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Folha de São Paulo visita Teatro Oficina

Folha de São Paulo visita Teatro Oficina

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*O Drama dos Tabús*

A matéria muito oportuna e necessária da Ilustrada de Domingo sobre o drama da segurança dos Teatros de São Paulo contra incêndios, peca por um drama maior, que começa na própria maneira como foi tratado o assunto, fato que se repete na mesma maneira com que os poderes públicos e privados, sobretudo o Governo do Estado de São Paulo, tratam do assunto.
O Teatro Oficina, incendiado em 1966, logo após o incêndio dos estúdios da TV Bandeirantes, após sucessivas ameaças de incendiar todos lugares de cultura de São Paulo feitas por grupo para-militares que anunciavam o AI 5, atualmente é incendiado em fogo morno pelo Tabú do que tediosamente chamam de ”Pendenga entre o Grupo Silvio Santos e o Oficina”. Este assunto é tabú nas pauta do jornal, como se percebe na matéria. Há 28 anos Lina Bardi traçou um Teatro Pé na Estrada, Rua, com entrada e saída dos fundos, para resolver o impasse daquele lugar desde a existência do antigo Teatro Novos Comediantes, onde estreamos há meio século atrás, e já tinha este problema. Teatro Beco sem Saída. O Teat(r)o Oficina é Tombado, Desapropriado e parciamente Reconstruído pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, propietária do Imóvel (uma relação de 25 anos), Tombado também pelo Conpresp, orgão de Preservação do Patrimônio da Prefeitura de São Paulo. Esses poderes jamais moveram uma palha sequer para que fosse negociada com o Grupo Silvio Santos uma passagem para ao menos dar ao público do Teat(r)o Oficina direito à uma segunda saída de emergência, pelo lado Norte da Pista do Teatro.
A repórter e a fotógrafa, amiga pessoal do Teatro, sequer mencionam este ESCÂNDALO!
Não somente pouco caso com a Última Obra de Lina Bardi, uma das Maiores Arquitetas do século XX, como também com a Cultura produzida no lugar, uma Cultura de buscas de saídas, que tem seu espaço castigado a metaforizar-se urbanisticamente como um Beco Sem Saída.
A questão de segurança é apontada mas não a da solução óbvia, há 28 anos pretendida pelo Oficina, que aliás pode ser resumida nos buracos contínuos que abrimos nos arcos romanos dos fundos do Teatro, tentando chamar a atenção dos responsáveis por esta falha mais que dramática, trágica. No ano passado O Grupo Silvio Santos murou de vez a passagem de segurança com uma parede de cimento, acrescida de aplicação de restos da 1ª Sinagoga de São Paulo, pelo Grupo SS destruída, inclusive uma estrela de David. Agradeço à matéria porque me dá ensejo de exigir imediatamente das autoridades responsáveis que negociem a abertura de uma passagem, independente do projeto que pretendemos no nosso entorno construir, “O Anhangabaú da Feliz Cidade”.
O Oficina mais que merece comemorar seus 50 Anos no dia dos Santos meninos, Cosme Damião e Doum, 26 pra 27 de outubro, com “Os Bandidos” de Schiller.
Vamos transformar esse drama deste Tabú, num Tótem, num sintoma de abertura real em nossa cidade, para os caminhos que toda a cultura mundial de mudanças exige. Ou vamos continuar nesta hipocrisia como se esta oportunidade não existisse?

José Celso Martinez Corrêa

São Paulo, Brasil 7 de setembro de 2008

OURO

MATÉRIA DA FOLHA

*O drama dos teatros*

Em visita a 14 teatros de SP, Folha encontra problemas de segurança em 4: CCSP, Oficina, Ruth Escobar e Satyros; e é impedida de entrar em 2: Imprensa e Renaissance

EDUARDO SIMÕES
LUCAS NEVES
SYLVIA COLOMBO
DA REPORTAGEM LOCAL

A Folha selecionou 14 teatros da cidade de São Paulo para verificar suas condições de segurança e tentar responder à pergunta: pode se repetir a tragédia que aconteceu no teatro Cultura Artística, no mês passado, quando um incêndio destruiu sua sala principal?
Foram escolhidos espaços que recebem diferentes tipos de público. Entre os comerciais, Alfa, Frei Caneca, Folha, Renaissance; entre os tradicionais, Ruth Escobar, Sérgio Cardoso, Centro Cultural São Paulo, Municipal, Imprensa e Tuca; e, entre os alternativos, Oficina e Satyros, além de duas salas da rede Sesc.
A reportagem procurou conferir os principais requisitos que garantem a segurança de um espaço em caso de incêndio: a manutenção das instalações elétricas, os dispositivos de combate ao fogo, as saídas de emergência, entre outros.
A maior parte das visitas, feitas ao longo das três últimas semanas, teve a presença da fotógrafa e iluminadora Lenise Pinheiro, que há mais de 20 anos transita pelos teatros paulistanos, onde também trabalha.
No levantamento, quatro deles apresentaram condições precárias e oito se mostraram relativamente bem. Renaissance e Imprensa não quiseram receber a reportagem.

Situação crítica
Entre os primeiros, o Ruth Escobar foi um dos que apresentou problemas graves: fiação correndo sobre carpete, quase todos os refletores sem os cabos de aço, que são a segunda garantia de que eles não se soltem, tomadas sem espelho de proteção. Nas coxias, havia muitas lâmpadas sem cúpula, a poucos centímetros de pedaços de cenários, o que facilitaria a propagação do fogo.
Havia ainda gambiarras, instalações elétricas improvisadas, com fita isolante em uma das três cabines técnicas. Não havia extintores ou hidrantes dentro da sala menor (Miriam Muniz) e, na maior (Dina Sfat), uma porta de emergência estava quebrada, sem a barra antipânico esquerda.
Ali, a reportagem também viu cadeiras cujos encostos, tortos, atrapalhavam a circulação pela fileira de trás -o que poderia causar quedas se preciso deixar o local com rapidez.
“O pior problema dos teatros de São Paulo é o extremo desleixo e a irresponsabilidade com instalações elétricas. Não há razão para fios ficarem expostos: têm de estar em calhas ou condutores protegidos”, diz o arquiteto Cesar Bergstrom, diretor de urbanismo do Sinaenco (Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva).
Na cabine de som e luz da sala Jardel Filho, no Centro Cultural São Paulo, a instalação elétrica estava em contato com o carpete, que tinha rasgões. Na sala Paulo Emílio Salles Gomes, as tomadas dos refletores estavam precárias, assim como nos camarins. E também foram encontradas gambiarras. Tampouco havia sprinklers (sistema que solta água assim que sinais de fogo são detectados).
No teatro Oficina, os principais problemas observados foram, além das gambiarras, refletores sem cabo de aço, a falta de equipe fixa de manutenção e ausência de saídas de emergência. A porta de entrada do espaço, que tem formato de uma grande passarela, é a única rota de fuga em caso de acidente.
“Não é possível considerar seguro um lugar que só tem uma saída, mesmo que ela seja ampla. A primeira coisa que uma pessoa pensa quando vê fogo é em fugir, e não em pegar um extintor. Por isso, a partir do projeto inicial, os teatros têm de ser pensados com alternativas de saída bem claras e sinalizadas”, diz Bergstrom.
Nos dois espaços dos Satyros, esse problema se repete. A sala 1 tem uma saída que dá para dentro do prédio da praça Roosevelt no qual está localizado, e a sala 2 não possui nenhuma.
Apesar de não poderem ser classificados formalmente como “teatros” por terem capacidade inferior a cem pessoas (são definidos por lei como “salas de reunião”), ainda assim os espaços dos Satyros não adotam procedimentos de segurança importantes.
As cortinas não recebem tratamento antichamas, não há sprinklers e os refletores de luz não têm cabo de segurança.
De forma geral, os administradores dessas quatro salas dizem que estão trabalhando para resolver os problemas.

Melhores condições
Nos outros teatros, a reportagem encontrou condições melhores. A maior parte deles tem dispositivos de combate a incêndio, como cortinas, carpete, revestimento das cadeiras com tratamento antichamas, estruturas de concreto e não de madeira como base da platéia e regras para o palco, como proibição de fumar nas cenas.
Apesar de considerar essas medidas importantes, Bergstrom relativiza a eficiência da aplicação de produtos antiinflamáveis. Para ele, tratam-se de lenitivos, pois funcionam por tempo curto. “Um produto antichamas impede algo de queimar por um período curto de tempo. O essencial é haver espaço entre fileiras e corredores para escape imediato.”