Parecer de Marcelo Suzuki

PARECER DO ARQUITETO MARCELO SUZUKI ACERCA DO TOMBAMENTO DO TEATRO OFICINA.

A Bela Vista foi assim um dia. Depois foi abandonada, ao seu próprio destino. Apesar da proximidade com o centro da cidade, cujo dinamismo no início do Século XX espantava a todos, e mesmo considerando as dificuldades de transporte, “pularam” a bela vista e foram, primeiro para Luz e Campos Elíseos, República e Vila Gustavo, depois subira a Consolação seguir daí pelos espigões. Pelo outro lado, Liberdade e Aclimação para diante.

Ficou assim um enclave urbano. Nele, os pobres.

Durante muito tempo a especulação imobiliária ignorou o lugar. O nome “bixiga” é atribuído à peste de varíola que teria acometido habitantes dali, nesse período. Estigma.

Por estar perto do centro, numa cidade radial, por não ter tido maiores interesses por parte da especulação, foi seguidamente rasgada em todas as direções, bela vista segmentada, esquartejada.

Sobrou para os pretos, descendentes dos escravos e imigrantes italianos pobres, “quase pretos de tão pobres”. Samba e Cantinas. No fim da grota do Córrego da Saracura, a escola de samba Vai-vai nascia. Acima, 13 de maio, Nossa Senhora da Achiropita, os Restaurantes Italianos. Adoniran Barbosa e o Samba do Italiano: “Piove, piove. Fa tempo qui piove qua…” E os Nordestinos: forró e baião. De 2. A vida boêmia. Os Teatros foram para o Bixiga.

Depois, o Teatro Oficina e sua eterna luta: para pagar o aluguel, para se refazer do incêndio, para heróicamente sobreviver ao Regime Militar, para o Tombamento pelo CONDEPHAAT, para conseguir dinheiro e executar integralmente o projeto de Lina Bo Bardi, em parceria com Edson Elito. Sempre à luta, e quanta. A LUTA, Antônio Conselheiro.

Donna Lina, a formidável arquiteta brasileira, nascida em Roma, deixou-nos poucas obras. Muito poucas para tamanha competência. São como jóias, obras-primas, escassas, raras.

Temos, todos os brasileiros, que requer urgentemente o tombamento federal do Teatro Oficina.

A especulação imobiliária se deu conta de que, agora, vale atuar ali: a proximidade do centro ainda é atrativa, a falta de estoques de terrenos, as lucrativas oportunidades de
instalar ali prédios de escritórios ou voltadas para clínicas, shopping-centers. Abandonou e quer voltar.

Shopping-centers? São a antítese da vida urbana, da sociabilidade, da civilidade, do convívio aberto e solidário, da humanidade.

Tem que ser Tombado com urgência, e para que, ao invés de morrer, coisa que não conseguiram, mas tentaram, tem é que expandir. O IPHAN e o Ministério-MINC tem que agir, desapropriar o terreno vago-especulativo e incrementar mais atividades culturais para aquela população, rica em manifestações intuitivas e espontâneas, que, com mais incentivo despontaria sem dúvida nesse novo pólo que ali deve ser montado. O Bixiga é um dos poucos lugares da Metrópole onde as crianças brincam na Rua – o que é um bem, mas é também um mal…, apesar de bonito.

Com a volta da especulação, novos prédios e novos moradores chegaram: protestam contra o Vai-Vai. Ora, o Vai-Vai está ali há 100 anos, antes de escola de samba, foi Cordão, como se chamava o desfile, específico e particular do samba de São Paulo! Que nem morreu nem é um túmulo. E o Vai-Vai só dispõe de um pequeno barracão, suficiente apenas para a guarda dos instrumentos e as pequenas atividades. É a única escola de samba central na cidade de São Paulo e ainda por cima respeita criteriosamente a Lei do Psiu.

Tem que ser ajudada também. A expandir também.

No momento em que as atividades do IPHAN estão expandidas, e, com toda razão se providenciou o tombamento de bens imateriais, o Bixiga tem que ser visto como um todo, à partir dessas duas preocupações iniciais: O Teatro Oficina e a escola de Samba Vai-Vai.
Com dois pólos de atividades em dois pontos diferentes da Bela Vista retalhada, estará se promovendo uma reunificação sentimental e moral desse magnífico caldeirão étnico e cultural da história de São Paulo.

Estará se promovendo uma possibilidade dos moradores novos aceitarem de bom grado o convívio com velhos moradores e suas atividades. Estará se promovendo mais e mais a atenção do público para o que ocorre lá – levar gente para conhecer e respeitar esse enclave urbano, participar das atividades e da cultura do Bixiga, aumentar a permeabilidade daquilo que quase transformaram compulsoriamente em gueto.

Pelos motivos acima expostos, este parecer solicita a urgência do Tombamento Federal do Teatro Oficina, um dos últimos projetos edificados que nos deixou Lina Bo Bardi, e que está perfeitamente mantido como ela concebeu pelo grupo gestor do Teatro; sugere ainda a expansão das atividades culturais no Bairro da Bela Vista, através da desapropriação de terrenos vagos; sugere também que se faça a análise da possível expansão e melhoria de condições físicas de trabalho para a escola de samba Vai-Vai.

Marcelo Suzuki Arquiteto São Paulo, 5 de Fevereiro de 2010