Gardner Minshew II Jersey Daniel Jones Womens Jersey  Rádio Cultura AM – A Situação Atual do Projeto – Teat(r)o Oficina
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Rádio Cultura AM – A Situação Atual do Proje...

Rádio Cultura AM – A Situação Atual do Projeto

Entrevista de Zé Celso Martinez Correa
Veículo: Rádio Cultura AM
Repórter: Marilú Cabañas
Data: 24/01/2005

A SITUAÇÃO DO PROJETO ATUAL PARA O TEATRO ESTÁDIO

Marilú: Zé Celso, a gente acompanhou parte da trajetória dessa luta que você tem com o grupo Silvio Santos e foi uma luta assim, pelo menos quando eu acompanhei, muito emocionante mostrando que você é uma pessoa de muita perseverança, de muita garra, de muito empenho em defender o Teatro Oficina. E o que aconteceu agora, que a gente leu nos jornais, o que que é na realidade ? Já é um acordo daqueles que você já está satisfeito ou ainda tem mais a caminhar. Como ficou essa questão ?

Zé: É uma luta pelo Oficina e pelo bairro do Bixiga e também uma luta com a sede da especulação imobiliária devastando a cidade, principalmente uma cidade como São Paulo, que talvez no mundo seja a cidade mais devastada pela especulação imobiliária. Então é uma luta que tem um caráter universal, do bairro e do teatro. E nesta luta, com a visita do Silvio Santos, depois de 25 anos teve uma mudança de qualidade muito grande, porque Silvio Santos conseguiu ver o que queríamos, conseguiu perceber coisas que o Grupo Silvio Santos, durante muitos anos, mesmo em audiências na justiça do meio ambiente, não conseguia perceber, não conseguia ver o que era. O Silvio Santos esteve aqui, viu a grandiosidade do teatro. Disse que nunca tinha entrado aqui porque achava que era muito pequeno e ficou surpreso com o tamanho, com o pé direito, com o teto móvel, com a maneira como foi recebido. Teve uma escuta extraordinária. Eu pude expor o projeto com toda a clareza para ele e sinto que ele entendeu a dimensão, não só para o bairro, como a dimensão internacional do projeto. Aí, evidentemente, contrataram estes arquitetos, que são muito bons, trabalharam com a Lina. Aliás foi um deles, o Marcelo Suzuki, que fez o primeiro desenho do teatro de estádio com a Lina, antes mesmo de Silvio Santos querer comprar o Oficina e eles então começaram a fazer o projeto. Agora evidentemente eles trabalharam com grupo Silvio Santos, com a pressão muito grande da especulação, porque cada milímetro e cada centímetro tem que ser discutido em termos de uma rentabilidade, e de uma rentabilidade as vezes imediatista. Acho que este projeto está a ponto de se transformar ou num projeto convencional ou num projeto de uma importância muito grande para o mundo inteiro. Não só um cartão postal da cidade, como num lugar do mundo onde se pode provar que é possível vencer as determinações e fatalidades que a especulação imobiliária impõe às grandes cidade. E pode ser realmente um modelo no mundo de beleza e ponto de atração. Mas também pode ficar numa coisa medíocre, porque eu tive o primeiro encontro na semana passada. Um encontro que foi gravado e vamos botar no nosso site. E queremos abrir nosso site para discussão. E foi um encontro onde houve muita discussão, onde logo de início eu discordei e concordei com várias coisas. E terminou com uma decisão unânime, de uma espécie de conselho que reunimos. Reunimos pessoas como Modesto Carvalhosa, que é nosso advogado, como Contardo Calligaris, como todo o elenco do Oficina, como a Bete Milan. Outro dia foi o Eduardo Suplicy. Enfim, pessoas que vêm acompanhando este projeto e se decidiu no final por unanimidade apresentar o projeto, dia 31 de janeiro, para aprovação na Prefeitura, mas é mais uma aprovação volumétrica, não é definitiva. Resolvi concordar pela confiança?por duas coisas. Primeiro pela relação de confiança que o Silvio Santos me passou, e pela compreensão que eu acho que ele teve do projeto e segundo pelo próprio apoio que o projeto tem, passou a ganhar de uma boa parte da opinião pública.

A LUTA COM A LÓGICA DO CAPITAL
A CRIAÇÃO DE UM NOVO CAPITAL

Nesse momento, há uma discussão na opinião pública. Primeiro saíram umas noticias, no Estado, duas na Folha. Foi capa da Folha, com desenho, por isso surgiu muita polêmica. E num certo sentido eu acho essa polêmica muito interessante. Tem um lado dela ingênuo, de que quem não está dentro do fogo, dentro da luta. É uma luta mais difícil que você estar em Israel ou na Palestina. A luta com o capital é uma luta muito difícil, não digo nem com as pessoas, os capitalistas, mas com a própria lógica do capital. É muito difícil você convencer que o capital não é tão importante do ponto de vista econômico, do capital imediato, mas sim do capital que aquilo vá significar a longo prazo. Eu tenho impressão que se se realizar a coisa como eu pretendo, como o Oficina pretende, como a Lina pretendia, isso vai ter uma importância tão grande quanto tem o museu di Uffizi de Veneza, que quer dizer o museu da oficina que foi uma tataravó, uma ascendente do Silvio Santos, uma Abravanel, que deu para o príncipe de Cosme, e é considerado um dos maiores museus do mundo. Isso é capital, é turismo, é rentabilidade, é conhecimento. É uma forma de capital, menos imediatista, mas que enfim produz um lucro muito maior. Estamos nesse problema. Evidentemente achei extraordinário, depois de 25 anos, ver a mudança absoluta de qualidade, porque durante estes 25 anos o grupo silvio santos apresentou vários projetos, inclusive cedendo áreas para o Oficina. Mas eram projetos que eu não podia ceder. As vezes mesmo os arquitetos diziam: “ceda porque estão te dando o dobro do espaço do teatro”, mas eu não quis porque não corresponderia à idéia do teatro de estádio.

CARACTERÍSTICAS DO PROJETO ATUAL

Este projeto atual tem um dado interessante. Essa pedra que é lançada no meio, em que o teatro deixa de se colocar como um stand no shopping e passa a ser o centro, a praça, a meca, onde se dá o acontecimento arquitetônico. Essa pedra ainda está sendo trabalhada pelo Marcelo Suzuki. E a Lina dizia sempre, chão de terreiro, rua, galeria de teatro de Milano, dando para a catacumba de Silvio Santos. Mesmo na idéia de catacumba de Silvio Santos, ela imaginava um estádio todo furado, como o Coliseu, porque ela gostava muito dos buracos, como os buracos do Sesc, que ela chamava de Beirute ou hoje ela chamaria de buracos de Faluja, de Iraque. Quero que seja aquela pedra toda esburacada. É uma pedra construída com cimento, com barro, terra, mas dá a idéia de uma pedra, que eu gosto muito, porque me remete ao teatro grego, onde nasceram os primeiros estádios de teatro. E onde eram esculpidas as arquibancadas. O teatro era esculpido na pedra. Daí a qualidade do som. E vai acontecer mais ou menos isso. Mas por enquanto não tem os buracos no desenho. Por enquanto, uma coisa que considero muito mais grave, e que a Mariana observa muito bem, um teatro estádio precisa ser aberto para os quatro cantos da cidade, porque ele é uma encruzilhada. Ele tem que ter uma abertura para a rua Santo Amaro, outra para a rua Abolição, uma para a rua Jaceguai e outra para a rua Japurá, porque ele é um monumento público. Esse projeto ainda tem um pouco a cara de um palco italiano, de um santo de igreja que não tem costas. Acho que um monumento como este ele tem que ter bunda, tem que ter o corpo inteiro, tem que ser visto dos quatro cantos, não pode ser uma coisa para um lado só. Então eu luto pra que isso, para que o próprio shopping, se abra para os quatro cantos da cidade. E que haja principalmente para o teatro esse fôlego aberto para os quatro cantos da cidade. Já que a gente não conquistou a rua da Abolição, porque o shopping dá até uma parte. Considero alieas esse teatro estádio o DNA dos teatros estádios que vão se construir. E sempre o DNA do teatro estádio é muito importante, porque tem que conter as qualidades de todos que virão. Na realidade, queria um estádio de 15 mil lugares, mas tem mil lugares. Não me chateio muito com isso, porque sei que é um processo, uma coisa que precisa de um exercício prático, de um aperfeiçoamento para isso ir crescendo. Espero que essa idéia se expanda com a própria expansão do teatro, na medida em que se relaciona com a música, com a dança com a revolução digital, com a ascensão do povo brasileiro, desta cultura, que é uma cultura mundial, a cultura de mestiçagem, esse tipo de teatro vai se expandir não só no Brasil, mas no mundo. Tanto que nós queremos ver neste lugar, um lugar que se realize um festival mundial bienal, pelo menos, mas ainda não está pronto o teatro. Eles tiveram uma luta muito grande para conseguir esse espaço, para que o teatro por exemplo tivesse o próprio céu, que não fosse uma inserção no corpo de um shopping. Os arquitetos vieram assim, esgotados desta luta, e apresentaram aquilo, mas sinto ainda o shopping inteiro dando um abraço apertado demais. Deve ter mais folga. Outra coisa é que eles considerem que nós estamos conversando ainda. Então eu quero fazer com que a parede do lado oeste do teatro, que tem um janelão, se abra toda em portas. Que abra diretamente para o estádio e que o teatro Oficina seja o que os gregos chamavam de “skene”, que é o lugar do palco, no teatro grego, onde aparecem os deuses, os protagonistas e depois tem uma roda que é a orquestra, onde está o coro. Quero este teatro grego com curvas de nível, quero ele balanceando?..um teatro de rebolado, como é o bumbódromo porque nós vamos utilizar tanto a orquestra quanto a cena para encenação. Vai ser um teatro onde se vai atuar nele inteiro. Como se tivessem vários morros, vários gomos. Por isso inicialmente pensei em chamar o Oscar Niemeyer, queria o Niemeyer por causa das curvas, porque queria um teatro grego rebolado. Ainda não se chegou a isso. Tudo isso o Marcelo Suzuki vai detalhar. Outra coisa, na primeira versão eram duas cúpulas, uma que ficava localizada em cima da cena do palco só, e que não dava a idéia de estádio, porque ao andar num estádio, a primeira coisa que vê é a amplidão, se vê o redondo, se vê todo mundo, se vê o céu aberto. Claro que se tiver chovendo fecha. E hoje em dia há uma tecnologia belíssima e avançadíssima, por causa das Olimpíadas e quero o teatro assim. Nesse desenho ainda aparece uma pequena cúpula e uma outra que na realidade é para fazer um teatro pequeno, de 100 lugares, bonito até, com vista para cidade toda. Mas eu acho que isso pode ser feito cobrindo uma parte do estádio, como tem aqueles lugares que são mais caros, que ficam protegidos do sol. Mas o máximo é a visibilidade, é o céu aberto. Com a cúpula que abre e fecha e que seja ao mesmo tempo uma tela de projeção, que possa utilizar com todos os progresso que a revolução digital proporciona. Uma cúpula que mesmo em dias de sol pode ser fechada com facilidade, como aqui no palco do Oficina o teto móvel, para se fazer projeções.

A GESTÃO – A SER EXPLICITADA O QUANTO ANTES

Outro dado, que acho o mais importante, e que é meio não dito, mas que tem que ser explicitada o quanto antes é a gestão. Quero que este teatro seja gerido por nós da Uzyna Uzona com o conselho de todo o teatro brasileiro. Um conselho de grandes nomes do teatro brasileiro e com objetivo de servir todas as companhias brasileiras que quiserem fazer teatro de estádio neste local. Quer dizer: não é um lugar para Moema, não é um lugar para fazer um show como se faz em Moema. É pra teatro, que evoluiu muito nos anos 60, mas sofreu uma repressão muito grande e não prosseguiu no caminho que era natural. Isso já teria existido no Brasil se não tivesse o AI-5. Então é preciso recuperar para o teatro um espaço que seja dele. Não para um teatrão chato, mas aquele que trabalha com a música, com a dança, com a espacialidade toda, com o circo, com bichos, com o trapézio, com o cinema, com o teatro. Acho que é uma tendência do teatro total. Tudo bem, o shopping é gerido pelo grupo Silvio Santos, tem um caráter comercial, mas acho que o teatro de estádio deve ser gerido pelo Uzyna Uzona, com um conselho dos nomes mais expressivos do teatro e da cultura brasileira e deve ser destinado ao uso de todas as companhias brasileiras e internacionais que queiram fazer teatro de estádio. Um lugar que privilegie o teatro. Eventualmente, você pode fazer um show, isso e aquilo. Mas não é lugar por exemplo para fazer um show da SBT. Não é lugar de venda, é lugar de criação, que eu acredito, vá ter um grande valor econômico e financeiro também. Mas não é um lugar que vc passa do business to business. É um lugar no mínimo de show-business. Quer dizer show é mais importante, o teatro, o espetáculo é mais importante que o Negócio. Ele é que vai fazer o Negócio. Acredito que estamos fazendo uma coisa tão preciosa em “Os Sertões”, que acredito numa coisa absolutamente maluca: comecei ver que é possível a gente fazer uma revolução, apresentando um dia – não sei, acho que o governo do Bush tem que cair antes – até na Broadway. Tenho a impressão que estamos criando um musical brasileiro, completamente diferente do americano, mas muito forte, de muito interesse mundial. E este espaço vai colaborar muito para o crescimento desse musical brasileiro. Sabe que um musical quando dea certo nos Estados Unidos é um investimento. São fortunas que investem, tem um valor econômico enorme. E eu acredito que o teatro produza esse valor econômico. É só ter condições. Portanto, esse lugar tem que ser gerido de uma outra maneira. Tem que ter uma gestão onde o cultural esteja acima do lucro imediato. Isso é uma coisa que eu tenho que conversar sério com o Silvio Santos. Porque se não acontecer isso será um terror. Vai ter show o tempo todo. É claro que vamos trabalhar na vedação acústica forte de um com o outro, para ter a possibilidade de as vezes trabalhar nos dois locais simultaneamente. Mas no local entre eles colocaram uma série de árvores no meio. Só depois começa o estádio. Tem uma separação. Eles dizem que ainda estamos em conversação, mas para mim é uma obra que não pode ser feita em cima de conversas, tem que ser feita sobre um desejo comum de fazer alguma coisa forte realmente. Evidentemente desde o nome, teatro de estádio, que é de Oswald de Andrade e foi redescoberto pelo Teatro Oficina, ele sempre foi um prolongamento do Oficina. Tem 25 anos de história provando isso. Não há porque isolar uma coisa da outra. Eu não concordo com isso. Tanto que domingo, meu dia de folga, vou ficar em casa escrevendo um texto sobre os elementos que eu não concordo e sobre os elementos pelos quais tenho que lutar.

A CULTURA ESPECÍFICA DO BIXIGA E DO BRASIL
A IMPORTÂNCIA DELA PARA O MUNDO GLOBALIZADO HOJE

Marilú: Quer dizer, é um processo, ainda continua?
Zé Celso: É um processo, mas que eu acredito que já está conseguido. Acho que ainda não está compreendido pela área do executivo financeiro, que tem dificuldade de compreensão. Mas tenho certeza que está absolutamente compreendido pelo Silvio Santos, por isso eu faço questão de um novo encontro com Silvio Santos para conversarmos sobre a gestão, para ele afirmar junto ao grupo executivo dele: olha a gestão é do Uzyna Uzona. É para o teatro brasileiro, é para o teatro internacional. É só para o teatro. Às vezes vai ter uma utilização que vocês não vão compreender, vocês executivos, do ponto de vista de uma economia, como se fosse aqui uma fábrica. Não é. É uma outra coisa, de criação. É outra cabeça. Senão não tem valor, não quer dizer porra nenhuma. Senão você não tem ali, naquele centro, uma liberdade diferente da que existe no comércio que a envolve. E essa liberdade que tem ali no meio, vai se comunicar através das ruas com as outras liberdades que continuo lutando, que é do pequeno comércio do Bixiga. Tudo bem que haja o grande comércio, mas necessariamente não liquida o pequeno. Estão aí os camelôs para provar e não só eles, mas estas coisas que se vê no mundo inteiro, como nas padarias, nos bistrôs de Paris, no charme específico de cada lugar, como aqui em frente tem uma cantina maravilhosa, da Concheta, que é uma mulher linda, que é filha de um fundador do Bixiga, tem filhas que trabalham em teatro, que tem um restaurante super gostoso. O shopping vai trazer aquelas coisas de franchising, de rede, de tudo, aquilo tem um público que se interessa, mas tem no mundo globalizado hoje um interesse cada vez maior pela coisa específica. De você poder ir naquele lugar que tem aquele cheiro, que tem aquele gosto, comer aquela comida, aquela delícia. Pegar aquela roupa, que aquela costureira sabe fazer. Isso não pode perder. Esse teatro representa isso. Esse teatro é como se fosse uma assembléia. Inclusive, pode ter esse uso. Pode ser usado pelos moradores do Bixiga, que queiram trabalhar pelo bairro, para realizar assembléias, isso é inevitável, é uma ágora. Isso é importantíssimo. E tem que ser compreendido assim: no meio do shopping, uma ilha, que se comunica por várias pontes, com todo esse Bixiga florescente, com todo esse povo maravilhoso, que não pode ser expulso daqui. Evidente que as pessoas que moram na rua têm que ocupar casas que existam aqui, prédios que existam aqui. Têm que ter uma vida decente, não tem sentido essas pessoas continuarem na rua. Não são muitas, é perfeitamente resolúvel esse problema. Um problema que o movimento de ocupação pode resolver, junto com a gestão da prefeitura, ocupar essas pessoas. É absurdo que o Bixiga seja um bairro onde tem pessoas morando nas ruas, sendo que é um bairro histórico, tradicional, cultural, de boêmia, de vida cultural, de vida de artista. Ele não precisa conviver com isso. São pouquíssimas pessoas, dá para abriga-las perfeitamente e dá para fazer estas pessoas estudarem.

A UNIVERSIDADE POPULAR DE CULTURA BRASILEIRA ORGIÁSTICA

Inclusive uma das grandes perdas foi a Sinagoga. Queria muito fazer uma universidade na sinagoga, mas eles trocaram com os judeus o lugar da sinagoga por um outro local e eles vão levar inclusive os vitrais, que para mim são o axé da sinagoga. Claro que continua o axé do lugar, adoraria fazer, mas tem essa determinação da própria comunidade judaica. Então eu quero que o Silvio Santos faça uma ponte com um outro prédio que tem, que ele tem vários prédios, para que se possa instalar a escola. A universidade popular de arte. A universidade de cultura popular brasileira de mestiçagem. Dizem para eu não dizer essa palavra, mas vou dizer: orgiástica. Porque emprego a palavra orgiástica não só no sentido da sexualidade livre, do amor livre, mas também no sentido da mistura da tecnologia virtual com a tecnologia mundial que é o teatro, da mistura de tudo com tudo. É nesse sentido que emprego a orgia. Mas não deixo de empregar no outro sentido, porque o teatro Oficina tem uma importância na luta pela liberdade sexual, que hoje se transformou num fenômeno político no mundo, por causa deste fato que foi configurado, por exemplo, no casamento dos gays. O Bush teve uma vitória e nesse mundo se trava essa luta. No programa Big Brother, no momento em que aquele menino assumiu que é gay, o povo exigiu que ele ficasse. E ele continua no programa. É um assunto político. A liberdade erótica de cada pessoa, não só deve ser respeitada, como deve ser incentiva. Porque você vem de uma sociedade repressiva, então este trabalho da erotização da vida é um trabalho político, de importância, porque ele consta nessa cultura de mestiçagem que pode trazer uma revolução mundial. Ele não consta na cultura capitalista, que como cultura é muito frágil, é moralista, é puritana, é excludente. Digo a cultura, o cinema do capitalismo, a literatura do capitalismo, principalmente do capitalismo americano é toda de ?..mocinhos, de personagens maus, de ter os escolhidos. É uma cultura tosca, diante da sofisticação desta cultura de mestiçagem, que no mundo inteiro inclusive ganhou o nome de world music, mas que no fundo é a cultura antropofágica, é a cultura da mistura, da liberdade. Enfim, da liberdade total dos povos. Da liberdade que começa com o indivíduo. Então nessa universidade, evidentemente, o que a gente quer ensinar é a partir do amor. A partir da libido, a partir das vogais, que devem ser a partir do a, é, i, u, óoooo. Porque o ó é mais aberto, a finalidade da vida é o prazer. Então uma universidade que vai ensinar todas as técnicas todas necessárias na arte do teatro. É uma universidade de criação de uma civilização, de contribuição para criar uma civilização. Porque o estádio também não pode ser compreendido sem uma escola que prepare as pessoas para o exercício dele, principalmente as pessoas do povo, que estão mais próximas da linguagem que é essa do teatro de estádio. As pessoas que estão mais próximas de desenvolverem no circo, na dança, nos rituais das religiões populares, como a umbanda e o candomblé, como o carnaval. Quer dizer, como a música, como tudo. Então quero uma universidade popular, porque acho que a força tanto do teatro Oficina, como a projeção dele no teatro de estádio, é um momento muito importante .

A IMPORTÂNCIA DA OPINIÃO PÚBLICA PARA A CONCRETIZAÇÃO DA OBRA

Por isso, assumo o projeto, porque é um momento de virada, de sair da rua e chegar na apoteose, de chegar no círculo, num lugar onde você possa realmente refundar um teatro popular brasileiro, musical, dançante, erótico, visual, plástico, divertido, circense e que vai ter grandes multidões. Então são coisas que tenho com muita clareza na minha cabeça nestes 25 anos e que eu vejo que os arquitetos, premidos pela especulação financeira, ainda não puderam resolver. Vejo que é necessária uma pressão da opinião pública. Por isso nosso site vai se abrir para debates. Não é nem pressão, é uma contribuição ideológica, inclusive, de criatividade, de invenção. É uma coisa que nunca houve. É legal, o povo tem idéias, o povo sabe, o povo quer coisas. Como essa menina, ela se expressou. Tenho recebido notícias, do Orkut, que está a maior fofoca, dizendo que sou um entreguista, que eu desisti de tudo, tal. E não é nada disso, é um processo, que teve uma grande vitória, com a visita do Silvio Santos. Jamais eu conseguiria só com os homens do capital, porque acho que o que intervém nas coisas são as pessoas. As estruturas estão aí para serem mudadas pelas pessoas. As estruturas não estão aí para escravizarem as pessoas. Então o homem que já está, que tem o pescoço fora da estrutura, como o Silvio Santos, mandou demolir um prédio porque ficava melhor. Eu achei maravilhoso. O grupo ficou escandalizado. E eu acredito nele, que ele vai entender todo esse significado, da grandeza internacional e para eternidade, que a gente pode dar.

O POVO DO BIXIGA

Este local não pode ficar medíocre. Ele tem que ter um cálculo de alguns reais, alguns dólares a mais. Depois virá a recompensa, em muitos mais dólares, muito mais euros. Pode ser um shopping internacional. De interesse internacional, porque um bairro popular assim, passa a ter interesse inclusive internacional, na medida em que ele seja, por exemplo, uma ilha para as pessoas do mundo inteiro se localizarem, para que possam se expandir neste mar, que é o povo. E esse povo do Bixiga é ótimo, é um povo que é misturado. Ter a Vai-Vai é um luxo, aquela África mistura, aquelas pessoas bebendo, cheirando, fumando, conversando, cantando, dançando. Quer dizer, é uma coisa que é ecológica, que a humanidade precisa desse tipo de espaço. Milenarmente a humanidade se festeja em liberdade. Então essa coisa que tem na Vai-Vai e neste bairro, que é uma mistura de italiano com preto, com tudo, com nordestino, dá num povo que você conversa, que frenquenta este teatro. O projeto do Bixigão foi uma revolução no bairro, nos pôs em contato direto. São pessoas maravilhosas. Quer dizer, não é aquele paulista da classe média para cima, enquadrado dentro da máquina, que fecha o vidro, que não quer papo com ninguém, que acha que pobre tem que ser massacrado, que acha que pobre não é assunto. Não é aquele paulista imbecil, cara de pau. É um povo, é um patrimônio da humanidade. Então é uma coisa que tem de ser compreendida, que está ligado com o todo.

RE-SIGNAÇÃO DO MINHOCÃO

Há uma coisa ainda, que é preciso complementar: o Minhocão. Tem a possibilidade de a gente – está no projeto do Paulo Mendes da Rocha, que depois o próprio Marcelo Ferraz pode transmutar, mas que é muito bom -, aterrar o Minhocão, de fazer um pequeno anfiteatro no Minhocao, que seja ao mesmo tempo camarim dos bichos, de cavalo, de elefante. Eu vi uma fotografia da Elvira Pagã em cima de um elefante. E é possível um elefante atravessar aqui e estar num teatro de estádio. Então tem que ter um camarim deles.

TORRE DE INFORMAÇÃO E TORRE DE PRODUÇÃO

E tem que ter, em dois terrenos remanescentes da prefeitura, uma casa de produção e um bar com pingas do mundo inteiro, e também do lado, em outro terreno, um arquivo. Estou lutando muito para criar um arquivo, estou buscando subsídios para imediatamente fazer um banco de dados, para disponibilizar o que o Oficina tem, que é de interesse universal também. É um crime ficar tudo fechado sem nem a gente ter um acesso rápido, porque não está organizado. Estou batalhando dinheiro para isso, mas vai precisar de local e quero que seja em uma das torres que o Paulo Mendes da Rocha visualizou e que o Marcelo Ferraz pode transmutar e que o Silvio Santos pode também patrocinar, como um todo, para ser realmente uma coisa forte.

REVOLUÇÃO NO PRÓPRIO CAPITALISMO
GILBERTO GIL MINISTRO MAIS IMPORTANTE DO BRASIL

Porque se for para fazer uma coisa medíocre eu não quero. Aprovei essa coisa burocrática, porque acredito que exista uma relação humana muito boa com Silvio Santos. Existe uma relação muito boa com os arquitetos, está começando, sempre existiu aliás, uma relação boa com o pessoal do grupo financeiro, mas eles ainda acham que têm de pensar muito de acordo com a máquina do lucro imediato. É como se eles tivessem uma capacete na cabeça, uma Matrix na cabeça. Mas mesmo estas pessoas podem dispensar esta Matrix e pensar um pouco mais longe, porque o Brasil está crescendo e vai ser uma nação rica. E não vai crescer com uma mentalidade de exploração excessiva e mesquinha. É preciso ter um outro tipo de capitalismo no Brasil. Uma revolução no próprio capitalismo. Um outro dia, uma amiga minha, Monique, disse que devia todo mundo ficar rico para acabar com o capitalismo. É porque todo mundo quer ficar rico, mas a lógica do capitalismo só permite isso a alguns. E aqueles que ficam ricos ficam prisioneiros. Soube que os grandes banqueiros da Suissa, que tem grandes fortunas, não sabem o que fazer com o dinheiro, vivem de blue jeans, sem fazer nada, olhando um para outro, porque não têm o que fazer com o dinheiro. Então eles aplicam na estrutura, enquanto acho que estamos vivendo um período em que a humanidade podia ser muito mais feliz. E não é uma utopia, a humanidade não precisa de guerra, não precisa passar fome. Mas é uma questão de mudança de mentalidade. Por isso acho que pela cultura, por este teatro de estádio, pela pessoa do Silvio Santos, pelo que é o Oficina, pelo que é o público do Oficina, que está debatendo o assunto e pelo momento que vivemos, como ter o Gilberto Gil no Ministério da Cultura, que acho que é o melhor ministro da cultura do mundo. – Duvido que tenha um ministro da cultura que tenha o nível cultural de Gilberto Gil, seja nos Estaods Unidos, na França, Israel, Japão. Não tem – . Está sendo maravilhoso para o Brasil. Ontem mesmo ele dizia numa matéria que na composição do PIB nacional, 10% vem da cultura. Que a cultura já é um fator de riqueza e é uma “indústria criativa”. Acho isso muito bom. Tem que haver um grande investimento na indústria criativa. Você tem neste momento, um oswaldiano, um tropicalista no Ministério da Cultura, como o ministro mais importante do governo Lula, depois vem o Celso Amorim, mas o ministro mais importante é Gilberto Gil. O brasil vive um momento de um despertar cultural muito grande. E esse despertar cultural econômico da cultura brasileira vai permitir transformar a visão condicionada da cabeça capitalista de pagar divida, de lucro, de escravidão. Eu acho que a maior forma de escravidão é essa de você viver para pagar dívidas e pagar juros. Acho uma vergonha para a humanidade. É tão vergonhoso quanto o impedimento à liberação das drogas, e quanto o tráfico de escravos. E a cultura surge com um poder enorme de fazer uma revolução na sociedade. Eu só acredito nisso para acabar com a guerra do Iraque, do Afeganistão e agora do Irã. O outro quer invadir o Irã. É uma loucura. E só através de uma experiência cultural total, não só cerebral, mas experiência de corpo, de vivência, de vivência de uma outra dimensão do corpo humano individual e do corpo humano coletivo, que o estádio pode propiciar é que vai conseguir esta revolução.

O SITE DO OFICINA

Marilú: O site.
Zé: Estamos com um site que não é espetacularmente bonito, porque estamos aprendendo a fazer um site. Aliás o cara que melhor faz site nos Estados Unidos, que faz um site de cinema, diz que seu site não tem nenhum mirabolismo, porque é um site de conteúdo. Então trabalhamos para isso. Nosso site que está super atualizado, traz todas as notícias do dia, reportagens dos ensaios, cenas de música, tem uma espécie de TV e rádio, a Uzyna Uzona, onde em breve vai sair uma reportagem do dia em que a maquete foi apresentada, que está sendo editada. O site está aberto para todas as pessoas que queiram discutir. Vamos abrir logo, não entendo de site, vou pedir para abrir hoje, para a discussão que está sendo feita no Orkut. Interessa muito a nós, ao grupo Silvio Santos, ao próprio Silvio Santos. Porque é pesquisa de opinião, interessa muito a discussão sobre o teatro de estádio. E como é uma coisa nova, uma primeira viagem, nunca teve isso no mundo contemporâneo. Teve na antiguidade, então é uma coisa que precisa ser pensada coletivamente. Olha é teatroficina, com um ó só. Ponto com. ponto br. Um beijo pra todo mundo.


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