Treze meses de paixão

treze meses de paixão,

por Camila Mota

uma compania é um cordão

dourado

de amores…

um tocando o outro

pétalas

perfumando ardores…

tem ímas

nossos ciúmes ficam ridículos

viram veículos

pra renamoros durados

em fogo brando

dourados

 

essa musica, cantada em muitos estádios de teatro em 2010

é o superobjetivo dos 13 meses de profissionalização da paixão

que desejamos em parceria com o ministério da cultura em 2011

 

nossa contrapartida

sermos os cavalos de aberturas de abcessos fechados,

nessa era cyber, utilizando (?) o virtual pra criar encontros reais de multidão,

com corpo, musica, pulso, riscos, muitos riscos!

e curvas, gargalhadas, viradas de circo,

pra descoberta incessante de novas interpretações pra vida vivida,

massacrada pela era do marketing, das classificações, da prestação de serviço

dos cadernos de cultura, que nos condena aos dramas dos maridos católicos

suspeitosos.

 

transmissão de tecnologia, prática do science, cultura e educação nas artes,

antropofagiando, alem dos três maiores troncos culturais de nossa formação,

todo a matéria que se tornou acessível na era digital.

 

canudos nascemos

começamos o ano de 2010 inventando um acordo de 10 meses de trabalho

inspirados nas viagens de mário de andrade,

nas direções de aziz ab saber,

nas nossas viagens com os sertões.

nos propusemos, com o primeiro patrocínio direto do ministério da cultura do

brasil, viajar por 7 cidades construindo estádios de teatro com

capacidades para 1500 até 2000 pessoas, apresentando 4 espetáculos de nosso

repertório e realizando oficinas de todas as áreas fundamentais para essa

empreitada: atuação, direção, musica, direção de cena, direção de arte, figurino,

luz, vídeo, som, produção, comunicação e transmissão direta via web.

um ano de investimento na criação, nos artistas da cia, na liberdade,

possibilitados pela estabilidade econômica.

 

teatro é uma arte que exige presença dos seus artistas

em algum momento nas últimas décadas o teatro foi colocado em posição de

diletantismo, com uma concepção abstrata do amor à arte, dissociada do

dinheiro, o instrumento transformado em totem por exu.

 

mesmo com um forte movimento teatral em são paulo, onde os artistas

conseguiram que um fomento municipal se tornasse lei, são raros os atores que

podem se dedicar exclusivamente ao trabalho no teatro que, aliás, é enorme e

exige uma formação permanente em ensaios, estudos, experiências, contato com

o público. o fato consumado de que o ator é um free–lancer atrapalha demais os

trabalhos de uma cia, principalmente os de criação e de invenção.

em 2010 tivemos o luxo de trabalhar por 10 meses, e é visível o salto que a cia

teatro oficina uzyna uzona deu, coroado pela vitória de pela primeira vez depois

de 30 anos de guerra com o grupo Silvio santos, construir um estádio de teatro

no terreno de SS, dando oportunidade para a cidade de são paulo, especialmente

o bixiga, de experimentar uma nova possibilidade de revitalização do bairro, que

não seja a via única e dominante da especulação financeira e imobiliária, suas

construções de shoppings ou  torres de apartamento cercadas com grades e com

todos os serviços que permitam ao cidadão ficar preso em um Carandiru de luxo,

em bairros que recebem uma faxina social que implica na expulsão de população

de baixa renda, esterilizando centros de convivência, acabando com mistura de

culturas, perpetuando papéis de senhores e serviçais.

 

oficinas uzynas uzonas

com a continuidade de trabalho conseguimos vitória estética, com a recriação

permanente dos 4 espetáculos escolhidos para a turnê, a partir da troca com as

culturas de cada lugar por onde passamos.

fazendo parte do projeto como contrapartida, as oficinas em cada cidade se

revelaram fundamentais no percurso.

– nos proporcionaram contato direto com a cultura local, com elementos

incorporados nos espetáculos.

– nos obrigaram a uma revolução no processo de ensaios da cia, pois passamos a

trabalhar publicamente, exigindo contracenação direta com público em todas as etapas do trabalho.

– devolveu ao público, o papel de protagonista de teatro de estádio, com

importância das torcidas para os times de futebol.

os sertões – trabalho matriz desse cordão dourado uzyna uzona

canudos teve o privilégio de ser terra cultivada por gentes diferentes,

lugar com a generosidade de contracenar antagonistas em objetivo comum:

vaqueiros bandidos putas beatas

em 2000, a cia  renasceu pra trabalhar a terra da rua jaceguay

e seu exuberante entorno.

o início do trabalho foi a leitura da terra no dia 16 de agosto

aniversário do teatro oficina

obra tombada em 2010 como patrimônio artístico e de belas artes

cultuamos datas que ethernamente retornam,

e se transtornam a cada ano…

são dias dedicado à ritos.

em agosto de 2000 a cia era praticamente o núcleo do boca de ouro

estávamos um pouco à deriva,

nos amávamos 

nos odiávamos

mas não desgrudávamos

o grupo que tomava decisões era formado por três casais

tommy sylvia

zé marcelo

camila fernando

fotografo guigui dentista boca celeste leleco

alem de nós, tínhamos as granfas apaixonadas pela peça,

geladeira,

as filhas de santo

figurinista,

iluminador

arquiteta

todos prestes pra serem chamados

 

os três casais (existe uma ata assinada só por nós 6, deve ser 2000)

batiam cabeça pra descobrir qual era o trabalho

q nos daria subtexto pra nossa re–invenção

lemos gracias señor,

fizemos xixi juntos numa bacia,

alguns improvisos no camarim de cima,

enquanto chovia e marcelo repetia pra nos fazer ver q o teto estava furado,

a água estava entrando no teatro,

precisávamos de novo teto.

chegou um sertanejo, aury do ceará, com a intenção de montar o sertão

o trabalho começou abrindo para multidão

em parceria com as oficinas oswald de andrade

abrimos inscrições pra oficinas gratuitas em todos os núcleos de criação,

que imaginamos essenciais pra transformação do livro de euclides da cunha,

em obra fundamental contemporânea.

e foi inevitável que esse processo se transformasse em um movimento cultural

fortíssimo, que impulsionou a recriação da cia uzyna uzona; a criação do

movimento bixigão; a criação de 5 espetáculos épicos com público

dançante, que vinha pra atuar; embriões de teatro de estádio em sampã, e em

salvador, recife, rio de janeiro, quixeramobim, canudos; invenção de sistemas

econômicos para um time de 88 pessoas; criação do mais longo longa metragem

da história com 27 horas em 5 filmes.

foram mais de 7 anos de trabalho,

recebendo toda sorte de gente da mangalaça sertaneja,

muita contradição colocada em cena, mas com evolução regressiva do trabalho

de ator.

 

era tanta gente com papéis sociais antagônicos

que o principal trabalho era o próprio trabalho

uma terra pra procriar, fazer virar campo de cultura, uzyna de criação,

tendo como pedra fundamental as milhares de palavras do livro de euclides

pro desmassacre do massacre

e essa ação pressupunha a dissolução dos papéis sociais,

aqueles que nos condenam a uma mesma interpretação do mundo,

reproduzindo comportamentos à serviço de alguma coisa, uma idéia, uma ordem

 

hoje começa  a idade

em busca da nova cidade

estou em búzios, cidade tabu para mim, como era belo horizonte

saí com astrud no fim da tarde, pra pegar vento, encontrar as pedras, rezar

estamos em alto verão e a cidade está na sua diástole

milhares de turistas que multiplicam em mais de 10 vezes a população da cidade

 

é uma esgotamento da terra q não suporta tantos turistas,

a cidade sofre um pouco como salvador, que é dá e recebe tudo no verão,

e no resto do ano um marasmo…

a população pobre, a juventude não tem nenhuma relação com cultura dissociada

de marketing;

a cidade fervilha em eventos patrocinados por ambevs, red Bull, sem conteúdo,

imitando a vida de balneário de novela onde todo mundo quer se dar bem.

da mesma forma que são paulo precisa de uma nova perspectiva de cidade, com

menos carros, menos shoppings, mais áreas públicas comuns pra contracenar

com o planeta se ultrapassar 2012, se reinventando com morte iniciática, búzios

também precisa dessa nova perspectiva.

precisa de ações que transformem o ciclo político, infra estrutura

aqui é uma península com 23 praias, um paraíso geológico, ponto de encontro

dos continentes americano e africano, antes da divisão pelo oceano atlântico.

e não existe mistura de classe e nem entre classe…

hoje os caseiros me contaram o litígio de um hotel na beira da praia da ferradura,

com um condomínio de casas/meio hotel na quadra de dentro

o hotel deixava o som alto

o condomínio reclamava

nada acontecia

o condomínio começou a soltar rojão

nada acontecia

mais rojão na direção do hotel com ameaça de bomba!

 

assim, num paraíso, entre vizinhos separados por uma rua, classe alta, com seus

soldados serviçais que no verão trabalham sem nenhuma folga, sem hora pra

acabar e sem grandes prazeres…

 

as dionisíacas atuaram diretamente nesse ponto.

pra montar um teatro de extádio, divulgar, encher, limpar, transmitir, é preciso

muito trabalho com mesmo superobjetivo, como canudos, que distituía as

pessoas do papel social e jogava na ágora.

 

as meninas da faxina em Brasília ficaram muito comovidas com taniko, que a

protagonista shité mora sozinha com o filho, sem o pai.

como elas que criam os  filhos sem os pais

 

da mesma forma q os caseiros de búzios, elas tem o papel de prestar serviço, mas

isso não é motivo pra que elas não possam ter novas interpretações da sua

própria vida, contracenando de outras formas com o sistema econômico

 

e isso ainda pode ser chamado de demagogia, que é também um termo tão

abstrato quanto virou amor à arte.

 

foi porque nunca tivemos

gramáticas

nem coleções de velhos vegetais…

e nunca soubemos o que era

fronteiriço

urbano suburbano

continental…

 

 

Ceará, Fortaleza, dia 15 de janeiro de 2001

Studio abolição

A leitura de Iracema e a exumação da antiga geografia do lugar q estamos,

a visão de Orson Welles da década de 40 dos jangadeiros

das penelopes tecendo teias,

são realizações do pensamento ecológico, q é como a atuação no teatro de extádio, necessita dos sentidos ligados ao tempo de agora, com antenas em outras situações prontas pra retornar.

Fortaleza, como búzios e são paulo são cidades que precisam de uma nova interpretação. a mídia, a especulação financeira, a relação predatória do turismo são de uma estupidez pasmante!

cultura e educação deveriam ser ministérios sem cortes de verbas, pois darão à cada um, capacidade de interpretação, espírito inventivo pra criação de novas situações econômicas, mais ligadas ao tempo.

só a antropofagia nos une.

muito reveladora a viagem e agora com mais um capítulo emocionante: fortaleza

as férias enfim começaram com o delicioso trabalho de viver.

 

nunca tivemos gramáticas

 rio de janeiro. 31 de outubro das bruxas de 2010

segundo turno

a burguesia carioca não se encanta com dilma, poucos assumem serra

nenhum dos dois alcança seu coração um tanto entediado

 

essa experiência revelou um quadro muito teat(r)al das eleições

 

o pouco carisma dos dois exige que a gente projete neles os desejos,

como cada um de nós nas dionisíacas tem q projetar no outro as personagens

cada cavalo sagrado por cada cavalo

por todos os cavalos

pra que baixem as  entidades

 

e tudo isso é trabalho de macumba,

com cada um dando energia pro rito acontecer

agindo em cada todo momento

jogando em cada posição

e também a posição do público

– a critica do estado de minas é maravilhosa

coroa a participação essencial do público

e o sagrado

 

esse texto é já trabalho concreto no projeto de 2011

e por isso tem que estar completamente ligado ao trabalho de agora

e à nossa articulação da máquina de desejos

pra produzir.

 

a situação do rio de janeiro é muito clara

pouco tempo

a descoberta da necessidade de filmar as dionisíacas

e de inventar a produção desse filme

completamente acords com a produção dionisíaca;

criando levezas

 

cada cidade tem seu jogo

é clara nossa posição contra a guerra do narcotráfico mundial

e da carioca cidade do mundo

lingüiça comprida

 

em minas apaixonamos muitas pessoas

eros é revolução

 

o rio é cidade com guerra

vamos empestiar a cidade com o desejo da libertação dessa guerra

desejo de sair da paranóia

 

essa talvez seja a diferença fundamental na escolha de serra ou dilma

a diferença q existe entre programas de governo

q a burguesia é incapaz de perceber

 

um programa cultiva a paranóia ao invés da vida

a propriedade privada exige uma série de medidas contra a vida.

nesse ano todo de viagens não conheci nenhum lugar tão inóspito à vida

quanto a marginal pinheiros no sombrio trecho de luxo,

cercado por torres,

world trade centers,

a cidade do futuro do século passado,

e sem pontes e passarelas pra pedestres…

a propriedade privada dirige suas milícias com paranóia

a violência que acontece antes de acontecer

tecnologia virtual analógica

q é transe também!

imagina viver 24 horas com paranóia de violência física,

de clonagem de cartão,

de processos…

o corpo fica tomado de tensão.

 

nós também estamos cultivando tecnologia virtual analógica de encantamento

Eros misturador de multidão

 

tecnologia e transe

 

quando zé fala q ainda não entramos na era digital concordo,

e chamo a evolução regressiva:

temos que dominar ainda a era analógica,

o circuito onde estão os objetos de cena

a relação táctil analógica em cada atuação,

fundamentos sempre trans–formantes de terreiro.

elisete está abrindo o abcesso fechado de crise na direção de cena

temos q trabalhar as duas palavras de nosso espaço:

terreiro eletrônico

e estamos trabalhando

muito

mas os encontros de todos os santos e mortos

são pra inventar a continuidade da aventura dionisíaca

 

esse ano de 2010 é ainda muito fértil,

amanhã entramos em seus últimos dois meses

com muito a fazer

– as dionisíacas cariocas com filme

– dionisíacas sampã

 

e escrevendo esse email e revendo o que fizemos está dando a vontade gigante de fazer macumba antropófaga dia 23 no terreno vizinho…

venham delírios…

na conversa que tive em junho com alfredo manevi, 

senti no início q ele queria me dizer q o q estava acontecendo era muito bom já

7.000.000,00 é muito dinheiro

e eu concordei, claro,

mas disse q 7 milhões eram 10 meses de trabalho com boas condições de criação

e nosso grande desafia agora era não ter mais as quebras de produção de criação

criar dia a dia o processo contínuo

 

e pra isso nos pergunto, o q vamos continuar?

 

estamos atingindo os objetivos e metas do primeiro convênio?

 

caminhamos pra universidade antropófaga?

 

 

sei q sim

estamos correndo riscos fundamentadores d universidade

 

experiência com as crianças em taniko

 

peixinhos

 

macumba milagre em inhotim

 

cacilda renascendo em belo horizonte

 

a superação da falta de público em manaus com a revelação do terreiro de leds,

e a descoberta da acústica generosamente propiciada pelo canto das cigarras

 

 

mas sinto que contracenamos pouco com o terreiro eletrônico de sampã

e com o bixigão.

ainda bem q algumas pessoas participaram da experiência nº 6

 

vamos chegar em tebasp no fim d ano,

chamar muito público pras dionisíacas

 

fazer exposição no nosso site das fotos de todas as cidades

 

talvez fazer outro blog, ligado diretamente à viagem e postar lá os relatórios dos atuadores e de produção que já entregamos pro minc e outros q possam existir.

 

não deixar esse material q já é virtual fora do ar, mesmo q depois com um arquivo eletrônico forte, ele ganhe espaço lá também.

 

 

lançar a caixa dos sertões e fazer um dia de festa pra verder

e deixar a petrobrás e o sergio frança contentes, porque não?

 

 

fui num trabalho muito inspirador ontem, de dois mineiros,

cao guimarães e josé bento,

numa galeria ao lado do centro de artes helio oiticica,

q é perto do terreirão do samba

 

tem uma sala com sensores q nossos movimentos despertam

e fazem tocar musica de determinados instrumentos,

e cada instrumento tem uma cor luminosa,

q acende

 

na outra tem um filme com cada musico tocando o instrumento

e dizendo q cor tem o som

 

foi maravilhoso ver esse filme e cada instrumento e seu tocador

 

piano

clarinete

tuba

trombone

violão

cavaquinho

sax baixo

cello

viola

pandeiro

tímpano

baixo

harpa

flauta

violino

oboé

 

são tantos sons, tantos timbres,

cada instrumento é uma entidade que não submete e nem é subjugada por nenhum outro

 

e nessa exposição de mineiros,

estava cheio de mineiros ainda afetados pelas dionisíacas, apaixonados por nós

 

a mulher q no filme e na instalação toca um sax bem baixo,

estava lá e tinha visto bacantes e banquete.

disse que é só chamar q ela fica tocando pelada com a gente

 

a paixão é uma grande medida de produção,

se nossos músicos não estão apaixonados,

existem outros q estão ou estarão

e virão outros instrumentos q nunca contracenamos antes.

 

vamos dar passagem pra eles irem se quiserem,

pra todos,

sem reféns

 

viajamos muito,

mas existem por vir muitos acontecimentos pra virar conhecimento.

 

vou votar agora

 

amor

humor