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Sinopse da Estrela Brazyleira a Vagar – Caci...

Sinopse da Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!!

 

O público entra pelas clássicas cortinas vermelhas de um Teatro, como saindo dos bastidores desta Arte. Nós e público brincamos então com o bebezinho ainda, teatro moderno brasileiro. Mais especificamente com o de Cacilda:

Todos os Teatros são meus Teatros

O público topa de cara com os Atores nos Camarins, a Banda afinando-se, os operadores de Luz e Som iluminados, Imagens projetadas nas telas, na pista de rua com as curvas da Praia de Cocapabana, o Pão de Açúcar, sons, trazendo a ambiência Sonora, Visual dos anos 40.

A peça inicia-se com a projeção do final do 1º ato no DVD de Cacilda! estrelado por Bete Coelho na cena em que Cacilda despede-se de sua família e seus amigos da juventude para partir para o Rio com uma carta de Miroel da Silveira indicando-a para atuar no TEB, Teatro de Estudantes do Brasil, dirigido por Maria Jacinta. Levada por Brígida Vaz, protagonizada por Lígia Cortez, personagem da prostituta do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente que a conduz à Barca do Inferno: os subterrâneos do Oficina. Bete Cacilda entra no Inferno, as portas da Terra se fecham e quando reabrem, ao vivo, Cacilda Ana Guilhermina sai do mesmo subterrâneo, agora a Central do Brasil do Rio de Janeiro, para começar sua carreira de atriz na Capital da República do Brasil, no máximo de seu esplendor, uma Ilha de Paz como Havana, Casablanca, no Mundo em Guerra, mas ainda fora dela. Assiste à chegada, vinda do Aeroporto Santos Dumont, da Banda Americana de Eddie Dunchin.

Recém chegada ao Rio, Cacilda escrevia mais de três cartas por dia à família contando tudo, desde a marcação de seu primeiro ensaio, dos seus inúmeros namorados. Estas cartas do acervo de Dona Alzira, mãe de Cacilda, foram-nos passadas por Maria Thereza Vargas, a grande memorialista do Teatro Brasileiro e especialista em Cacilda de quem foi a melhor amiga. Estão com Cleyde Iáconis, que através de Maria Thereza fez chegar a nossas mãos. São escritos de  uma pensadora da vida na Arte. Mereciam publicação em facsímile, como as cartas de Artaud. Elas inspiraram a escrita fazendo com que Cacilda seja co-autora também. Além de suas reflexões, conta de seus vestidos, sapatos, penteados, crises, seu salto brusco do Teatro sério de Dulcina de Moraes para a Cia. de Raul Rouliencantor, diretor, ator de teatro, criador da “Cidade-Cinema”, por quem Cacilda se apaixonou quando o viu aclamado pela multidão como um Papa regressando de Holywood.

A partir da teatralização desta correspondência, vemos passar a vida de Cacilda Becker nos Anos 40 em meio a todas as personagens que movimentavam o Brasil e o mundo nessa época, como as Cantoras do Rádio, Emilinha Borba e Marlene, que se reencontram com suas macacas em Cacilda!!, interpretadas respectivamente pelas cantoras Cellia Nascimento e Adriana Capparelli; Jean Sablon, cantor da 2º Guerra, recém chegado ao Brasil no Porto de Santos, escapado da captura da França pelos nazistas; o jovem repórter Tito Fleury, que na peça namora, noiva e se casa quando Cacilda faz O Vestido de Noiva; o próprio Nelson Rodrigues; Grande Othelo; Ziembinski; Bibi Ferreira; Dona Alzira e a atriz Cleyde Yaconis, mãe e irmã de Cacilda. E muito mais: Abdias Nascimento; Dulcina de Moraes; Maria Jacinta; e o cinema da Atlântida.

Cacilda além de abrir uma agência de propaganda no Rio, escrever programas de Rádio, era free-lancer na Imprensa Carioca. Deixou uma reportagem maniacamente minuciosa sobre o set de filmagem de Luz dos Meus Olhos que nos permitiu realizar uma cena de cinema no Teatro, das mais aplaudidas no Rio de Janeiro. Nela está Celso Guimarães, o maior galã do cinema, e o diretor e grande compositor José Carlos Burle, o produtor Fenelon, o magnífico Edgard Brasil, fotógrafo de Limite e Grande Othelo, magistralmente interpretado por Adão Filho.

As Cartas de Cacilda constituem o roteiro dessa escritura, inspirando o ardor, o fogo de nossa fantasia. Agora que ela está sendo posta em cena, continuamos sua escritura cada vez mais ritmada e criadora, nos bits já eletrônicos da respiração musical da beleza desta Atriz Matriz. Dançarina desde 2 anos de idade, trouxe a velocidade de dançarinos como Nureiev para a cena, um passo para cada nota musical, assim trazendo o corpo musicalizado em cada ato, palavra, sílaba.

A peça tem como um dos pontos mais marcantes a intimidade dos bastidores, ensaios na vida e nos palcos, telas, rádios, dos mortais, que construíram antes de nós, essa delícia que vivemos hoje, a da vida de artista.

É o teatro sendo teatro do teatro, teatro do Rádio, do Cinema, da Revista, enfim, fazendo teatro de todos os teatros com todos os presentes entrando no gozo e na miséria da vida de artista, na música, dança, fantasias das personas e dos coros em chanchadas, dramas sentimentais, dramalhões, tragédias pulsionadoras dos corpos de carne-e-alma em contracenação com a memória rediviva elétrica, digitalizada nos sons, imagens, luzes, massageando este despertar pra vida aqui agora.

A peça traz ainda o encontro da geração dos grandes diretores como Ziembinski, Turkov, Wylli Keller, refugiados do Nazismo, com a talentosíssima geração de Cacilda e o Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias do Nascimento, interpretado por Marcio Telles. Esse grupo de atores afro-brasileiros, que tinha talentos como Ruth de Souza e Léa Garcia, trouxe para o Teatro o que a música brasileira já  trazia: a contribuição milionária do Ditirambo Afro Brasileiro: o Samba, o Suíngue, o Soul, a Macumba. Cacilda faz com Abdias a cena de Othelo em que este mata Desdêmona, cena interpretada como um ritual, não um assassinato mas uma Morte Iniciática. Depois em Terras do Sem Fim de Jorge Amado, com música de Dorival Caymmi, sua maior produção em tempo record de composições, há a entrada definitiva da Macumba no Teatro Brasileiro, antecedendo todo nosso atual trabalho da Ópera de Carnaval ElektroCandomblaica. Foi o maior escândalo no Teatro Copacabana do Rio, ver pela primeira vez nascer um teat(r)o mítico devorando o teatro branco ocidental.

 


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