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Parecer de Nilo Batista e Vera Malaguti

Parecer de Nilo Batista e Vera Malaguti

 

Senhores

Kassab, Serra e Lula

 

Quando pensamos nos modelos territoriais

organizados como lugar praticado ou território usado, imediatamente nos lembramos das Passagens de Benjamin. 

 

Esta passagem é o locus classicus para a apresentação das passagens, não só porque a partir dela desenvolvem-se as divagações acerca do flâneur e do tempo, mas também porque o que se tem a dizer sobre a construção das passagens do ponto de vista econômico e arquitetônico poderia encontrar aqui o seu lugar.[1]

 

  Falar de lugar é trabalhar a noção do

inesquecível Milton Santos de localização, “momento do imenso movimento do mundo, apreendido em um ponto geográfico, um lugar. Por isso mesmo, cada lugar está sempre mudando de significação, graças ao movimento social: a cada instante as frações da sociedade que lhe cabem não são as mesmas. Não confundir localização e lugar. O lugar pode ser o mesmo, as localizações mudam. E lugar é o objeto ou conjunto de objetos. A localização é um feixe de forças sociais se exercendo em um lugar”.[2] Apreender esse feixe de forças sociais, essa constante alteração nas significações implica a compreensão da discussão temporal na concepção de espaço. Compreender a cidade “como um espaço privilegiado de construção da memória coletiva”, monumentum, sinal do passado.[3]

 

Levemos em consideração também a inscrição desse lugar e dessa história no subespaço da periferia do processo de acumulação do capital. Então, temos que lidar com duas categorias do saudoso Darci Ribeiro: o processo civilizatório, ou a incorporação periférica e seus moinhos de gastar gente, ou ciclos do capital e suas máquinas de moer índios, africanos, fiéis de Canudos, camponeses sem terra na Cabanagem etc.[4]

 

Zaffaroni, o jurista e pensador argentino, diz que a América Latina nasceu como uma instituição de sequestro. Vivemos os ciclos de transculturação das revoluções mercantil, industrial e técnico-científica. Em todas elas reinou o capital sobre os corpos dos homens: dono do seu tempo de trabalho e do seu tempo livre, a grande presa do capital vídeo-financeiro. Zaffaroni nos diz também que a nossa América é um encontro de povos descartados ou descartáveis: índios, africanos, orientais, europeus pobres e ou socialistas e anarquistas. Nenhuma cidade do Brasil expressa mais essa babel caipira, essa metrópole tugurienta e colossal do que São Paulo.

 

 

 

No final do século XX, no Rio de Janeiro, um profeta andarilho rabiscava pelos muros vadios suas antevisões e alumbramentos: “gentileza gera gentileza”, era o que pregava contra o “capeta-lismo”. Singularizar a experiência na cidade demanda uma ruptura ético-metodológica dos que a pensam e a planejam. Mais história, mais antropologia naquele sentido proposto na experiência etnográfica e política de Janice Caiafa: “a cidade se abria a estrangeiros, refugiados, lhes oferecendo algum tipo de inserção, de pertinência – não uma integração, mas um lugar nos fluxos urbanos, nessa mobilização que só a cidade realiza”.[5] As inquietudes, os desassossegos e os transbordamentos fazem parte da aventura urbana. Não ter medo do imprevisível que a cidade sempre revela. Estar contra as purificações, as reproduções do disciplinamento e a arquitetura obsidional entre guetos, prisões e fortalezas, deixar emergir o nomadismo, o movimento, a diversidade que faz a diferença, é o que nos motiva a estar  aqui defendendo o Espaço Público do Anhangabaú da Feliz Cidade, o vórtice da antropofagia e do vanguardismo paulista.

 

O Teatro Oficina é mais que um lugar, é uma localização: é uma passagem no fio da história, vivendo intensamente o presente e projetando o passado para o futuro. Este terreiro, fincado no Bexiga, cobiçado pelo capital vídeo-financeiro incorpora não só a história do teatro brasileiro, mas a história do Brasil e das entidades que ali se manifestaram. De Cacilda ao Conselheiro, de Taniko aos nossos bandidos, a edificação de Lina Bo Bardi, a árvore, a terra, os meninos do Bexigão, suas merendas dos entre-atos. O Oficina é uma cidade em si, rica, que respira e emana. Produz fluxos e encontros sem os quais parte do oxigênio brasileiro se transforma em gás carbônico. Guilherme Wisnik nos revela a história dessa localização, seus embates e seu “caráter de passagem de teatro-rua”.

 

Pela desapropriação do Entorno Tombado do Teatro Oficina. Pelo Espaço Público do Anhangabaú da Feliz Cidade.

 

Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 2010

 

       Vera Malaguti Batista e Nilo

Batista



 

[1] BENJAMIN, Walter. Passagens. 1. ed. Belo Horizonte: UFMG/Imprensa Oficial do Estado de S. Paulo, 2006, p. 78.

 

[2] SANTOS, Milton. Espaço e método. São Paulo: Nobel, 1992, pp. 21-23.

 

[3] NEDER, Gizlene. Cidade, identidade e exclusão social. In: Revista Tempo, v. 2, n. 3. Rio de Janeiro: UFF-Relume Dumará, 1997, p. 103.

 

[4] Cf. Darcy Ribeiro. O processo civilizatório: estudos de antropologia da civilização. Petrópolis: Vozes, 1987, e O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras. 1995.

 

[5] CAIAFA, Janice. Aventura das cidades: ensaios e etnografias. Rio de Janeiro: FGV, 2007, p. 118.