Laudo pelo Restauro de O Rei da Vela

Laudo técnico político, cultural, artístico, sobre o filme de longa metragem O Rei da Vela.

Após analise do material depositado na Cinemateca Brasileira em São Paulo, foi possível se constatar a necessidade urgente de se fazer a restauração dos negativos de imagem e som do filme O Rei da Vela.

O referido filme é um monumento cinematográfico. Um patrimônio de valor inestimável.
Além de apresentar cenas filmadas durante a ultima temporada da peça no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, em 1967, a montagem atômica do filme oferece também um amplo painel dos acontecimentos políticos, sociais, artísticos e culturais, que envolviam a época de sua difícil finalização: 1980.

O Rei da Vela desde os escritos de Oswald de Andrade, sempre esteve identificado com a busca de novas linguagens para comunicação com o povo. A montagem da peça pelo Teatro Oficina obviamente acompanhou essa tendência natural imposta pelos pensamentos Oswaldianos. É a Revolução Social!

Nos palcos dos teatros por onde foi sendo exibida, a peça conseguiu sempre uma grande cumplicidade com o publico por sua inventividade e revolucionária postura debochada, diante dos mais complexos sentimentos humanos, que eram expostos e traduzidos pelos atores e atrizes de maneira emocionante e contundente.

Quem assistiu a peça nos anos 70, dificilmente se esquece dos Abelardos, de Heloísa, do Intectual Pinote, da Dona Cesarina, do Totó Fruta do Conde ou da Dona Poloca; das músicas “Yes, nós temos banana” e a do cachorro vira latas que não abandonava seus amigos nas horas mais cruéis.

O elenco que encantou nos palcos ficou imortalizado pelas filmagens realizadas não só no Teatro João Caetano, mas também em diversas cenários da cidade do Rio de Janeiro: Renato Borghi, Ester Goês, José Wilker, Maria Alice Vergueiro, Henriqueta Brieba, Cláudio Mac Dowel, Henricao…

Depois de muitas fugas e esconderijos, dentro e fora do Brasil, para se evitar que os negativos e copiões pudessem ser confiscados pela ditadura, quando chegou a hora da montagem no início dos anos 80, conseguida com apoio da Embrafilme, o filme, como um ser vivo pedia atualização, sincronização com o que acontecia nas ruas, nas cidades, do Brasil e do mundo. O filme impunha a necessidade de se manter moderno, contemporâneo, popular, como os ideais lançados desde os anos 30 por Oswald.

As lutas pela manutenção do espaço do Teatro Oficina, na rua Jaceguai, ameaçado pela especulação imobiliária e pela visão curta de empresários ofuscados pela ilusão dos lucros imediatos, levou a montagem do filme para caminhos nunca dantes navegados pela cinematografia brasileira. Todos os movimentos de resistência contra a tentativa de assassinato cultural que se desenhava, de um dos mais importantes templos das artes e da cultura do Brasil, passaram a ser acompanhados e suas cenas levadas para as salas de montagem do filme. Vieram as forças populares de Surubim, Ana Helena, Harpô, Sandi Celeste, Edgar, Walter Backberry, Tadeu Jungle, Zuria, Katherine, Luciana, Heloisa, Verônica, Anselmo, Piu… que foram entrando pelo filme à dentro sem pedir licença.

A Era do Vídeo começava e o filme foi incorporando também as novas tecnologias dos frames, que se misturavam, que se casavam com os fotogramas em 35mm, 16mm e super 8.

Considerado um dos filmes de mais longa gestação da história da cinematografia, com seu tempo de criação contado desde 1967, quando as filmagens começaram, até sua primeira cópia em 1982, O Rei da Vela, chega ao século XXI gritando em alto e bom som: Ação!

Um filme que atravessou a ditadura, abertura, anistia, diretas já, Sarney, Collor, Itamar, FernandoHenrique, Lula, está vivendo agora no Governo Dilma, a chance de sua restauração, não só física, fílmica, mas também
de preservação de exemplos necessários para que os brasileiros se espelhem e enfrentem os dificeistempos do capitalismo selvagem, predatório, insustentável.

Herdamos um tostão em cada morto nacional. Estamos voltando a idade da vela.
O Rei da Vela é um farol que serve para jogar luzes para abertura de novas vias do conhecimento.
O Rei da Vela inspira vontades de novos encontros com a realidade e desejos de continuidade da vida, do amor, da paz do entendimento.
O Rei da Vela é uma novela sem fronteiras que a juventude brasileira não conhece.
O filme está aí ainda vivo. Na UTI da Cinemateca Brasileira.

São Paulo precisa do Rei da Vela.
Vem aí o centenário da Semana de Arte Moderna. 2022.
São Paulo necessita do Teatro Oficina grandioso, estádio monumento nacional.
A nova Ministra da cultura, Marta Suplicy, sabe muito bem o que representa para o país a construção dessa Praça Pública, desse TeatoEstádio, que será um dos mais visitados centros culturais, artísticos, turísticos, da Paulicéia Brasileira Internacional.

E o filme O Rei da Vela, já tem sua nova pré estréia nacional mundial, com dia e hora marcados nas estrelas.
Mãos à Obra.

Noilton Nunes – de Coimbra Portugal – 4 de novembro de 2012