado pela vida, e por isso deseja o amanhã como quem se diverte com o presente com a mesma proporção. Há nisso uma juventude inesgotável. Molecagem descontrolável. A sensação não é de Pitanga participar da história desse país, mas da história correr a ele sempre que precisa recuperar um pouco de humanidade.

Poderia ser somente um artifício ou argumentação solta, conclusão qualquer. Responde a isso a inteligente solução dada à montagem nessa direção conjunta entre Camila e Beto Brant. Cenas e conversas. Nessa ordem. Intercaladas, nem sempre são passíveis de reconhecimento imediato aquele/a com quem o ator contracena. A face surge depois, no presente e não no ontem, e surpreende de quem seja. Assim, a ilustração inevitável nessa soma se vale pela capacidade em provocar curiosidade em descobrirmos cada um. O processo repetido durante todo o filme sustenta o interesse e oferece dinamismo à narrativa. Por ir e voltar no tempo, ao não ser uma catalogação linear das obras quais Pitanga participou, conclui-se que o interesse é mais pela construção do homem do que do artista. Ou melhor, do homem por dentro desse artista. Um alguém único. Um alguém de fato especial pela lucidez e doçura.

Assistir ao filme de Camila sobre seu pai é olhar para o que perdemos nesses anos todos. As décadas passaram, o Brasil mudou, se libertou, ou é o que achávamos; melhorou, ou é o que pensávamos; fez-se outro, ou é o que desejávamos. Até tudo ruir. Quem, de nós e em nós, sobrou nesse esfacelamento ideológico e simbólico é impossível descrever. Tornamo-nos sombras sem iluminações capazes de produzir consciências às presenças. Retornamos às cavernas destituídos de nossos mitos. Animalizamo-nos à caricatura errática de uma carnificina intelectual e moral, feitos canibais, e não antropófagos. PITANGA nos puxa pela alma de volta à vida. E nos convida a muitas coisas. Quer de nós o sonho, o desejo, a luta, a vontade, a esperança, a diversão, o prazer. E quer, como o homem-artista quis para si mesmo, que se realizem sem rédeas, igualmente anárquicos e descabidos. PITANGA revela o quanto nos tornamos pequenos, caretas, mediocrizados pelo imediatismo, chatos, brochantes, desnecessários e estúpidos. Pitanga, filme e homem, pedem ao espectador seu estado mais poético de alerta para então reconstruir outra qualidade de indivíduo e, por conseguinte, corpo em ação. Obra-prima sobre a urgência de reativarmos nossa humanidade.

Então abra seu guia cultural. Procure nas entrelinhas, pois O REI DA VELA e PITANGA não são nada fáceis de encontrar por aí. Por razões óbvias. Porque são fundamentais ao descobrimento de que podemos sim mais, de conseguimos ser melhores e menos servis. Nas praticamente cinco horas que ambos somam, acumulam no espectador tamanha vontade de voltar à vida que é possível, depois de frequentadas, nunca mais ser o mesmo. Ah, o cinema brasileiro… Quando feito certo, existindo em arte e pele de verdade, é o deleite do gozo vitorioso de Dionísio em plena bacanal. E ninguém sai o mesmo depois de experimentar o prazer de uma boa trepada. Imagine de duas.


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