Um Corpo para o Bixiga

*Por Marilia Gallmeister e Carila Matzenbacher – arquitetas cênicas*

O Bixiga, que vem das Terras da ex escrava Libertas e que foi cantado em sambas por Adoniram Barbosa, não tem qualquer formalidade. O Bixiga é reconhecido como um “Estado de Espírito”, que apesar de ter latitude e longitude definidas, é desterritorializado. Seus séculos de história de ocupação e permanente transformação provocada por pessoas de todas as etnias – em especial os Negros de Libertas, os italianos das cantinas, os Nordestinos de todas partes – ainda não foram suficientes para oficialmente transformar-se num bairro.

É hora do Bixiga ganhar um Corpo para abrigar seu Espírito. Já está na hora de olharmos para o Bixiga e assumirmos que ele realmente existe enquanto ele ainda existe. Devemos admitir que o bairro (oficialmente a parcela pobre da extensa Bela Vista) está abandonado e propor ações que nasçam e reforcem sua heterogeneidade de usos e sincretismo cultural.

O Bixiga passa por transformações radicais desde a segunda metade do Século XX, transformações comandadas pelo desejo capital-desenvolvimentista, como a ligação Leste-Oeste, os muitos viadutos, entre eles o elevado sobre a Praça 14 Bis, a instalação do Terminal Bandeira e, atualmente, a verticalização comandada pela especulação imobiliária. Esses são exemplos rápidos e complexos em que a melhoria da infraestrutura de um lado trouxe avanços viários para a cidade e por outro trouxe a degradação da qualidade urbana do bairro em especial dos entornos imediatos dessas intervenções que o seccionaram. A cicatriz do Minhocão se fez acompanhar da desvalorização de um território popular, da criminalidade e do abandono.

Para além dessas obras públicas existem os moradores e sua forma de se relacionar com o Bixiga. A vida gestada ali se contrapõe, muitas vezes de forma anárquica, ao modos formais de ocupação e uso de territórios urbanos. E justamente essa singularidade deve ser apropriada para a elaboração de um projeto necessário e urgente de restituição das características que tornam esse bairro tão especial e, enfim, assumir sua existência. O ponto de partida é sua vocação para organizar e sustentar espaços que visam resultados coletivos culturais, muitas vezes ressignificando e dando outra direção para o que entendemos como espaço público, patrimônio e sustentabilidade.

Quando olhamos para o Bixiga devemos, procedendo da contribuição do próprio bairro, abandonar os modelos homogêneos de desenho e ocupação dos espaços públicos. Chega de obras formais de requalificação urbana. O que o bairro pede são lugares onde a população possa confrontar suas diferenças, por meio de seus variados talentos. Lugares de manifestação e aparecimento da diversidade e distinção de comportamento e pensamento. Lugares onde a multiplicidade do bairro ganhe força.

A reativação desta escala de relações e espaços coletivos no bairro do Bixiga seria mais eficaz com a re-conexão do tecido urbano seccionado pela implantação do viaduto da ligação Leste-Oeste durante a ditadura militar, viaduto que criou o Bixiga de Baixo e o Bixiga de Cima. Dividiu o bairro com seus grandes muros que cercam as áreas vazias sob o viaduto.

Partindo deste histórico de descaracterização, hoje, essas margens do viaduto Leste-Oeste, pontuadas por uma série de vazios residuais desperdiçados, deveriam ser destinados, estrategicamente, à criação de áreas culturais, de áreas verdes, de áreas de lazer, convivência, permanecia e ócio. Estes espaços, combinados com uma estrutura de transporte alternativo e melhorias para trânsito de pedestres, consolidariam uma rede de conexão por todo o bairro, sobretudo religando as partes divididas pelo viaduto.

A cicatriz está exposta e excluindo a possibilidade de demolição dessa infraestrutura, propomos, ao contrário, tomar partido de sua projeção e de sua cobertura, para se garantir a transposição simbólica do viaduto atravessado por equipamentos culturais com destinação pública. Desta maneira conseguiríamos a diluição da brutalidade desta estrutura, que ao separar os dois lados da mesma rua e quebrar o Bixiga em duas partes, desmobilizou seus moradores.

Quando se coloca o equipamento cultural como eixo estruturador da intervenção, propõe-se redimensionar o que já é característica do bairro: sua vocação para Território de todas as Artes. A reexistência do Bixiga tem tudo para ser bem sucedida usando a Cultura como agente ativo transversal, transformada em matriz de onde se desdobram a sustentabilidade, a educação, o esporte, a mobilidade, a cidadania e todos os outros serviços.

Os equipamentos culturais também servem para uma reflexão sobre como intervir no território, considerando suas relações sociais e estéticas. Hoje o Bixiga ainda é um bairro de expressão cultural híbrida, de convivência de expressões arcaicas e tecnizadas. Ali coexistem centros de cultura digital, estúdios musicais, coletivos de divulgação e afirmação da cultura africana, escola de samba, coletivos que atualizam a memória do bairro, teatros, companhias teatrais, feiras livres, futebol de rua. Essas expressões culturais sincréticas do Bixiga que misturam o primevo com o cyber tecnizado devem ser consideradas e potencializadas.

No entanto, é preciso estar alerta e suprimir qualquer intervenção de grande escala e que traga em si um programa único, pois engessam a imprevisibilidade de determinadas apropriações. Com isso, há que se evitar a repetição de mais um Centro Cultural para as tais “cidades do espetáculo”, evitar a instalação de um novo “parque temático”, como a Praça das Artes ou da Cidade Tiradentes (este bairro irmão do Bixiga), construídos durante o governo Kassab, onde o dinheiro público foi gasto na implantação de edifícios gigantes e vazios e que agora requerem mais verbas e um exercício de quebra cabeça, na tentativa de apropriação desses equipamentos pela população local.

Conhecendo o perigo, dá para evitara repetição de erros. O Bixiga é um bairro articulado, de usos e expressões estéticas diversas. Os moradores conhecem sua história, sabem e defendem seu patrimônio material e imaterial. O bairro está mapeado e protegido por uma série de instrumentos de salvaguarda: são quase 900 imóveis tombados (com naturezas diferentes de tombamento.

Hoje temos instrumentos que reforçam a necessidade de um tratamento digno a essa parcela da Cidade. O Bixiga está inserido em Zonas Especiais, tanto de patrimônio cultural como de interesse social; possui projetos de revitalização visionários, como o quase esquecido “Parque da Grota”, desenhado pelo premiado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, e o “Anhangabaú da FelizCidade”, rascunhado pela também premiada arquiteta Lina Bo Bardi, que trata da ocupação pela Cultura do entorno do Teatro Oficina, também projetado por ela e atualmente tornado patrimônio nacional pelo Iphan.

O Bixiga é um bairro muito singular. Hoje é uma “periferia do centro” que clama por atenção na luta permanente da reexistência, já citada por aqui. Sua proteção e requalificação urbana devem ser pensadas a partir dele mesmo e não de um modelo padrão, que não traduz a complexidade e transformações permanentes de um território em ebulição.

Atualmente, o elenco de títulos que recebe, desde ser o berço do samba paulista, o mais boêmio dos bairros, o bairro dos Artistas e onde há mais teatros por metro quadrado na cidade, nenhum deles tem sustentação jurídica para a sua proteção como bairro popular e contra a ação predatória da especulação imobiliária. Hoje já se pensa na possibilidade do bairro ser protegido pela Chancela da Paisagem Cultural, outorgada pela Unicef. Trata-se de um instrumento que visa proteger uma porção territorial somado à dinâmica dos agentes do lugar, considerando a transformação permanente do território pelos seus moradores.

Se entendermos de uma vez por todas, que o Bixiga é um bairro que é rico por suas relações e seu território (tanto natural como edificado), talvez devêssemos levar adiante esta proposta da Chancela e descobrir se este instrumento pode ou não garantir alguma proteção, caso não, devemos inventar outro e proporcionar ao Bixiga um Corpo sem Órgãos, conceito criado por Antonin Artaud, para esse canto da cidade, que é o seu Centro.

*As arquitetas trabalham na Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona. Este artigo é uma contribuição do conselheiro José Celso Martinez Correa*