Escrita em 1967 quando a ditadura militar no Brasil entrava no seu auge, o autor com pouco mais de 20 anos, já teve a sua primeira peça, Santidade, censurada pelo governo do General Costa e Silva, e com o próprio presidente em todas as redes de TV do território brasileiro, com o texto da peça em punho e definitivamente proibindo-a de ser encenada por tratar abertamente de homossexualismo. Com a primeira obra censurada Zé Vicente partiu pro seu segundo texto e primeiro a ser encenado: O ASSALTO.

Na sua primeira versão, encantou não só os críticos e o público habitual de teatro pela qualidade e poesia do texto e também a juventude libertária e transformadora de 1968 por tocar abertamente nos tabús, não só do homossexualismo mas também dos movimentos de esquerda, que na época assaltavam os bancos para se manter e sustentar as guerrilhas que se armavam nos campos para desestruturar o regime militar.

Zé Vicente coloca em O ASSALTO, dois personagens Vitor e Hugo (brincadeira evidente com o nome do escritor), o primeiro jovem bancário solitário vindo do interior para São Paulo se tranca numa sala com o segundo, um varredor pai de família, pra tentar comprar sua companhia. A tentativa de simbolizar a direita e a esquerda com os dois e evidente, mas se confunde no decorrer da situação como tesão explícito do bancário, símbolo da direita, no varredor, obviamente símbolo da esquerda, mas que aumenta a sua renda se prostituindo nas horas vagas. O ASSALTO, apesar de escrito há mais de 30 anos mostrou, nesta montagem ser uma peça atual demais, inclusive por se passar num banco, igreja do maior deus do momento: o dinheiro.
Zé Vicente, é considerado até hoje como um dos maiores dramaturgos surgidos no Brasil, com suas peças de câmara faz verdadeiras peças religiosas, lembrando sempre a sua origem numa família pobre em Minas Gerais, estudante de seminário deixando transparecer seu cristianismo, que em alguns momentos lembra o de Jean Genet.
Com o endurecimento da ditadura militar brasileira na época, o autor, muito perseguido, caiu no ostracismo, sendo quase esquecido pelas gerações seguintes, mas suas críticas contundentes ao mundo atual continuam nesta montagem.

O Teatro Oficina

Fundado em 1958 como teatro amador, por estudantes de direito, esses artistas, Zé Celso, Reanto Borghi, Ron Daniel, Amir Hadad e outros, em 1961 ocuparam um pequeno teatro no bairro do Bixiga em São Paulo, ao qual denominaram Teatro Oficina e tornaram-se profissionais. Zé Celso assumiu a direção das pecas e o grupo tornou-se um dos mais importantes do Brasil, montou entre outras PEQUENOS BURGUESES de Maximo Gorki, GALULEU GALILEI e SELVA DAS CIDADES de Bertolt Brecht, AS TRES IRMAS de Tchecov, mas foi REI DA VELA de Oswald de Andrade em 1967 que o grupo se tornou popularmente conhecido no Brasil e em várias partes do mundo, essa peça, um dos pontos de partida para a Tropicália, movimento cultural que se tornou conhecido mundialmentre através de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé somente como movimento musical, mas que no Brasil reflete uma serie de acontecimentos culturais de música, teatro, artes plásticas, cinema e moda que aconteceram na mesma época e que se assemelhavam estética e politicamente, sem ser uma arte de protesto, pois sempre procurou afirmar a cultura, se opos heroicamente a ditadura estabelecida.
Em 1974 o grupo foi expulso do Brasil e em 1975, durante a revolução dos cravos ficou em Portugal se apresentando em fabricas ocupadas. Zé Celso dirigiu junto com Celso Lucas para a RTP o documentário O PARTO com material da própria televisão e em Moçambique filmaram o dia da independência do país no documentário “25”. Em 1979 de voltou ao Brasil Zé Celso terminou o filme O REI DA VELA e com Lina Bo Bardi e Edson Elito projetaram uma nova arquitetura para o Teatro Oficina que incorporasse os terreiros de camdomblé, os desfiles de escolas de samba, a luz do sol, a cidade e a tecnologia de video som e luz. E a década de 1980 passou construindo esse novo teatro, que reabriu em 1993 com HAMLET de Willian Shakespeare e desde então já produziu mais de 15 peças, a maioria com direção de Zé Celso entre elas BACANTES de Eurípedes, PRA DAR UM FIM NO JUIZO DE DEUS de Antonin Aratud, ELA de Jean Genet, MISTERIOS GOZOZOS de Oswald de Andrade, CACILDA! de Ze Celso (sobre a que é o maior mito de atriz brasileira) e BOCA DE OURO de Nelson Rodrigues.
Desde de 2000 a companhia esta no projeto de OS SERTÕES de Euclides da Cunha, livro considerado o mais importante escrito no Brasil, onde a partir do acontecimento da guerra de Canudos, o massacre ocorrido no sertão da Bahia, tenta pela primeira vez, em 1902, analisar a formação do brasileiro e da nação brasileira. Já foram montadas 4 pecas: A TERRA, O HOMEM 1 – do pre homem a revolta, O HOMEM 2 – da revolta ao trans-homem, A Luta 1 e em marco de 2005 esta prevista a estreia da última parte do livro: A Luta 2.
A companhia, neste momento esta em Berlim no teatro Volksbuehne onde provocou escândalo na imprensa sensacionalista por apresentar cenas com atores nus. A última rodada das 4 peças será de 20 a 24 de outubro.

O ASSALTO, dirigido por Marcelo Drummond, no Teatro Oficina desde 1986 onde se formou como homem de teatro, produziu, co-dirigiu, iluminou e é claro atuou sendo um dos protagonistas principais dessa grande companhia. Protagonisou entre outras HAMLET. BACANTES e BOCA DE OURO. Esta é sua terceira direção e com ela obteve o êxito de crítica e público onde se apresentou, com um trabalho sutil de ator e ao mesmo tempo sem esconder a sensualidade do texto e dois dos atores que também integram o elenco de OS SERTÕES, Haroldo Costa Ferrari e Fransérgio Araújo.
O ASSALTO estreiou em abril de 2004 onde ficou em cartaz por 4 semanas sendo obrigado a sair de cartaz para a primeira vigem de OS SERTÕES para Alemanha. Foi apresentado na Italia, no Festival Intercity – São Paulo no Teatro della Limonaia em Florença com exelente recepção do público e da crítica italiana. Ficou em cartaz no teatro Oficina até dezembro de 2004, recentemente foi apresentada em Araraquara no interior de São Paulo, também com exelente repercussão da crítica.