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Estado de São Paulo – O Assalto faz jus à qualidade do texto

Concepção de Marcelo Drummond para peça de Zé Vicente é um salto na carreira do diretor

BETH NÉSPOLI

Marcelo Drummond entrou para o Teatro Oficina em fins da década de 80 e passou a exercer as funções de produtor e protagonista dos espetáculos dirigidos por José Celso Martinez Correa. Beira a unanimidade o seu talento como produtor, fundamental no processo de renascimento do Oficina. Vale lembrar que, para muitos, estava decretado o fim da história desse centro de criação de espetáculos memoráveis como O Rei da Vela e Roda Viva. Como protagonista de peças da nova fase do Oficina, entre elas Ham-let e Boca de Ouro, Drummond não alcançou a mesma aprovação. Mas enfrentou resistências externas e limitações pessoais, aprimorando-se, como intérprete, ao longo dos anos.

Agora, como diretor da montagem de O Assalto, de José Vicente, em cartaz no Oficina, dá um salto em sua carreira. Mostra ter tirado proveito da parceria artística com Zé Celso, mas acrescenta a isso talento próprio, imprimindo sua marca pessoal, sobretudo na cuidadosa direção dos atores, Haroldo Costa Ferrari e Fransérgio Araújo. Começa acertando na escolha do local. Dentro do vasto e labiríntico teatro, optou pelo mezanino que serve de escritório ao grupo. Com seus arquivos e mesas, é cenário ideal para a peça ambientada numa agência bancária. Desde a distribuição do público até o aproveitamento do banheiro e da escada que dá acesso ao mezanino, Drummond demonstra domínio do espaço cênico e precisão na movimentação do elenco: surpreendente, significativa e coerente com o texto.

As interpretações, interiorizadas, fazem supor ainda um minucioso trabalho de compreensão das motivações dos personagens. Primeira peça de Zé Vicente, escrita aos 22 anos, O Assalto expressa a um só tempo uma contundente revolta contra uma organização social injusta e sua descrença sobre certas formas de luta. Os jovens da geração assaltaram bancos para financiar uma revolução liderada por eles, messias salvadores do proletariado, principais beneficiários da futura ordem social. Em O Assalto, um bancário volta à sua sala depois do expediente e ali encontra um faxineiro, responsável pela limpeza do ambiente, com quem estabelece uma relação que oscila entre repulsão e atração, plena de contradições.

Com esse ponto de partida, o jovem Zé Vicente mostra, num texto vigoroso, que as motivações dos salvadores dos pobres são bem mais complexas, e dolorosamente humanas, do que um dia supôs o vão idealismo. E ainda que operários não sejam anjos de candura esperando desejosos por um Messias. Sob o peso de viverem anos a fio no limite da sobrevivência, podem ser tão conservadores quanto seus patrões. No seu pior, não se importam de subtrair, à força de mesquinhos golpes, alguma coisa de um igual. Porém, acostumados a ver a corda rebentar do lado mais fraco, são os primeiros a clamar pela ordem quando alguém ousa enfrentar a fonte de sua sobrevivência ou põe sua pele em risco. Sentir o peso da discriminação não torna trabalhadores isentos de preconceitos. Pior, eles podem ser inteligentes o suficiente para serem hipócritas.

Nesse inusitado, breve e intenso encontro entre dois homens colocados em diferentes funções da mesma engrenagem, Zé Vicente cria um poderoso libelo contra o trabalho desprovido de sentido, contra a grande metrópole que transforma seres humanos em formigas carregadeiras, com seus corpos treinados para servir, esvaziados de erotismo, interditos de singularidade, de vida que valha à pena ser vivida.

Drummond manteve o texto praticamente na íntegra. Fez pequenas e precisas alterações, como por exemplo trocar o curso de datilografia por informática na relação das pequenas ambições de ascensão reveladas pelo faxineiro do banco. Mas não ignora, em sua encenação, a ação do texto sobre a peça. Nesse sentido, faz uma significativa alteração na cena final, sugerindo que as saídas estão atualmente ainda mais bloqueadas do que na década de 60 para os que ousam debater-se. O dinheiro tornou-se deus absoluto, sua aquisição uma missão quase sagrada – idéia reforçada pela iluminação e pela ótima trilha musical.

Ao contrário do que sugere o autor – um espaço cênico imenso para traduzir a idéia do homem atomizado – Drummond confina atores e público num espaço mínimo, sublinhando a atmosfera de claustrofobia, de beco sem saída. Isso obriga os atores, observados muito de perto, a um redobrado esforço de verdade. E é nessa verdade que ambos transmitem na apropriação pessoal do texto que está uma das melhores qualidades das interpretações.
Bastante interessante, e de execução delicada, é a forma como os atores lidam com a chamada quarta parede, aquela invisível, que nos faz acreditar na privacidade dos personagens. Nessa montagem, a presença do público não é ignorada pelos atores, mas sim pelos personagens, um código estabelecido sem palavras. Ou seja, na forma como olham e vêem os espectadores, e até falam diretamente para eles, deixam claro que estão todos, público e intérpretes, juntos nessa aventura. Mas os personagens estão lá, apenas os dois, sós em seu embate visceral.

Intérprete do bancário, Ferrare tem construção tão interiorizada que atrai o olhar mesmo quando está parado e em silêncio, porque planeja a próxima jogada. Nos diálogos, tem aquela qualidade de ator, expressa em seu rosto, de saber escutar para só então agir. Expressa muito bem a determinação de Vitor, próximo a praticar um ato extremo. Só é pouco convincente nos momentos de fragilidade, naqueles em que o bancário ainda busca um pouco de afeto ou fica verdadeiramente machucado em sua fé.

Mais difícil é a missão de Fransérgio, que reage às provocações do bancário ao ficar, involuntariamente, preso na sala em sua companhia. Seu personagem tem uma gama muito ampla de sentimentos: perplexidade, raiva, angústia, irritação, dissimulação, medo. E como não é articulado, expressa isso aos arrancos. Fransérgio escapa dos clichês do faxineiro e se sai bem na maior parte do tempo. Em alguns momentos, como quando sorri às propostas de dinheiro, sua interpretação ainda deixa à mostra os rastros da construção.

São sutilezas, aqui e ali, que não comprometem a importância dessa montagem que faz jus à grande qualidade desse texto de Zé Vicente.


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