Lendo

Entrevista com Cristiano Karnas e Armando Amaré, d...

Entrevista com Cristiano Karnas e Armando Amaré, de Empoeirados

 

Atualmente em cartaz em São Paulo, a peça “Empoeirados” ocupa o Teatro Oficina enquanto a Cia Oficina percorre o Brasil na turnê do Dionisíacas em Viagem. O espetáculo é dirigido por Cristiano Karnas e leva à cena os atores Ed Moraes e Armando Amaré, dando corpo/vida/voz ao universo sempre poético do ator/dramaturgo Gero Camilo.

 

A história da peça é a de dois atores, Um e Outro, que acabam de deixar sua companhia de teatro para iniciar uma jornada mambembe em busca de novos caminhos. Enquanto isso, confabulam sobre a construção do espetáculo que sonham encenar. Mas a verdade é que a montagem fala muito mais! Para entender um pouco mais dessa metáfora sobre companheirismo e transformação, entrevistamos o diretor Cristiano Karnas e o ator Armando Amaré. Confira:

 

Como surgiu a idéia de fazer o espetáculo?

 

Armando Amaré – Do encontro de duas pessoas desconhecidas, com as mesmas dificuldades e com vontades semelhantes. Esse foi o meu encontro com o Ed Moraes, após a vivência no show do amigo Rubi.

 

O que mais chamou a atenção no texto de Gero Camilo para induzi-los a montar Empoeirados?

 

Cristiano Karnas – Eu e o Gero nos conhecemos desde 1993, quando entramos e começamos a cursar juntos a EAD (escola de arte dramática); desde então temos uma parceria intensa de muitos trabalhos e projetos realizados; chegamos a morar juntos muitos anos, então muitos dos textos do Gero que estão na Macaúba da Terra eu vi nascer, li junto as primeiras frases, fui testemunho e estímulo de muita coisa. Naturalmente me identifico muito com o seu universo poético e partilho muito com sua linguagem híbrida, que faz a literatura pulsar quente, querendo virar drama e verbo (ação), louca para reverberar no corpo que fala, a qualquer momento.

 

Armando Amaré – O encontro da poesia e da veracidade, e, ainda mais, a idéia de unir três textos diferentes, que deixava mais claro o que nós, atores, queríamos oferecer ao público.  Assim tornando mais orgânico e aproximando da nossa idéia inicial de podermos fazer e concretizar o que estávamos com vontade de falar naquele momento.

 

Qual foi a principal dificuldade em transformar o texto em dramaturgia?

 

Cristiano Karnas – No caso, a grande dificuldade foi amarrar e concatenar três textos diferentes e transformá-los numa trajetória única, sendo que um destes textos já era uma peça curta; um outro, era um conto relativamente longo e o terceiro uma fábula extremamente poética e metafórica, três estilos bem diferentes. Criamos, então, a dramaturgia em três camadas:  a “estória/trajetória” dos dois atores que vagam pelo mundo foi tirada do conto “Caminham Nus Empoeirados”, como base para as narrativas;  os diálogos de embate entre as personagens, a parte da ação dramática propriamente dita, foi tirada da peça curta “Ímpares”, e a fábula “Do amor de um pássaro por um lagarto” é utilizada como a camada poética/utópica/lúdica da peça, aparecendo como o texto criado em tempo real pelas personagens – contendo  o ideal do teatro que eles sonham realizar, mas que é também a própria metáfora da relação entre eles .

 

Apesar de bastante ágil e valorizando muito a poesia do texto, o espetáculo é recheado de “silêncios” e imagens fortes. Essa foi uma opção proposital ou fruto do processo de elaboração da montagem?

 

Armando Amaré – Nessa montagem coletiva, com muitas idéias e muita ação, principalmente corporal, percebemos que o silêncio é uma respiração para o púbico e para nós, atores. “Uma pausa natural”, que gera imagens fortes, inesperadas.

 

Cristiano Karnas – Acho que um pouco dos dois. Já tinha um propósito de brincar com estes opostos/complementares, Um/Outro (como são chamadas as personagens), Yin/Yang, rápido/lento, pausa/movimento, som/silêncio, que são questões pertinentes às artes cênicas, e o nosso compromisso, no caso, é com o teatro, como ressaltar a teatralidade do texto, traduzindo a linguagem literária na cena, traçando paralelos entre a subjetividade do que é lido, com a objetividade das imagens criadas no espaço teatral. Mas o como isso foi feito, foi fruto do processo.

 

Que passagem do texto resumiria a idéia central do espetáculo para vocês? Por que?

 

Armando Amaré – “Lá se vão dois mundo num…” , porque é a tentativa de dois, um experimento que “ sabe-se lá o que vem depois”, é a aposta, o convívio, a descoberta, a parceria. Enfim, esses mundos diferentes que se encontram com objetivos semelhantes.

 

Cristiano Karnas – “…Agora vivia todo dado a chafurdar nos baús do ofício, a procura de um gesto capaz de sustentar um ouvido. Parar um transeunte. Na cena nos falta isso, é por essas que passamos fome. Sem público o ator não come!” . Este trecho, prá mim, resume tanto a motivação das personagens, que largam suas companhias teatrais e partem numa jornada mambembe –  “ a procura de um gesto capaz de sustentar um ouvido. Parar um transeunte” – , quanto a motivação dos próprios atores Ed e Armando, e de todos nós, que na verdade é a busca de nossa própria essência, a essência do que é ser artista. Além da busca por uma expansão de comunicação com o público, que é a própria luta pela sobrevivência.  “Sem público o ator não come…”, ou seja, não se alimenta nem fisiologicamente, nem muito menos espiritualmente, já que não há a comunhão plena da experiência teatral, sem o testemunho vivo de outros seres-humanos.

 

Como Empoeirados chegou ao teatro Oficina?

 

Cristiano Karnas – Eu acho que é uma pequena-grande história. Objetivamente esta temporada aconteceu graças ao encontro entre o Ed Moraes, que é um dos atores/produtores do espetáculo, e o Marcelo Drummond, que iria dirigir uma peça prá ficar em cartaz aqui no Oficina durante as Dionisíacas. A peça acabou não rolando, ele se interessou pelo nosso projeto e fez a proposta. Nós topamos na hora!… Mas, eu, particularmente, tenho uma ligação muito forte e antiga com o Oficina. Em 1989, eu então com 14 anos de idade, acabado de chegar de Porto Alegre, morando no interior de São Paulo, em São José dos Campos, vim me inscrever num curso de teatro na antiga Oficina Cultural Três Rios (atual Oswald de Andrade). Acabei vindo parar no Teatro Oficina antes da reforma toda, e participei de uma mega Performance/Celebração Uzina Uzona à Oswald de Andrade, no centenário deste. Depois, em 1995, eu vim junto com minha turma da EAD fazer parte das primeiras leituras do texto das Bacantes. Retornei, anos depois, como assistente de preparação corporal da Tica Lemos, no início do processo da 1ª parte de Os Sertões; me apresentei algumas vezes com o meu grupo Cia Nova Dança 4 nesta época;  depois, minha irmã, Fabíola Karnas, trabalhou um tempo aqui no Oficina também. E,nfim ao Teatro Oficina eu nunca chego, eu sempre retorno !

 

Que aspectos do trabalho de vocês se assemelham à visão de Teatro do Oficina?

 

Armando Amaré – Boa pergunta, não sei se consigo responder essa. Acho que, de alguma maneira, me inspiro nesse “agora”, no instante. Quando vejo uma peça do Oficina, nunca sei onde vai parar, com tantas surpresas. Talvez a semelhança esteja na prontidão do inesperado, do que está por vir. Será que consegui?

 

Cristiano Karnas – Acho que principalmente na questão da ritualização do ato teatral, na idéia de compartilhamento coletivo do sacrifício da máscara, do expurgo catártico, mas com a consciência do Jogo, onde todos participam. Mas quem conduz a bola são os jogadores, que no caso, são os atores.

 

Que tipo de adaptação foi feita no espetáculo para o espaço?

 

Armando Amaré – Praticamente uma nova montagem! Esquecemos o que fizemos no Sesc Paulista (uma caixa preta), para descobrir muitas possibilidades no Oficina. Com um espaço sugestivo, conseguimos fazer com que o público entendesse e visualizasse cenas que talvez não estivessem muito claras. Um exemplo foram as cenas do pássaro e do lagarto. O espaço nos concedeu muito mais liberdade e descobertas para termos uma consciência cênica.

 

Na peça, a história dos dois atores em busca da sobrevivência funciona como uma metáfora para todos que querem uma vida mais intensa, verdadeira.  Como o teatro pode contribuir hoje para esse anseio pessoal de liberdade?

 

Armando Amaré – No meu caso, não só de liberdade, mas de realização pessoal. O teatro possibilita para os atores e expectadores uma maneira de mostrar o diferente, o novo, uma possibilidade de soluções e questionamentos sobre a sociedade. Talvez essa liberdade esteja mascarada e o teatro só tenha a função de tira essa máscara.

 

Cristiano Karnas – Seja para quem quer fazer e viver desta arte, seja para quem quer dela apenas se alimentar como espectador e apreciador, o Teatro é, e sempre será, um agente fundamental de transformação e revelação do que há de mais intenso e verdadeiro na essência  humana, movendo e integrando de maneira única (quando intenso e verdadeiro!)todos os nossos corpos (físico, mental e espiritual), o que por si só, já é, uma das experiências mais libertadoras que se pode ter.

 

SERVIÇO:

EMPOEIRADOS

Direção: Cristiano Karnas

Com: Ed Moraes e Armando Amare

Texto: Gero Camilo

Duração: 70 minutos

Classificação: 16 anos

Local: Teatro Oficina – Rua Barão De Jaceguai, 520 – Tel: (11) 3106-2818

Quando: (Qua e Qui) às 21h. A bilheteria abre uma hora antes. Até 01/07.

 


Mitch Wishnowsky Womens Jersey