Parecer de Aziz AbSaber

PARECER DE AZIZ AB’SABER PELO TOMBAMENTO FEDERAL DO TEATRO OFICINA

Aziz decifra seu parecer nos 456 anos de São Paulo. Foto de Tommy Pietra

 

Em termos de “Ecologia Social Urbana”, a cidade de São Paulo possui uma das mais originais faixas de transição entre os seus dois núcleos históricos e os bairros residenciais do seu corpo urbano total, hoje chamado de centro expandido. A dinâmica urbana e sócio-econômica da metrópole obrigou a sucessivas mudanças estruturais. Reconhece-se em primeiro lugar os núcleos históricos da cidade pela identificação do triângulo das ruas situadas nas colinas intermediárias dotadas de alta complexidade funcional, num espaço relativamente estreito, pontilhado por velhas igrejas (Pátio do Colégio, Igreja da Sé, Largo do São Bento, Largo do São Francisco, entre outros). Um complexo de múltiplas e sucessivas funções urbanas, administrativas, comerciais, bancárias, religiosas e culturais remanescentes, e complicadas interligações viárias (CBD – Central Business District).

O segundo núcleo do centro de São Paulo equivaleu a um território de saltação urbana para as suaves colinas de além Anhangabaú que apresentavam um relevo tabuliforme, extensivo desde a atual área da Praça Ramos até a Praça da República – Largo do Arouche e Brás: com um jogo de ruelas transversais e entrocamentos de artérias e estações ferroviárias.

Na cidade de São Paulo existem duas expressões históricas referentes às visibilidades paisagísticas. A primeira delas refere-se à rua Boa Vista, que no passado, antes do enriquecimento provocado pelo ciclo do café, possibilitava uma visão do largo e importante vale do Tamanduateí. Dos altos das colinas intermediárias do sítio urbano de São Paulo tudo estava voltado para as alongadas e assimétricas planícies de leste de onde se avistava o médio vale do principal afluente do Rio Tietê, no intermeio das colinas do planalto paulistano. Do outro lado das colinas históricas ficava o atual vale do Anhangabaú antevisto pelos indígenas como “vale do Diabo” e por muito tempo visto pelos habitantes de São Paulo do Piratininga como uma área de baixo nível de utilização urbana.

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As ladeiras do oeste, tal como a Riachuelo e outras, dificultavam a expansão urbana do núcleo histórico principal. Encostado nos fundos de vales confluentes do Rio Anhangabaú as autoridades fizeram um hospital para os doentes da varíola, o edifício da “bexiga”. Os índios da aldeia de Tibiriçá ficaram nos terraços das colinas situadas além do atual bairro da Luz, onde haviam condições para caça, pesca e coleta. Os jesuítas escolheram o Pátio do Colégio, nos altos da colina, de onde tinham uma boa vista de todo o Vale do Anhangabaú desde a Cantareira, lá longe, até as colinas do Cambuci onde viajantes naturalistas perceberam a existência de bosquetes de araucárias no entremeio das matas (Saint Hilaire).

A escolha dos jesuítas pelos altos da esplanada dotada de “boa vista” obedeceu ao velho esquema de igrejas europeias implantadas nos altos de morros e colinas para uma vizualização permanente por parte dos habitantes do entorno rebaixado (conforme percepção de Mário de Andrade). Pátio do Colégio em São Paulo, Bairro dos Educandos em Manaus.

Mas, a segunda expressão, relativa à vizualizacão de cenários aprazíveis por parte de grupos tradicionais – descendentes de imigrantes italianos – foi o nome “Bela Vista”. O nome foi decisivo para indicar as suaves colinas escalonadas que estavam localizadas acima do triste sítio do Bexiga. O nome Bela Vista, fixado nos fins do século XIX refere-se às colinas mais elevadas existentes no setor periurbano a leste do Cemitério da Consolação e à beirada inferior do espigão central onde depois se localizou a Avenida Paulista. De início num loteamento singelo instalavam-se migrantes italianos que se dedicaram a funções diversas para sua sobrevivência em uma região urbana em expansão ao sul dos dois núcleos históricos principais da cidade. O nome Bela Vista precedeu o advento do uso urbano do espigão central onde se estenderam ruas paralelas e transversais do importante bairro moderno de Cerqueira César.

O tradicional bairro residencial de migrantes peninsulares foi o núcleo da cidade em crescimento (fins do século XIX e primeira metade do século XX), que mais sofreu repartições devido ao jogo de avenidas transversais de ligação entre o centro novo e o centro velho. Por outro lado, em tempos diferentes construíram-se avenidas de fundo de vale para transpor o espigão central onde se estabeleceu a Avenida Paulista: a Avenida 9 de julho e a Avenida 23 de Maio. Em compensação foram feitas avenidas de interligação que através de viadutos sucessivos passaram por cima das avenidas de fundo de vale. A primeira delas saindo da rua São Luis, em frente à biblioteca Mário de Andrade, cruzando por viaduto a Av. Nove de Julho para atingir a Praça Clóvis Bevilaqua, no centro histórico de São Paulo. Mais recentemente, construiu-se outra transversal de interligação partindo de um pequeno túnel na Praça Roosevelt em caráter de semi-rodoanel passando pela Bela Vista, baixo setor da brigadeiro Luis Antônio e por cima da Av. 23 de Maio até além da Liberdade atingindo por fim o entrelaçado tríptico de viadutos do Glicério.

Esse entralaçamento de avenidas de fundo de vales e avenidas transversais de interligação entre os dois núcleos principais do centro da cidade (CBD até 1940), resultou em subdivisões do antigo espaço do bairro do Bexiga inicial. Mesmo assim o bairro resistiu em suas funções tradicionais envolvendo moradias e edificações singelas, pontilhado de lanchonetes, padarias e alguns teatros de grande importância cultural. O contraste urbanístico ocorrido entre a Bela Vista de baixo e o alinhamento arquitônico de belos edifícios e implantações tal como a Câmara Municipal de São Paulo derruiu todo o antigo bairro do Bexiga e estabeleceu cenários contrastantes com a Bela Vista. Dois teatros principais permaneceram no setor enclausurado da Bela Vista de baixo: O Teatro de Cultura Artística e o resistente e simbólico Teatro Oficina.

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O tombamento do Teatro Oficina processou-se nos fins do ano de 1982, do século passado, em uma época em que o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Arqueológico (CONDEPHAAT), conseguiu ampliar o foco das preocupações mais importantes e diversificadas. Ao invés de se preocupar apenas com prédios e museus históricos, ou igrejas e capelinhas, o conselho naquele momento fixou-se em fatos representativos da natureza no território paulista (Serra do Mar, Serra do Japi, Pedra Grande, Atibaia, entre outros). Em segundo lugar houve uma preocupação especial com os centros históricos de velhas cidades paulistas (Itanhaem e Iguape; Bananal e Cunha; São Luis do Paraitinga entre outras). E por fim os principais teatros existentes na cidade e periferia central de São Paulo. Em um tempo em que, por razões diversas, grandes e pequenos teatros e cinemas estavam ameaçados de fechamento e perda de funções culturais porque “todo espaço virou mercadoria”, como dizem os jovens geógrafos da Universidade de São Paulo, surgiram os primeiros shoppings e galerias para atendimento dos distritos centrais de negócios, e bairros sócio-econômicos de habitantes mais bem aquinhoados e consumistas.

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A reunião do Condephaat na qual seria decidida a aprovação ou não do tombamento do Teatro Oficina, foi um verdadeiro espetáculo teatral restrito. Estavam reunidos todos os conselheiros, representantes de instituicões acadêmicas e culturais, mais o grupo selecionado de técnicos e cientistas, sem direito a voto, dotados da maior capacidade de avaliação analítica de projetos e adendos relativos à previsão de impacto. De repente entrou na reunião a equipe de José Celso Martinez Correa, incluindo seis pessoas e um cinegrafista além de Lina Bo Bardi, a grande arquiteta e paisagista, de nível internacional, a quem São Paulo tanto ficou devendo. José Celso queria o tombamento vinculado ao projeto de Lina, mas pretendia a imediata desapropriação do pequeno e importante edifício. Então foi explicado a ele que ao Condephaat caberia a aprovação do tombamento mas a desapropriacão deveria ser realizada por outros órgãos da administração do governo estadual. Nesta altura, o presidente do conselho pediu licença para funcionar como debatedor passando a presidência ao seu vice, o equilibrado e operoso Murilo Marx. As discussões feitas de modo mais seerio e inteligente duraram três horas ao fim das quais o conselho aprovou o tombamento do Teatro Oficina sob a condição de implantar-se o projeto de Lina Bo Bardi.

O fato de José Celso ter providenciado a vinda de uma pessoa com uma filmadora portátil, em seu grupo de visita, garantiu um ambiente de total independência nas discussões da importante reunião. Assim, tanto estavam sendo gravadas em imagem e som, as falas dos conselheiros como também se garantiu um equilíbrio documentário de valor histórico e democrático. Houve uma permissão tácita para a longa gravação por parte da presidiencia do conselho. A presença da notável arquiteta e museóloga Lina Bo Bardi, com sua experiência e equilíbrio técnico e científico enriqueceu as discussões que por fim resultaram no tombamento prévio do Teatro Oficina (dezembro de 1982) que garantiu desde aquele dia a proteção integral de um espaço de 300 metros de raio, de todo o entorno da instituição. Sendo que qualquer modificação pretendida por proprietários da vizinhança teria que ser aprovada previamente pelo Condephaat. Finalmente no ano de 1984 foi desapropriado pelo governo do estado o espaço correspondente ao teatro, garantindo pelo processo de tombamento a não ocupação do seu entorno conforme o estatuto do tombamento.

De 1982 até os dias de hoje dois acontecimentos opositores se sucederam. Da parte dos membros do Teatro Oficina, aperfeiçoamentos sucessivos do projeto de ampliacão do envoltório para criar um chamado “teatro de estádio” bem projetado e de interesse cultural para todos os setores do bairro da Bela Vista e um modelo de garantido sucesso para revitalização efetiva da periferia do centro histórico.

Em confronto com essa idéia cultural, o chamado grupo Silvio Santos pretende aproveitar o espaço que envolve o edifício atual do Teatro Oficina para um shopping center encarcerando o edifício original do pequeno e importante teatro situado à Rua Jaceguai entre a esquina da Rua Santo Amaro e as interligações com a rua Abolição e Japurá, tendo à frente o paredão de um Minhocão, por si só já encarcerador. O projeto de um shopping center, ou qualquer projeto que venha a ser pressionado para usar do espaço previamente tombado para fins de um construtivismo exagerado que aproveite a verticalização até setores do céu, de caráter essencialmente capitalista, nesta altura da parte baixa estreitada da Bela Vista, seria totalmente inadequado no local desejado pelo grupo Silvio Santos.

O bairro da Bela Vista, visto em seu todo, constitui o mais original e resistente conjunto espacial e social da periferia do centro histórico. As velhas e sugestivas tradições dos descendentes italianos que ali habitam, ao contrário das outras áreas pericentrais existentes, que se tornaram intensas áreas de comércio concedem à Bela Vista uma originalidade a ser permanentemente atendida e respeitada. No círculo de bairros que envolvem os dois centros históricos da cidade de São Paulo observa-se a presença de subnúcleos comerciais de funções epecíficas tais como o Bom Retiro, a 25 de Março, a Luz e a Rua Oriente, o Brás, a Teodoro Sampaio e Avenida Rio Branco. Fato que inclui alguns tipos de comércio multi intensificados por clientelas consumistas que envolvem desde comércios têxteis a eletroeletrônicos, fazendas, brinquedos e produtos importados, autopeças para veículos e motocicletas. O bairro da Bela Vista, neste conjunto tão diversificado e característico de bairros subcentrais, representa uma excessão particular a ser sempre bem pensada e protegida. É uma réplica do que são alguns bairros e setores de muitas outras cidades do mundo tais como o importante bairro da Boca em Buenos Aires, o Pelourinho em Salvador, o Ver-o-Peso em Belém, algumas ruas da Rive Gauche em Paris e adjacências dos grandes museus de Berlim e confins de suas estações de metrô. Evidentemente ninguém quer a blindagem total de todo o conjunto da Bela Vista mas tudo tem de ser bem planejado do ponto de vista sócio cultural, sócio econômico e paisagístico. Grupos muito ricos da cidade de São Paulo tem força para impor os seus projetos em muitas outras áreas da metrópole sem perturbar ainda mais o bairro que garantiu a presença de teatros, restaurantes, lanchonetes, padarias e feiras tradicionais ao lado de velhas igrejas, escolas de samba, e instiuições culturais diversificadas.

Por estas razões e muitas outras, entre o projeto do “teatro estádio” de elaboração bem planejada e socialmente útil preferimos indicar essa idéia como muito superior às pretensões do grupo Silvio Santos, que se baseia exclusivamente no neocapitalismo que vem arruinando a funcionalidade de uma cidade que atingiu os seus 456 anos de vida com originalidades vitalizadoras. Ambas as pretensões envolvem grupos muito ricos ao lado de grupos muito pobres e voluntários. É certo porém que o projeto do Teatro Oficina representa um dos poucos e mais aprazíveis projetos de revitalização da zona periurbana sul do centro histórico de São Paulo.

Espera-se que haja uma boa compreensão pela nossa opção pelo projeto do grupo voluntário, pobre e resistente que é constituído pela atual equipe de José Celso Martinez Correa: Catherine Hirsch, Valério Peguini, Tommy della Pietra, Marcelo Drummond, Camila Mota, Letícia Coura, Lucas Weglinski, Simone Rodriguez, Ana Rúbia de Melo e por todos aqueles que trabalharam pelo Oficina.

Por último é necessário registrar que no ambiente de trabalho do Oficina, além das atividades teatrais, tem havido reuniões culturais sucessivas sobre temas importantes, as quais, ao nosso ver, são muitas vezes mais importantes que muitos seminários da maior parte das universidades brasileiras. Anotamos que nestas reuniões estiveram presentes personalidades importantes como Mario Schömberg, grande físico brasileiro já morto, presença assídua nos debates; Celso Furtado; Marilena Chauí; Antônio Negri; Paul Heritage, mestre da Queen Mary University of London, responsável pela organização People’s Palace Projects; Aleksandar Sasha Dundjerovic, mestre da Universidade de Manchester; Christopher Dunn, mestre em literatura brasileira da Universidade de Tulane em Nova Orleans; o arquiteto francês Jeremy Galván; Lotte, Ulrica e Veronika da Escola Sueca de Filme, Teatro e TV e Academia de Arte Dramática de Estocolmo; Hans Ulrich Obrist, curador da Serpentine Gallery em Londres; o ministro da cultura do Brasil Juca Ferreira; seu antecessor Gilberto Gil e o presidente do IPHAN Fernando Almeida, entre muitas outras personalidades do Brasil e do Exterior.

São Paulo, 25 de janeiro de 2010. 456 anos da cidade de São Paulo

Aziz Nacib Ab’Saber

 


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