Gardner Minshew II Jersey Daniel Jones Womens Jersey  Entrevista de Zé Celso à revista El Siglo – Teat(r)o Oficina
Lendo

Entrevista de Zé Celso à revista El Siglo

Entrevista de Zé Celso à revista El Siglo

ENTREVISTA COM JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA 

 

Autor, diretor de teatro e ator brasileiro

por Jairo Máximo, em Madri (Espanha)

P/: Revista El Siglo de Europa (España) e Agencia de Noticias Euro Latin News


1 – “Eu sei quem sou” disse Don Quixote. Zé, você sabe quem é Zé Celso?

Eu não, eu sei que não sou, que estou sendo, quase sempre, mas às vezes não sendo.

É raro mas às vezes some a alma erótica, morro nuns tempos mortos.

Me sinto sendo na intensidade amando no “paucucama”, na pista do teat(r)o OficinaUzynaUzona, atuando, sambando, cantando, encenando, e no mar que chamo de a mar, no feminino em brazileiro como acho que em espanhol, não sei, “El mar” é masculino, mas eu gosto de dizer mar como “a” mar, que no crioulo português = o brazyleiro, soa o mesmo que amar. Mas quando estou sendo, ser-estando, nem sei de mim, estou vivendo.

Se sou obrigado pela burocracia a ser alguma coisa, algum rótulo, sofro com isso. Detesto esta especulação da divisão mecânica do mundo, sou holístico, vivo no corpo sem órgãos do cosmos, vivendo, morrendo, sendo… no tempo… e no contratempo.
 

2 – Sente desassossego?

Claro. Me impacienta o fato do Brasil não assumir agora, imediatamente a liderança na descriminalização total do que chamam de drogas e passar seu controle ao Ministério da Saúde, para garantir boa qualidade das mesmas, e aos Ministérios da Educação e da Cultura para liberdade de seu uso criativo. Cada vez que vejo a queima de plantação da Santa Maconha , aqui conhecida como Santa Maria = Nossa Senhora, princípio feminino da natureza, sofro. Sofro quando sei do genocídio diário de uma multidão de crianças, na maioria negras, os “aviões” do trafico. Tudo isso envergonha futuras gerações, como nos envergonhamos do holocausto e da inquisição, que infelizmente persistem até hoje.

A Criminalização das drogas somente interessa à indústria e ao comércio armamentista. Enquanto isso não acontecer, e se fugir deste óbvio que a guerra do narcotráfico é um fracasso, ninguém vai ter sossego. A violência vai continuar mais forte. Não acho que um dia a violência vá desaparecer no mundo mas esta massiva, de extermínio de milhares de seres humanos, que mata mais que as guerras explícitas, simplesmente não é necessária.

Causam-me desassossego também os Monismos, os que ainda acreditam que existe uma só verdade, um só caminho. As 3 grandes religiões herdadas dos impérios continuam a atormentar nossa espécie culpabilizando, desssacralizando o que mais lindo a vida tem: o amor, a sexualidade, a sensualidade, o erotismo. São profanadores do sagrado e burros, pois não percebem a biodiversidade das perspectivas múltiplas, das milhares de intepretação q tem existido e existem agora na história sempre se fazendo da vida humana, transhumana, animal, mineral, vegetal…
 

3 – Quem descobriu quem: você o teatro ou o teatro você?

Os dois. É sempre uma questão semelhante ao amor do amante e do amado. Nós atores num primeiro momento somos amantes, vemos o outro divinizados, e se o outro nos percebe com nossos olhos apaixonados, acontece a magia. O Teatro é a propia vida. A todo tempo estamos agindo, com as máscaras necessárias de Dionísios que usamos descartavelmente quando precisamos praticamente agir. Mas na esfera da Foda dos Estetas, na Arte, do Amor entre Poetas, quando conseguimos o elo apaixonado com o Outro: nosso Outro, e o Outro que não somos nós, o Outro Multidão: dá-se o fenômeno da Estasia, da catarsis, do Teat(r)o.

Não é uma Arte de mão única. O Teat(r)o existia antes de meu aparecer no mundo, ele me encantou, mas quando me dei a ele no meu segundo nascimento, quando compus com 21 anos minha primeira música de introdução de minha primeira peça, que veio em 40 minutos, descobri que estava dentro desta Arte. Que ela tinha me parido mas daí em diante seria eu também gerador dela, ela desejaria e necessitaria de minha criação com a de muitos outros, com Companhias, “Tyazos”, como se diz na língua de fogo de Dionisios.
 

4 – Que pretende com seu teatro?

Como você já deve ter percebido escrevo teat(r)o, com o r entre parêntesis. Acredito que é uma arte ligada ao ato, à ação, ao movimento. Não de uma “intriga”, de um “drama”, de “plot” como dizem os americanos. Detesto o drama. Minha Paixão é a TragyKomédiOrgya, a ação ligada à fatalidade das muitas mortes em vida, muitas mortes iniciáticas, pois a vida é deliciosamente trágica. Todos nós temos uma única certeza: morremos, e muitas vezes em vida ainda, repito: conseguindo às vezes ressucitar e outras vezes não, épocas em que perambulamos como mortos vivos.

Mas o Teatro ao mesmo tempo é a Casa do Caralho! A primeira procissão que saiu dos subterrâneos Orgyasticos dos “Mistérios de Eleusys” foi a Comédia com seu culto a uma Árvore-Caralho, trazendo a gargalhada rasgada da Alegria. Este cortejo de Satyros brotou das Orgyas, tanto nos suterrâneos orgyasticos como no amassar das uvas, para fabricar-se o vinho, bacantes e satyros, enchendo as caras, incorporado na bebedeira alcolátra, entidades, desenhando no chão com os pés, que dançavam os Ditirambos, a forma arquitetônica das Arquibacadas Orelhas do Teatro Grego Antigo.

A Cultura mais forte hoje é a do Ditirambo Dionisíaco, q está no Samba, no Funk, no Rock, no Hip Hop, na Salsa, enfim em tudo que suinga, mexe com as cadeiras, roda ao som do tambor, no canto, na dança, em torno do fogo ou na Pista Cyber. A Orgya renasce num mundo pós newtoniano, pós mecânico em que tudo se liga e o amor se liberta da prisão edipiana do micro estado da Família. Como no “Banquete”, de Sócrates, “fidelidade ao amor, que em todo canto soa, e não à uma pessoa”. Aliás nós montamos “O Banquete”, que transcriamos em verso e música e libertamos das visões dos monges medrosos da idade Média que consideravam o amor platônico sem amor carnal, separavam o corpo da alma, senão eram queimados.

Mas resumindo, desejo que o teatro seja um Esporte de Multidões, como foi para Ágatao, personagem que oeferece o “Banquete” vindo de uma representação para 30.000 mortais. Mas não tem nada a ver por exemplo com o “Cirque Du Soleil” que é muito bonito, mas enquadrado no curral da cultura do Teatrão Mercado dos Bons Costumes.

Nosso maior poeta Oswald de Andrade, na Grécia Carnavalesca do Brasil, encontrou o “Teatro de Estádio” para Paixão do Povo, para a Emoção e a Catarse do Povo, onde não haja Bodes expiatórios mas Bodes Cantores de todos os Tabus, a maior riqueza que a humanidade tem reprimida, transmutada em Tótens, em Sagração da Vida sem Pecado.
 

5 – Tem medo do artista que leva dentro?

Só quando ele foge de mim.
 
6 – Em que consiste o trabalho do artista?

Como Rimbaud dizia: “Eu é um Outro”. O Artista é este outro que caga seu “ego” e se pluga nas energias do corpo sem órgãos de cada instante e cria mais vida. É mais um desconstrutor. No ato de desconstruir as formas da Sociedade de Espetáculos, produção do “ego” para vender seu peixe. Curral de escravos dentro de uma prisão sem vida, mas de muito luxo. Existe nessa sociedade dos caretas, um corpo colonisado, como os EEUU são até hoje. Insistindo nas guerras coloniais como no Afganistão. É impressionante um ser sofisticado e lindo como o Obama tendo de fazer continência, como se viu na semana passada em fotos da Mídia, para uma meia dúzia de mortos dos soldados da colonização americana, carregados por um bando de soldados bonecos, ignorando as centenas de mortos dos povos ditos ainda “do mal”, “bárbaros”.

O artista começa por descolonizar seu próprio corpo q no ocidente é regido por uma irracional Razão localizada numa parte do cérebro, como um Papa, um Rei ou um General que escraviza seu instinto e seu encontro com o surreal, com o Outro, com o sonho. O Artista tira as viseiras desta sociedade de cativeiro e entra em contato com a coisa em si, com o fenômeno sem nome, sem dono, sem marca, que são as coisas da vida. O Artista é um grande libertador da consciência positivista aprisionada do rebanho, e introduz o corpo no universo descolonizado, errando viajante com o Sol, sincrônicos aos milhares de micro e macrouniversos.


7 – O que representa para a história do teatro brasileiro 51 anos de vida do Teatro Oficina?

Há uma Pinga que vem da terra da maior atriz brasileira de todos os tempos: Cacilda Becker, que sofreu um aneurisma no segundo ato de “Esperando Godot” e depois de um coma de 40 dias morreu. Essa atriz que é um mistério de Corpo descolonizado, elétrico, nasceu e viveu sua infância em Pirassununga, uma cidade do interior do Estado de São Paulo que produz a pinga mais popular do Brasil, a “51” e que em sua propaganda proclama: “Uma Boa Ideia”.

“51: uma Boa Ideia”. Mesmo não gostando de “Ideias”, que só serviram pra torrar gente em praça pública, e detestando “Ideologias”, acho que porque escrevi uma Tetralogia em torno desta Atriz Mítica Brazyleira, Cacilda Becker, com o nome dos entusiasmos exclamatórios desta mulher: “Cacildas !!!!!!!!!”, ligo os 51 anos de Oficina a esta Pinga. Imagina! Somos a Companhia mais velha do Brasil e a mais jovem ao mesmo tempo. Não nos fossilizamos. Não somos unanimidade, vivemos no equilíbrio desequilibrado do Samba, sempre trocando gerações, cada vez mais mestiça, com gente de todas idades, culturas, teatros, numa mestiçagem completa com a Era Digital, misturando Cinema, Web, comunicação diretíssima, toque físico e virtual no público, música, dança, tudo = PANTEAT(R)O.
 

8 – Teatro é alquimia?

Claro. Nos ensaios passamos por uma morte alquímica iniciática e buscamos combinações das mais rimbaudianas misturas de matérias sutis e óbvias, e mesmo quando estreamos, com o público, vivemos um cadinho sempre em mutação e combinação de fatores antogônicos dançando sem jamais encontrar uma síntese…
 

9 – Teatro é milagre ou faz milagre?

Os dois.
 

10 – O que pensa da esquerda brasileira; se é que ela existe?

Há uma esquerda cuecona, que cultiva o ressentimento, a “resistência”, palavra que detesto e troco por re-existência, mas existem hoje como em todo mundo muitas outras esquerdas que contracenam até com a direita. Pois não focam mais a Política exclusivamente na luta de classes e na infra estrutura do capitalismo.

A Luta de classes existe, mas mais forte que ela é a dissolução das classes, as desclassificações, e a descoberta óbvia que a Cultura não é Super Estrutura, mas Infra-Estrutura. A Economia Financeira Especulativa, relação senhor escravo na luta de classe é uma produção dos seres humanos escravizados que não acreditam no seu poder transhumano. O Teatro é um lugar de Poder e de Phoder. Temos no Brasil a sorte da palavra poder com ph, como se escrevia antigamente, ser ao mesmo tempo o “hoder”, ah, em espanhol tem a ver também. O Poder vem do carisma humano, de quem cultiva a vida como arte, o Poder de presença que tem o Grande Ator diante da pequeneza daquele homúnculo escondido atrás do poder das armas e do Capital. Acredito que no movimento “Tropicália” no ano de 1967, surgido no Brasil, como retorno à Antropofagia de Oswald de Andrade, poeta que escreveu seu “Manifesto Antropófago em 1928 e aos Índios Antropófagos Caetés, da tribo do Presidente Lula que nasceu numa cidade que tem este nome no Nordeste, bem, acredito que a “Tropicália” corresponde ao que foi na obra de Hélio Oiticica, Glauber Rocha, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, José Vicente, Plínio Marcos, Nelson Rodrigues, num embrião de luta armada, em canções, peças de teatro, filmes, obras de arte que tiraram o quadro da parede e o vestiram, uma espécie de Manifesto Comunista dos tempos de hoje. Escrevi um prefacio da tradução brasileira de “Brutality Garden” de Chris Dunn, um “brasilianista”, como chamamos aqui os estudiosos das coisa brasileiras, no caso criador de um livro que percebe a Política Homossocial contemporânea na “Tropicália”. Prefaciando me dei conta da importância da categoria afetiva como categoria Política ligada ao movimento ecológico, pirata, antirracista, mais do que o multiculturalismo: a mestiçagem de tudo com tudo, a antropofagia!
 

11 – “Todo revolucionário acaba se tornando um opressor ou um dissidente”, deixou escrito o escritor francês Albert Camus. É assim?

Não acredito em fatalidades, porque a própria interpretação do que é ser um revolucionário ou um dissidente viaja nesta mudança de era que vivemos com milhares de outros sentidos.


12 – Qual é o legado que considera que deixará para a história?

As Obras que criei na Orgya com muitos artistas, muitos amantes amados, que felizmente hoje podem permanecer além da escrita, não somente nos DVDs, nos filmes, mas nos rastros que todos que vivem a vida de artista deixam, como o caso desta atriz Cacilda Becker. Até hoje não descobriram que além de uma grande atriz foi e é uma grande escritora em sua correspondência com a família que era uma de artistas, quatro mulheres como um Corpo Amoroso só, um Qorpo Santo. As Obras são como filhos, maior até que eles, podem passar como Dionisios anos na obscuridade, virem à Luz e voltarem à Obscuridade, mas tudo que vem do amor, da libido, da Paixão, permanece, e um dia alguém religa. Os mortos e os vivos convivem muito bem no Cosmos. Desejo a Ethernidade como todo Amor, Toda Paixão, todo Artista, quer dizer deixo meu desejo de ser comido. Tinha vontade que meu corpo passasse por uma máquina moedora de carne e ficasse para ser alimentado pelos seres vivos que quisessem num cemitério Antropófago, mas sei que mais que meu corpo minh’alma erótica é que permanecerá. Minha libido. Minha energia sensual. Parece pretensão mas é humildade minha ter a coragem de dizer o que todos desejam a imortalidade da alegria física, elétrica, quântica, do amar.
 

13 – “A ditadura brasileira foi uma “dita branda”, constatou recentemente em editorial o diário Folha de São Paulo. Escreveriam o mesmo caso o jovem herdeiro Octávio Frias Filho tivesse experimentado um pau-de-arara de verdade daquela época, quando já era um jovem brasileiro Vip?

Não existe ditadura branda. Foi uma violência ao mundo todo o que se passou no terceiro mundo, que buscava a oportunidade de emergir em meio à guerra fria. Eu tive a sorte de nascer numa geração em que o Presidente Vargas cometeu um suicídio político para impedir um golpe de Estado articulado pelo Imperialismo Yankee, da direita brasileira, e dos militares direitistas formados pelo Pentágono. Graças a este suicídio tivemos 10 anos de liberdade quando emergiu minha geração livre. Sem este suicídio não existiria a “bossa nova”, o “cinema novo”, o Teat(r)o Oficina, a Rádio Nacional e a própria Tropicália. Hoje os editoriais de imprensa exercem uma ditadura enorme com uma interpretacão dos acontecimentos a favor da manutenção da ditadura da especulação financeira e da manutenção de seus Condomínios, suas Prisões de Luxo.

O nosso Presidente Lula, que eu adoro, tem dado verdadeiras aulas de filosofia nas entrevistas com estes jornais. Ele sugere aos jornalistas que não obedeçam seus editores, e então é considerado inimigo da liberdade de imprensa pelos gelados Frias.


14 – O que pensa das guerras?

Que se poderia viver muito melhor sem elas. Mas o Teat(r)o Oficina mesmo luta numa guerra que em 2010 vai fazer 30 anos. Temos conseguido impedir durante todos este tempo não sermos sufocados por um Shopping, ou por arranha-céus de 720 apartamentos, pois está sendo demolido todo nosso entorno, não sabemos para erguer o quê, tudo feito na moita, pelo Grupo de especulação Video Financeiro Silvio Santos. Nosso belíssimo espaço concebido por uma das maiores arquitetas do século XX, Lina Bardi, é uma rua que até hoje é um Beco sem saída, pois nossos vizinhos não nos concedem passagem. Esta rua no projeto original de 1980 pressupõe que desemboque numa Apoteose como a do Sambódromo, num Teatro de Estádio. O Teatro fica num Bairro que já foi o umbigo, o chacra das misturas de toda a cidade.
Hoje São Paulo, que prefiro chamar de Sampã pois detesto este Santo Policial da Castidade que dá nome à esta maravilhosa Metrópole em que vivemos, é constituída de guetos pobres e ricos. Não há um ponto de encontro como em Salvador no Pelourinho, na Lapa no Rio, onde a cidade toda se mistura. Este Bairro tem a mais tradicional escola de Samba de São Paulo. O diretor da escola, Thobias, propôs ao Ministro da Cultura Juca Ferreira o Tombamento do Bairro, para sua recontrução para os pedestres e os habitantes nordestinos, negros, boêmios, artistas que nele moram e que serão expulsos de lá se vingar o projeto do Grupo Video Financeiro. Nestes 30 anos de luta e desde 2002 trabalhando com as crianças pobres do Bairro num movimento chamado Bexigão, foi gerado um projeto para nosso entorno Tombado pelo Governo do Estado de São Paulo, mas que o governo de direita no poder não reconhece e toma mesmo uma atitude anticonstitucional. Pela constituição todo Patrimônio Tombado deve ter em seu entorno uma área de 300 metros em que pode negociar com o Bem Tombado.
“O Anhangabaú da Feliz Cidade” é o nome de um Samba que deu nome ao nosso projeto urbanístico para o entorno: a construção além do “Teatro de Estádio”, de uma “Universidade Antropófoga”, que forme não somente atores para o Teatro, mas atores negociadores diplomatas, nas áreas de conflito. Esta Universidade se dedicará a estudar tudo que é Tabu e Proibição, aliás ela já existe em nosso trabalho Teat(r)al, de fato. Uma “Oficina de Floresta”, nome vindo da música Sampa de Caetano Veloso, composta quando viu nossa encenação de “Nas Selva das Cidades” em 1969. Esta Oficina se dedicará à Ecologia do Bairro todo, onde a falta de áreas verdes é escandalosa. Reinterpretando o “Minhocão” que é um viaduto que dividiu e quase destruiu este bairro cosmopolita onde nasceram o moderno teatro brasileiro, as cantinas, a vida Boêmia de toda Cidade, há o projeto de uma Praça de Cultura. Muitos arquitetos e urbanistas, querem derrubar essa construção do período da ditadura militar, mas Paulo Mendes da Rocha, um arquiteto reconhecido internacionalmente, inventou uma ressignificação para este monstrengo, transformando seus baixos em pontos culturais, esportivos, próximo ao que no Rio de Janeiro é o Aterro, jardim em toda orla ligando o centro da Cidade até a Zona Sul como lugar de recreação. Guardadas as devidas proporções nos critérios de beleza, esse projeto acabaria por construir uma beleza paulista, mais rude, sem o mar, mas tiraria a cidade do sufoco, da falta de áreas tipo Las Ramblas de Barcelona. O Governo Federal, o Ministro da Cultura, a própria Petrobras nos apóia, mas os agentes do patrimônio no Brasil são muito conservadores e medrosos diante do poder da especulação imobiliária. Não se decidem por apresentar o Tombamento Qualificado para complementar o projeto deste grande Arquiteto, Lina Bardi, junto ao IPHAN, orgão federal do Patrimônio Cultural do Brasil.
 

15 – O Itaú Cultural de São Paulo, que pertence ao Banco Itaú, o maior banco privado brasileiro, “abre suas portas para o público mergulhar no mundo de um inventivo, ousado e vigoroso criador do teatro brasileiro”, li no convite oficial. Que te pareceu esta recente homenagem?

Foi deslumbrante a criação dos dois artistas que compuseram a Exposição, Marcelo Drummond, o ator Protagonista de “Ham-let” , “Dionisios” em “Bacantes”, Euclides da Cunha em “Os Sertões” e Elaine Cesar artista Cyber. Ambos que transcendem suas atividades específicas são grandes artistas plásticos, video músico criadores, continuadores hoje na era digital da linha estética dos penetráveis de Helio Oitica, fizeram uma instalação inspirada, envolvente, um labirinto, que podemos levar para qualuqer parte do mundo. Num pequeno espaço do Banco Itaú, promotor do evento, conseguiram o milagre de superar o didatismo e a frieza das “instalações” e criaram um espaço mágico dos mais lindos que já se viram acho que mesmo no mundo. Os que entravam dentro de salas mesmo, uma delas proibida para menores de 18 anos, que era uma cama enorme num ambiente espelhado de motel onde se projetava no teto para os que lá estavam deitados em 5 ou 6 pessoas, assistiam os momentos da Arte Erótica mais fortes em que o OficinaUzinaUzona criou, e um de seus fortes.
 

16 – “O dinheiro não contém energia… mas é um bom lubrificante”, [Anônimo]. Certo ou errado?

Tem energia sim, só que hoje é virtual, vai se levando com a barriga nos cartões de crédito, é como Exu, abre caminho. Mas a maioria dele vai para Indústria de Guerra. 20% que vai pras pessoas se matarem poderiam não somente terminar com a fome no mundo, mas dar um salto na humanidade à altura da era que estamos vivendo, de acordo com o desejo dos mais desejosos dos artistas. O Capital é benvindo, mas o problema está no “Ismo”. Capitalismo e em todos os “ismos”. Não aceito nenhum.
 

17 – Por quê Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, a do Cristo Redentor, vive uma guerra civil não declarada? Olimpíadas liberta?

Acho que já toquei no assunto antes. A Liberação do que chamam drogas fará das Favelas os lugares mais lindos do Maravilhoso Rio. Já há um turismo muito difundido nelas. Mas é preciso vir logo a liberação. É uma das raras certezas que tenho e que muita gente tem, mas que continua um Tabu Assassino.

Mas vamos transformar em Totem. O carioca tem um espírito maravilhosamente carnavalesco, de inversão dos valores. O Rio não é somente uma Cidade Maravilhosa por suas belezas naturais, mas por seus habitantes, principalmente os da Favela que são produção cultural mais intensa da cultura, da gíria, da música da cidade.
 

18 – Como convive com as críticas?

Adoro a Arte da Crítica como uma Arte de Interpretação da Obra de Arte, que joga luz como o Sol no Inferno que o artista cria.Mas detesto a Critica sem arte, a Critica Julgamento ,e a de Serviço aos clientes de um Jornal, uma Corporação Vídeo Financeira. A Critica capacho.
 

19 – Quando os espanhóis terão o privilégio de assistir alguns dos seus inclassificáveis e festivos espetáculos?

Me llamo Martinez, mas no tengo Idea. Me gustaria mucho levar nuestras pieças para La Espanha e todos lugares donde se habla esta lingua. Yo se solamente hablar en portunhol. Pienso que nosostros vos compreendemos mas que vos a nosotros. Mas adoro a cultura ibérica, ainda mais agora que Almodóvar libertou, continuando Buñuel, a Espanha do arrependimento cristão de Dom Quixote. Mas quero dizer que temos já uma Caixa belíssima de DVDs com legendas em espanhol, de “Bacantes” de Eurípedes, “Ham-let” de Shakespeare, “Cacilda!” de minha autoria, e “Boca de Ouro” de Nelson Rodrigues, que são distribuídos pela “Trama”, uma importante distribuidora no Brasil. Mas já chegamos a ver no Mercado Pirata e até baixado na Internet. Por outro lado, vamos lançar o ano que vem 5 filmes que compõem a peça “Os Sertões”, o libro bíblia do Brasil, transmutado num musical de 27 horas, divididas em 5 partes. Para Cinema e DVD, dirigido por artistas do Oficina. Dois deles por Marcelo Drumond, Elaine Cesar, que fizeram a exposição do Banco Itaú a que nos referimos. Outro dirigido por Tommy Pietra que faz nosso site www.teatroficina.com.br e outro por Fernando Coimbra, um antigo ator do grupo que tornou-se um cineasta muito premiado internacionalmente que esta semana aliás vai indo pra Espanha, e o 5º por Erik Rocha, filho carnal e com o mesmo talento do pai Glauber Rocha. E agora tudo que fazemos filmamos. E as peças são transmitidas por Internet na ocasião que as filmamos com a presença do público lotando o Teatro.
 

20 – Zé, você é um homem feliz ?

Maiakovski diz num de seus poemas. “Em algum lugar, acho que no Brasil, existe um homem feliz.” Eu acho que não sou bem este homem, mas sou um homem Alegre. A Alegria é a prova dos 9, é o que move meu desejo.

 

A entrevista no site da Euro Latin News:

em português: “http://www.eurolatinnews.com/reportajes1/celso1.htm”:http://www.eurolatinnews.com/reportajes1/celso1.htm

en castellano: “http://www.eurolatinnews.com/reportajes1/celso.htm”:http://www.eurolatinnews.com/reportajes1/celso.htm


Mitch Wishnowsky Womens Jersey