Obra Ditirambo, Teat(r)o Oficina

*Por Marcelo Noah, artista sonoro.

Há seis meses iniciei um mergulho vertiginoso no universo de um dos grupos teatrais mais instigantes, originais e revolucionários do planeta, a Companhia de Teat(r)o Oficina de São Paulo – Uzyna Uzona. Nesse tempo, passei por uma escuta atenta; mais de duas centenas de documentos sonoros (fitas k7, MDs, entre outras mídias, que, por si só, contam a história da evolução tecnológica dos últimos cinquenta anos) e não raro encontrei nesse material passagens que me levaram à euforia, ao espanto e mesmo às lágrimas, por me sentir participando – como ouvinte, que seja – da busca mais sincera e apaixonada pela arte que se pode encontrar.

Mas esse abandono aos sons do passado me acenderam uma outra necessidade, a de estar presente eu mesmo o mais que pudesse no próprio Oficina, vivendo em meio à plateia (que lá também se fazem atuadores) as temporadas que estão em cartaz, deixando-me iluminar pelos artistas que lá se encontram em plena atividade criativa. Isso porque entendi que a essência desse teatro se revela completamente é no presente, no aqui agora. Ou seja, para sacar essa história tinha de estar junto. E lá fui eu, de gravador na mão, para testemunhar em primeira mão esse encantamento.

Tudo isso resultou em uma obra de arte. Uma instalação sonora no Paço Imperial do Rio de Janeiro. Sim, o lugar onde um dia Pedro Primeiro abriu a janela e disse ao povo que ficaria, a mesma casa onde Isabel assinou a Lei Áurea. Imagine comigo: a peça que ocuparei com a instalação dedicada ao Oficina tem 70 m2 e é a extensão do quarto que foi de Carlota Joaquina, a grande pomba-gira espanhola do nosso Brasil Império. Não é de arrepiar? Eu piro só de pensar o que ela não fazia por lá. Enfim, a história eclode nas pedras do Paço. E tem uma bigorna no meio dessa sala, uma joia de mais de 50 kg, linda que só. É um barato!

O nome que escolhi para a obra é *Ditirambo, Teat(r)o Oficina* (Houaiss: Ditirambo, canto de louvor ao deus grego Dioniso; composição poética sem estrofes regulares, que visa festejar o vinho, a alegria, os prazeres da mesa etc., num tom entusiástico e/ou delirante). Consiste em uma sala completamente no breu, com a bigorna dourada (símbolo totêmico do grupo) iluminada em foco fechado bem ao centro. Ao redor, variados discursos surgem em áudios captados dentro do teatro que a grande Lina Bardi projetou (e Flávio Império antes dela).

São fragmentos das peças, ensaios, músicas, entrevistas, reuniões entre atores, conferências, improvisos, poemas etc., acumulados ao longo da trajetória do grupo, para criar um tecido diverso, onde o som e a linguagem falada do universo teatral produza a imersão em um outro espaço e tempo, impulsionado pela imaginação dos participantes. Como se o teatro da rua Jaceguai 520, em São Paulo, estivesse pulsando e expandindo pelo universo. E está.

A obra fica exposta no Paço até 20 de julho de 2014. A expo reúne ainda outros 38 artistas sensacionais. Quem por sorte passar pelo Rio nesse período, e lembrar, e de fato pintar no Paço (sério, vale o passeio, pois é lindo), não esqueça de me contar depois.

Por isso tudo, fica o convite:

*Mostra do Prêmio Honra ao Mérito Arte e Patrimônio*
*De 15 de maio a 20 de julho de 2014*
*Centro Cultural Paço Imperial – Praça XV – Rio de Janeiro*


Zach Allen Jersey