Iphan adia tombamento do Oficina

Há oito anos no Instituto de Patrimônio Histórico Nacional (Iphan), o processo de tombamento federal do Teatro Oficina sofreu mais um adiamento nesse mês de abril e a reunião que precederá a votação dos conselheiros daquele órgão ficou para o mês de maio.

Prestes a ser votado pelo conselho, o processo foi acrescido no início de 2010 de 4 pareceres favoráveis redigidos por artistas e cientistas, dentre os quais estão o músico e professor de literatura Zé Miguel Wisnik, o arquiteto Marcelo Suzuki e o geógrafo Aziz AbSaber. Esses pareceres formam um panorama histórico do bairro do Bexiga e da situação atual do Oficina e seu entorno.

“Estará se promovendo uma possibilidade dos moradores novos aceitarem de bom grado o convívio com velhos moradores e suas atividades. Estará se promovendo mais e mais a atenção do público para o que ocorre lá – levar gente para conhecer e respeitar esse enclave urbano, participar das atividades e da cultura do Bixiga, aumentar a permeabilidade daquilo que quase transformaram compulsoriamente em gueto.” _parecer de Marcelo Suzuki na íntegra

“Não é à toa que o olhar penetrante de Lina quis desde há muito furar a parede do fundo do edifício e abrir passagem, como figura real de uma afirmação inequívoca da arte, da vida e das potencialidades humanas represadas.” _parecer de Zé Miguel Wisnik na íntegra

“Por estas razões e muitas outras, entre o projeto do “teatro estádio” de elaboração bem planejada e socialmente útil preferimos indicar essa idéia como muito superior às pretensões do grupo Silvio Santos, que se baseia exclusivamente no neocapitalismo que vem arruinando a funcionalidade de uma cidade que atingiu os seus 456 anos de vida com originalidades vitalizadoras. Ambas as pretensões envolvem grupos muito ricos ao lado de grupos muito pobres e voluntários. É certo porém que o projeto do Teatro Oficina representa um dos poucos e mais aprazíveis projetos de revitalização da zona periurbana sul do centro histórico de São Paulo.” _parecer de Aziz AbSaber na íntegra

“O Teatro Oficina é mais que um lugar, é uma localização: é uma passagem no fio da história, vivendo intensamente o presente e projetando o passado para o futuro. Este terreiro, fincado no Bexiga, cobiçado pelo capital vídeo-financeiro incorpora não só a história do teatro brasileiro, mas a história do Brasil e das entidades que ali se manifestaram.” _parecer de Vera Malaguti e Nilo Batista na íntegra

Maquete a partir do projeto original de Lina Bardi com o fundo do Oficina aberto para o Teatro Estádio nas “Catacumbas do Baú da Felicidade”

 

Na última reunião realizada no Iphan em Brasília, contando com a participação do ministro da cultura Juca Ferreira, tratou-se das definições do tombamento mas não se chegou ainda a um acordo. Isso porque o Oficina deseja que seja tombado também seu entorno, onde estão localizados os terrenos vazios explorados há 3 décadas pelo grupo financeirista Silvio Santos. Desta forma o tombamento em nível federal qualificaria o entorno para a complementação do projeto de Lina Bardi, do qual o atual Oficina é apenas parte, com a construção do Teatro de Estádio, teatro ao ar livre com espaço para público de mais de 2000 pessoas. No entanto a tendência do Iphan, expressa por seu presidente Fernando Almeida, é realizar um tombamento restrito ao edifício. O tombamento estadual, de 1980, até hoje pouco compreendido pois tombou uma obra ainda em progresso, tem entre os pareceres técnicos um de autoria do arquiteto Flávio Império que reivindica assumidamente o não congelamento da obra. Foi um tombamento revolucionário à altura do qual espera-se seja realizado o federal.

O Oficina, ao longo de mais de três décadas de luta por um destino de sua área e entorno dedicado à cultura, desde quando o grupo SS pretendeu comprá-lo e demolí-lo, foi tombado pelo Conpresp e pelo Condephaat, os órgãos de patrimônio do município e do estado de São Paulo, movimento impulsionado também por toda a classe artística que resultou na desapropriação da sede na Rua Jaceguai.

O tombamento federal manteria o teatro sob a proteção do estado nos três níveis do poder público, no entanto apenas esse fato não é garantia de não agressão à obra de Lina Bardi, premiada internacionalmente. No final de 1999 os órgãos de patrimônio da prefeitura e do estado de São Paulo aprovaram o projeto de um shopping center que entumularia o edifício aberto à cidade onde hoje o grupo Oficina realiza diariamente ensaios e espetáculos, desconsiderando a proteção dos 300 metros de entorno definidos pelo tombamento do início da década de 80. Por isso o Oficina luta para que o tombamento na esfera federal não limite-se ao edifício, protegendo-o estritamente dentro das regras definidas por esse instrumento, mas considere também a qualificação do entorno para a realização do Anhangabaú da Feliz Cidade.

Teatro Estádio no atual projeto de João Batista Martinez Correa e Beatriz Correa

Atualmente existem dois projetos complementares ao de Lina Bardi, que além do Teatro de Estádio incorporam também a universidade Antropófaga, escola popular de ciências, artes e ofícios para estudar toda a matéria normalmente tratada como tabu nas instituições regulares de ensino; a Ágora do Bexiga, localizada nos baixos do Minhocão resignificando-o com a existência de um local público de encontro do povo desse tradicional umbigo cultural da cidade hoje desertificado pela especulação financeira e imobiliária, e a Oficina de Florestas, bosquetes plantados nos entremeios de todo o projeto.

Panorama do Anhangabaú da Felicidade no projeto de JB e Beatriz Correa

Sugestão de implantação do Teatro Estádio e Universidade Antropófaga no projeto do arquiteto Jeremy Galván

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