COSMOLOGIA DO ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE

 

1969

Lina Bo Bardi recolhe entulhos dos sobrados demolidos para a construção do Minhocão e cria o cenário da peça Na Selva das Cidades, de Bertolt Brecht. Lina e o artista plástico baiano Ednysio criam os figurinos e estruturas cênicas com pêlos de bichos, ossos e lixo dos escombros do minhocão: pedras preciosas de cimento. Chegam os operários de toda parte para a construção do viaduto, que se tornariam os fregueses da Cantina Cabaré da Zuria – cozinha comunitária popular que funcionava no interior do Teat(r)o Oficina. Esse período inaugurou a comunicação simbólica, material e concreta, do bairro com o interior do teatro.

1979

O teatro passa a ter múltiplas experimentações cênicas, outras descobertas espaciais. Vontade de romper os limites e a relação messiânica entre plateia e palco e de trabalhar num espaço mais anárquico que abrisse caminho para o desejo de atingir um público popular, para além dos teatros lotados com pequenos burgueses, e conquistar uma comunhão com o público. O prédio do teatro ganha outro programa extrapola as apresentações das peças, vira cantina, cabaré, sala de exibição de filmes, ágoras. A caixa fechada com a ‘pesada’ arquibancada de concreto enrijecia estas outras possibilidades, nasce o desejo de abertura para entrada de luz natural. Para Ver a Luz do Sol.

A direção do Oficina Escreve ao CONDEPHAAT, em 1983, as direções pro novo espaço da companhia, no texto: ‘Comunicação de obras cenográficas’ 

O Bixiga recebe um coro de imigrantes do norte, nordeste, que se afina com o ritmo deste chão. Já criando a matéria do Pré Sertões: o Forró do Avanço, com o cirandeiro, pintor, Artista Popular Multi-Mídia Surubim Feliciano da Paixão, Edgard Ferreira parceiro de Jackson do Pandeiro, Sandy Celeste, a Billie Holyday do Sertão, inspiram a paixão pela terra. A Terra ganha protagonismo. A science deste novo coro coloca as cirandas, os cantos xamânicos de possessão da terra no repertório de luta do Teat(r)o Oficina. Os Artistas Nordestinos nos ensinam a lutar pela Terra, Ser Vivo, ao Vivo.

 

Cirandas e cantos

Tupy or not tupy, Surubim 

O índio quer terra na terra, Surubim 

Para Vera  Luz do Sol, Edgar ferreira, cantada por Sandy Celeste (link musica)

1980

o projeto de Lina Bardi e Edson Elito é concebido como rua para dar passagem à potência criativa das manifestações populares, das bacantes, dos sertanejos, do delírio dos bailes de rua, do carnaval, das manifestações políticas, dos cortejos, das procissões religiosas. A vacina antropofágica de 1967, com o Rei da Vela e as conseqüentes descobertas cênicas que ela trouxe não cabiam mais no palco italiano, nem numa arquitetura colonizada. Deu numa rua. Que trouxe para dentro do teatro as relações espaciais entre os foliões dos blocos de carnaval dançando no rés do chão e os moradores das janelas e dos prédios que acompanhavam a folia. Que numa escala maior deu no sambódromo, e assim se projetaram as galerias tubulares verticais do Teat(r)o Oficina, com um público em trânsito pelo espaço, assistindo as peças de perspectivas diferentes. Público vivo, presente, atuante como os das manifestações populares de rua.

Lina e Edson mantiveram o vão da fachada Oeste aberto, que no canteiro de obras viria a ser o janelão, pano de vidro de 120m², que abria radicalmente o interior do edifício para entrada de luz, da chuva, da noite, da cidade, e que inspira permanentemente a relação com o terreno entorno. Musa das encenações revelado pela ponta de lança Cesalpina, árvore totem sagrada, nascida no interior do teatro e lançada, projetada como flecha para fora, transbordando os limites físicos do prédio, apontando pro Anhangabaú da Feliz Cidade.

Projeto nascido já nos primeiros croquis de Lina Bardi e Edson Elito pro único terreno vago no entorno do teatro, inspirados no Teatro de Estádio proposto por Oswald de Andrade no Teatro que é Bom, no livro Ponta de Lança.

Um Teatro que continua a pista do Teat(r)o Oficina em passarelas, criando uma topografia de planos, rampas e uma marquise na saída da abertura Norte do teatro, até desembocar em nível na rua Japurá, possibilitando uma diversidade de relações entre o público atuador e os atores. Em uma arquitetura onde tudo era entendido com área de cena e público, tanto as passarelas do perímetro como a área central de 600m² e a arquibancada coberta para 500 lugares. O projeto ainda previa um Barracão nos baixos do Viaduto e o reflorestamento do terreno voltado para fachada Oeste, em frente ao Janelão, batizado como Pulmão Verde do Bixiga, ponta de lança do Oficina de Florestas, a Matriz Verde de um programa vital para brotar o Anhangabaú da Feliz Cidade.

Durante as apresentações de Na Selva das Cidades, em 69 Caetano Veloso assiste a peça, se inspira e batiza o pomar insistente nos fundos do teatro de Oficina de Floresta, cantada na música Sampa.

A Oficina de Florestas nasce como um dos programas do Anhangabaú da Feliz Cidade, para devolver a Floresta, a Mata, ao Bixiga, à cidade de Sampã, através do cultivo, conexão e disseminação das alamedas, bosquetes, de toda massa verde que reexistiu ao processo de urbanização da cidade e que nos mostra a fertilidade da Terra que nos envolve e nos mostra que não são Terras improdutivas, são Terras sagradas por ocupações nascidas da dramaturgia inspirada no próprio Terreno, protagonista que vem nos dirigindo todos esses anos.

O projeto de Lina e Edson, aqui, se voltavam pro Parque do Anhangabaú, Lina via, com sua visão AchilLina a clara conexão entre Anhangabaú já verdejado pelo projeto Anhangabaú Tobogã e o Teatro da rua Jaceguay, através do curso do Rio do Bixiga que serpenteia a rua Japurá. O Anhangabaú Tobogã é um projeto criado por Lina, em 1981, como alternativa a aridez que despovoava o vale público. Lina propõe uma estrutura delgada altíssima para via de carros e ônibus, apoiada em pilares-gameleiras, liberando o vale fértil para os pedestres, para as plantas, pro bixos, para as crianças.

Ainda em 1980 entra em cena o Grupo Silvio Santos que começam a comprar os lotes do entorno do teatro para levantar seu empreendimento totem do capitalismo, o Shopping Center Bela Vista Festival Center, e no dia 6 de novembro de 1980, o grupo concede prazo de um mês para companhia comprar ou definitivamente perder sua sede. O Oficina mobiliza opinião pública, imprensa e Silvio Santos anuncia publicamente sua desistência.

1982

O Teat(r)o é tombado pelo CONDEPHAAT, tendo Aziz Ab’Saber como presidente e Flávio Império como conselheiro, que cria o laudo defendendo o movimento de expansão da linha de trabalho da companhia.

1983

o Teatro é desapropriado pelo estado, seu prédio, até agora alugado pelo grupo passa a integrar o domínio público e tornar-se um espaço inteiramente consagrado à ação cultural sob a direção do Oficina

1991

Paulo Mendes da Rocha faz um novo estudo, extrapolando os limites do terreno e alcançando com seu projeto os baixios fronteiriços ao teatro e ao terreno, sendo o primeiro a apontar uma aproximação do projeto com o Bixiga. Indicando a complementação do projeto de Lina Bardi já em duas direções, Paulo Mendes propunha a travessia do viaduto, plantando numa sobra de terreno do outro lado da Jaceguay duas torres para abrigar a administração, informática, o centro de memória do Teatro e o Baco’s Bar. Mantêm o Teatro de Estádio nos fundos do lote do Oficina também a oficina e estacionamento de Alegorias escavadas nos baixos do Viaduto e acessada por uma larga escadaria.

2000

É aprovado, pela prefeitura, a construção do Shopping Center Bela Vista Festival Center, pelo Grupo Silvio Santos, projeto de Júlio Neves, a construtora se nega a seguir os parâmetros construtivos do município, e por medida cautelar, a obra é embargada.

2002

Canudos é o cosmos.

Breve ponto de passagem,

escala inicial da viagem.

Decampamos da terra dos homens,

jagunços errantes sob nuvens gigantes.

Armamos tendas de Guerra

pela vida desejada aqui,

sob céus,

do que chamam,

Terra.

Laroiê!

Durante a montagem de Os Sertões, a criação do Movimento Bixigão incorpora crianças moradoras das ocupações e dos cortiços do Bairro para formar o coro de crianças sertanejas da peça – Pré-primária dentição da Universidade Antropófaga, que passa a ser parte do programa, junto com o Teatro de Estádio e a Oficina de Floresta.

O Anhangabaú da Feliz Cidade se afirma como projeto urbano para além dos limites da revitalização ou qualificação de espaços, mas como portentosa oficina que só pode existir pela ação do phoder humano, sobretudo pela vitalidade dos erês, pelo delírio da verdade saída da boca das crianças, como falava Oswald.

As primeiras vitórias do Teat(r)o Oficina sobre o martírio secular da terra, com o tombamento e a desapropriação do teatro, infelizmente não impediu a destruição e desertificação do seu entorno, onde todas as casas da vizinhança oeste foram compradas, destruídas e transformadas em estacionamento num processo cruel e recorrente da especulação imobiliária do empreiteiro predileto de todas as hecatombes.

O Paulista desertifica a área e depois oferece revitalização do espaço tomado pela aridez, fruto de sua própria destruição.

A rua da Abolição hoje é um deserto, não existem casas, nem o bar da esquina da jaceguay, o predinho, nem a Sinagoga, todos destruídos e incorporados ao estacionamento.

Então, depois da terra arrasada, Sir Lobby Locteador Estripador oferecia ao bairro, durante os ensaios da peça, no início do ano 2000, a grande oportunidade da revitalização! Um Shopping Center que traria segurança! Iluminação! Empregos! Lazer! E a cada palavra dessa, vendida com habilidade de camelô transmitida pelas antenas dos picos de São Paulo, ouvíamos o pliiim pliiiiiiim do pianinho de um show dos calouros que sonhavam ‘acontecer’ nesse novo carandiru de luxo e que não tinham, e ainda muitos não têm, a noção de que, com a consolidação da especulação financeira, iriam ser despejados para as periferias, bem longe do capital.

Os Sertões nos mostrou que Canudos tem o substrato poético para emancipar as terras do Bixiga, e a dramaturgia da poesia concreta, geográfica de Euclides da Cunha vira diretora das ações precisas para conquistar o terreno do entorno pela Antropofagia. O transe religiosos dos Sertanejos revira a posse contra a propriedade em Possessão contra a propriedade e este ‘irracionalismo libertador é a mais forte arma do revolucionário. A revolução como possessão do homem que lança sua vida rumo a uma ideia, é o mais alto astral do misticismo. As revoluções fracassam quando esta possessão não é total’, Glauber Rocha sobre o transe que fez vencer os conselheiristas nas sucessivas batalhas de Canudos.

Os Sertões, nasceram como transporte, metáfora diante da ameaça de um Rheal Teatro de Estádio, que a construção de uma caixa preta de mil lugares, proposta naquela ocasião pelo grupo SS, podiam massacrar. Os Sertões se deram num campo de combate. O Teatro e seu Duplo.

Que transmutou o terreyro Eletrônico em Máquina de Guerra, trincheira sertaneja – imensa máquina, um novo espaço, como estreito corredor ‘crista de gilete’, coluna vertebral kundalini, mais duas áreas: uma subterrânea: cave deslumbrante ainda sem os vinhos, trazendo as casas trincheiras da invencível Canudos; e o espaço aéreo dos mutãs, esconderijo que os índios usavam nas copas das árvores para a caça do jaguar e que os conselheiristas reinventaram. No Oficina agora há áreas aéreas de atuação também no Duplo dos Céus, para onde o Teto móvel se abre. Tudo virou área de atuação. A máquina de Luta cria esta máquina de Teatro. Você público está todo nela que é palco entre os ferros de Ogum, o São Jorge Guerreiro, protetor do Brasil, que há anos nos protege com a Bigorna na testa da nossa fachada.

2004

O Grupo SS convida o escritório Brasil Arquitetura, coordenado por arquitetos que trabalharam próximos a Lina Bardi para elaborar um projeto híbrido que atenderia as necessidades de mercado do grupo, com a construção do Shopping Center e em contrapartida incluiria o projeto do Teatro de Estádio.

Mas o projeto resulta num mega empreendimento de quase 60mil m², alienado do entorno, trancando todos os fluxos do delta de ruas, adensando ao máximo o terreno entorno ao teatro, ignorando os recuos necessários e legais para uma área envoltória de bem tombado, e desprezando o respiro fundamental para manutenção da transparência do janelão da fachada Oeste. Por fim, ironicamente, confinando o Teatro de Estádio, projetado como teatro aberto a cidade e ao cosmos, numa caixa preta, fechada, monumental, de forma que o CONPRESP pede alteração no desenho e o grupo abandona o projeto

video de apresentação do projeto 

parte 1 

parte 2 

 

Numa visita do Silvio Santos ao Teat(r)o durante a montagem de Os Sertões, surgiu pela primeira vez a proposta de troca de terrenos de propriedade do grupo com um terreno da união.

– video visita (link)

Em consequência da visita e da possibilidade da troca, a companhia inicia um trabalho mais profundo na elaboração do programa do Anhangabaú da Feliz Cidade. O arquiteto João Batista Martinez Corrêa, irmão de Zé Celso, projeta uma proposta de implantação do Teatro de Estádio, da Universidade Antropófaga e da continuação da Oficina de Florestas no terreno entorno.

O projeto, partindo da topografia existente, cria uma diversidade de acessos, áreas de cena, sugere outra implantação do Teatro de Estádio, agora ocupando o terreno da fachada Oeste e simulando as curvas de nível da topografia de Canudos. A Universidade Antropófaga fica abrigada num prédio de cinco andares no terreno a Leste do Teatro e a Oficina de Floresta se dissemina em grandes áreas vegetadas e jardins.

 

11 de outubro de 2004 : PRIMEIRAS CONSIDERAÇÕES INTEMPESTIVAS PARA A CRIAÇÃO DO PRIMEIRO TEATRO DE ESTÁDIO

2008

Baixam as torres – um condomínio residencial de três prédios de quase 100m de altura – dois na lateral oeste do teatro, do janelão de 120m² e da Cesalpina – árvore totem plantada por Lina Bardi e ponta de Lança para possessão do entorno, e um prédio na lateral leste do teatro, com o pomar, as alamedas e o mirante da rua Santo Amaro. O grupo SISAN tenta aprovar os prédios nas três estâncias dos órgãos de preservação do patrimônio – CONPRESP, CONDEPHAAT e IPHAN

2010

Dionisíacas em Viagem, uma turnê nacional com apoio do Ministério da Cultura que levou quatro espetáculos do repertório da Companhia- Taniko, Cacilda!! Uma estrela brasileira a vagar, Bacantes e Banquete- à oito capitais brasileiras, Brasília, Salvador, Recife, Belém, Manaus, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Sampã. Apresentando em espaços efêmeros para no mínimo 2.000 espectadores, o de Teatro de Estádio, onde o público abraça a cena em todas as suas dimensões, construídos especialmente para cada cidade. Em São Paulo, pelo contrato estabelecido com o Minc se deve fazer na sede do Teatro, mas após 28 apresentações para a multidão o Oficina estava sedento de público. Então Zé Celso liga para Silvio Santos e pede o terreno do entorno emprestado para montarmos a tenda do Teatro de Estádio. Silvio Santos aceita. Foi estabelecido um contrato de comodato entre o Grupo Silvio Santos e a Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona.

 

As Dionisíacas marcam o primeiro pisar no terreno do entorno, um rito teatral de descobrimento daquelas terras através da abertura dos arcos do beco ao Norte do Teatro e a concretização da Rua Lina Bardi que se transforma em acesso ao terreno e ao Teatro de Estádio. Com a abertura do beco o chegar no terreno através da concretude da experiência corpo a corpo com o lugar: a descoberta do gérmen do Oficina de Floresta, o pomar frutífero preservado pelo Grupo SS; o sentir arqueológico de todos os sobrados, da sinagoga, dos edifícios que foram demolidos e que agora são matéria prima e formam o chão do terreno com seus 80cm de entulho; o sambaqui a montanha totem desses entulhos. O terreno do entorno é lugar para respirar o cosmo através da amplitude do Vazio. O pisar no terreno automaticamente fez necessário um novo projeto para o Anhangabaú da Feliz Cidade, um projeto e um novo programa que através da experiência real com o lugar, concreta, imante e estimule todas essas descobertas e preserve o Vazio.

Aliado a tudo isso, em 2010, o Teatro e a Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona foram tombados pelo Iphan com belíssimo parecer da Arquiteta Jurema Machado que o transforma em manifesto para a complementação do projeto de Lina Bo Bardi e Edson Elito com corporificação do Anhangabaú da Feliz Cidade.

2011

Abertura da 1º dentição da Universidade Antropófaga incorpora Oswald no século XXI com o Manifesto Antropófago. O prólogo da peça Macumba Antropófaga se abria para a rua Jaceguay, em uma imensa cobra-grande com atores e público atuador, num cortejo que abraçava o terreno entorno ao teatro e as ruas do Bixiga, em estações, onde cada entidade estava assentada: na Major Diogo, incorporando Cacilda Becker em frente ao TBC e Dona Yayá em frente à sua casa amarela; na rua Dr. Ricardo Batista, última casa de Oswald de Andrade; na travessia pela rua dos cortiços, a São Domingos, e a multidão de crianças bixiguentas que seguiam a cobra-grande; na Japurá, onde contracenávamos com o morador poeta que atuava de sua janela e fazíamos o gesto mágico no Portal da Japurá: totem da arquitetura urbana e cênica de AchilLina Bo Bardi, e no retorno ao terreno pelo portal da Santo Amaro, atravessando a Oficina de Florestas, desembocando no miolo do terreno imenso onde a epifania se deu: a descoberta da potência do Vazio. Despertamos para atender ao Mundo Orecular e amar o silêncio sagrado produzido pelo vazio entorno ao teatro;

Com o prólogo da peça no terreno, naturalmente seus elementos, sua topografia, seus muros são incorporados como área de cena:

o Sambaquí, montanha de entulho, totem do tabu especulação imobiliária, semeado junto com público em várias peças, florescendo em girassóis e outros verdes.

os Portais, da Abolição, fundado nos escombros da 1° sinagoga de Sampã; Portal da Japurá, entrada para conexão Teat(r)o Oficina – Parque Anhangabaú; Portal da Santo Amaro, que conclui a abertura total do terreno pros quatro pontos cardeais completando o Delta de ruas que desemboca na Praça da Paixão.

A descoberta dos vários foyers entre a fachada Norte do Teatro e a Oficina de Floresta para receber o público atuador e encenar atos das peças: Oca Troca-Troca e os vários Nick-Bar.

Na segunda temporada da Macumba Antropófaga encenamos a peça no terreno em frente ao Janelão, armamos ali a tenda de Circo e experimentamos a encenação em arena circular, atravessada pela pista longitudinal, projeto que quando desmontado deixou tatuada a Terra do entorno com o xamado báquico – IÓ!

As sucessivas implantações temporárias experimentadas: a tenda de dois mil lugares, a lona de Circo, a tendas menores pros Foyers, nos revelou a importância de manter e adorar o vazio entorno ao teatro e na contramão de uma solução emergencial de um projeto monumental, nos levou a ensaiar e experimentar o programa criado e em criação permanente do Anhangabaú da Feliz Cidade em tendas nômades, transumantes, projetos nascidos da necessidade de cada encenação, sem uma solução totalitária, anterior a experiência concreta do lugar. Para cada peça um teatro.

2012

Saímos da dimensão abstrata da implantação, programa e gestão do Anhangabaú da Feliz Cidade e experimentamos, com o Convênio Exemplar Irresistível, este projeto no corpo, em maquete viva 1:1, já no caminho menos da ocupação adensada e mais na dimensão do corpo. O projeto teve o corpo do ator como protagonista desta arquitetura como alternativa a criação abstrata e mental de um espaço, o corpo do atleta afetivo, ligado! concreto! libidinoso, uma arquitetura dirigida pela experiência, pelos desejos, pelos desafios do corpo.

Inspirados na força do movimento presente nos Metaesquemas de Hélio Oitica, traçamos o programa da maquete 1:1 do Anhangabaú da Feliz Cidade. Na sua menor dimensão: um lugar para o trabalho do corpo do ator, para a cozinha, administração, para os equipamentos do Bárbaro Tecnizado (som, luz, vídeo), chuveirões abertos, bicicletário, todo o programa nascido e percebido pela matéria concreta das diversas superfícies: OSB, britas de granulações diversas, seixo rolado, grama, seixo branco, madeira e dois tanques de água, os Bólides Mergulho do Corpo, programa do crelazer de Hélio Oitica.

Todo desenho da implantação a partir das linhas diretrizes presentes no próprio terreno, traduzindo em menor escala os movimentos de suas diagonais e a diversidade da sua topografia.

2013

A Acupuntura Urbana no Corpo de Sampã, uma expedição de artistas do Oficina, percorre, com o ‘Ônibus chamado AchilLina Bardi’, a cidade de Sampã, realizando uma “Acupuntura no Corpo da Metrópole Infartada”, em todas as Obras de Lina Bo Bardi. Em cada estação-obra de Lina aplicamos pelo Teato uma acupuntura nos pontos obstruídos. A escala urbana deste Teato fez experimentar em ato a perspectiva urbana trazida por Lina Bardi e a clara conexão entre o Teat(r)o Oficina, sua última obra e o Vale do Anhangabaú.

Gestos mágicos, precisos como a plantação das árvores nativas evocadas por Lina no projeto do Palácio das Indústria, no terreno entorno ao Teatro; o Furo no Portal da Japurá; a sagração de uma árvore no Vale do Anhangabaú; a invocação do Rio do Bixiga, desviado do seu leito natural, do Córrego das Águas Pretas, confinado no canal de concreto e o rio Anhangabaú aterrado no fundo do vale, reafirmou a importância e a atualidade das obras de Lina a serem completadas e a urgência de pôr ao Vivo, os Rios Vivos de Sampã.

 

Em 2013, Guilherme Wisnik assume a curadoria da X Bienal de Arquitetura de São Paulo e convida o Tea(tr)o Oficina para uma residência, junto com arquitetos de outros países, para elaborar um projeto para o terreno entorno ao teatro e trabalhar o programa do Anhangabaú da Feliz Cidade.

O projeto criado é a incorporação múltipla da proposta rabiscada por Lina Bo Bardi, Edson Elito e Paulo Mendes da Rocha para o Anhangabaú.

Seguindo a direção conquistada durante a Macumba Antropófaga – a descoberta do Vazio – o novo projeto explode os limites físicos do terreno do entorno, dissemina e multiplica a maquete criada no Convênio Exemplar Irresistível, para os outros, muitos, vazios do Bixiga, para libertar estas terras da ideia fixa do adensamento e do loteamento, costurando o vazio do entorno aos terrenos dos baixios do viaduto, reconectando o bairro, através de um Corredor Cultural que liga o Teat(r)o Oficina ao TBC, à Casa da Dona Yayá, desembocando na apoteose da Praça Roosevelt, com o programa do Anhangabaú da Feliz Cidade, seu Teatro de Estádio, sua Universidade Antropófaga e a Oficina de Floresta, espalhando a Selva na cidade de Sampã.

A residência envolveu a criação de um laboratório armado na tenda do restaurante/Foyer Nick Bar, onde uma confluência de arquitetos da Universidade de KULeuven, Bélgica, o coordenador do estúdio mineiro Vazios/SA, Carlos Teixeira, integrantes do coletivo sul americano Supersudacas e o Teat(r)o Oficina, trabalharam para redescobrir diretrizes para o projeto do Anhangabaú a partir das novas experiências.

A explosão do programa do Anhangabaú da Feliz Cidade para outros terrenos, coloca o Oficina de Floresta como primeira camada de projeto, conectando toda a massa verde que reexiste no bairro do Bixiga, em Sampã; radicaliza a  parte mais pública do programa, a Universidade Antropófaga, que transborda para outros terrenos adjacentes ao teatro; transpõe o muro criado pelo viaduto com vias de pedestres e ciclovias, que costuram a via de carros por baixo e por cima do tabuleiro.

Também durante a X Bienal plantamos uma maquete 1:10 do terreno com grama para ser pisada no Delta de Ruas – Jaceguay, Abolição, Santo Amaro e Japurá, trazendo a Praça da Paixão e criando uma maquete Vodu para transmutar todo terreno entorno em Floresta.

2014

Chega o Terreyro Coreográfico – encruzilhada aberta em 2014 para confluir coreografia, arquitetura, urbanismo, dança, músicos, filósofos, poetas em coro na direção de se pensar, em ato, o público em suas várias dimensões – abrir ao público o que é público.

O viaduto construído na ditadura, rasgou, dividiu e criou um deserto no miolo do Bixiga, no coração de Sampã.

Em 2014 o Terreyro Coreográfico trabalhou na transmutação deste terreno, em Terreyro, para que as confluências históricas, míticas, se tornassem manifestas ali. Naquela terra árida e esterilizada pela capa de cimento do viaduto, cultivamos durante um ano celebrações, ágoras, cinemas, o ócio, leituras coletivas abertas ao público popular do Bixiga, um embrião do Anhangabaú, no seu novo tempo, vindo da X Bienal de Arquitetura. Reafirmamos a potência do Rito para cultivar um lugar público e abrir caminho para a mistura. Uma Terra não tem que ser arrastada para a monocultura da maioria dos espaços públicos plantados nas cidades.

RITO CINETEATOGRáFICO DO CENTENáRIO DO ARQUITETO LINA BO BARDI

2015

Forma-se a 2° dentição da Universidade Antropófaga que reuniu, mais uma vez, jovens vindos dos sertões de todo Brasil e teve A Poesia Pau Brasil de Oswald Andrade como matéria para a criação e experimentos do teatro total – atuação, arquitetura cênica e urbanismo, dança, música, cinema, Teato, som, figurino, comunicação. Uma uzynagem quase diária que teve sua apoteose na criação do Teat(r)o Bloco Pau-Brasil, com a encenação em escala urbana, percorrendo o bairro do Bixiga no carnaval de 2016 e em outras datas festivas, descobrindo uma qualidade de atuação que só é possível radicalizando a ligação, a contracenação macrocósmica, a abertura total para o jogo e improviso a que estão sujeitos as atuações na rua.

No começo do ano a Sub Prefeitura da Sé e a Prefeitura de São Paulo lançam um edital de concorrência pública para entregar os baixos do viaduto Júlio de Mesquita Filho, em frente ao Teatro a uma única empresa, para que pelo monopólio pudesse capitalizar esta terra pública de 11mil m² em frente ao teatro, dando margem a um processo de gentrificação arrasador no bairro.

Ao público o que é público 

Carta Público do Terreyro Coreográfico 

Diante da ameaça o Teat(r)o Oficina, o Terreyro Coreográfico, atuadores do bairro Bixiga e moradores dos baixos trabalham para desmontar o edital bandeirante e iniciam uma série de publicações críticas, movimentações públicas e audiências que acabam derrubando a iniciativa de privatização, conquistando mais uma vitória na batalha contra a especulação imobiliária.

Edital para baixos de viaduto no Bixiga não atrai propostas

2016

em  atuadores Uzyna Uzona e Universidade Antropófaga se juntam aos atuadores do bairro, da Escola SP de Teatro, dOs Fofos, dos baixios do viaduto, para um Teato na cidade, inaugurando uma nova categoria política do direito originário à Terra: a Demarcação de Terras Urbanas, na Terra Sagrada – TEKOHA do Bixiga. Criamos em um dia uma cobra grande com nossos corpos unidos por um fio, para ações concretas, ligação de Teato, música, comunicação e troca de presentes entre a praça Pérola Byington e a Praça Roosevelt, seguindo os pontos do Corredor Cultural do Anhangabaú da Feliz Cidade: Praça Pérola Byington – Fofos Encenam – Teat(r)o Oficina – Sacolão – Bar do Bigode – Casa da Dona Yayá – TBC – Terreyro Coreográfico – praça ítalo Bagnoli – Praça Roosevelt
http://www.teatroficina.com.br/posts/972

 

Durante os Seminais da 3° dentição da Universidade Antropófaga, abrimos um buraco com o mesmo gesto mágico dos anteriores que deram abertura concreta poética para fazer transbordar o phoder dos Ritos Teat(r)ais para além do edifício teatral. O buraco recém nascido da fachada leste dá passagem à luz da Sol, aos cantos e coros báquicos  das terras da Ásia para dentro do Terreyro Eletrônico, que agora conquista bocas pro Norte, Sul, para Nascente, pro Poente, pro Céu do teto destampado e para Terra.

O terreno que nos envolve aterra aos poucos, na travessia de quase 60 anos, o Teat(r)o de Estádio, riscado por Lina Bardi. Chão cultivado na Feliz Cidade Guerreira, para ser ponto de encontro do corpo a corpo da humanidade e de todos os viventes.