UMA POÉTICA DE SEDUÇÃO

Antonio Cadengue

“O Assalto”, de José Vicente, pelo Teatro Oficina, com direção de Marcelo Drummond, do Teatro Oficina, inscreve-se numa tendência de experimentações contemporâneas com os procedimentos realistas (veja-se o exemplo no FIT com o “Abajur lilás”). Esta peça foi a estréia de José Vicente no teatro. Montada em 1969 pelo Teatro Ipanema do Rio de Janeiro obteve sucesso imediato, e inaugurou, de certa forma, uma dramaturgia que se distanciava da que lhe antecedia. Mas ele não estava só: tinha como companheiros de viagem nesta transgressão com a ordem dramática vigente, Leilah Assunção, Isabel Câmara, Antonio Bivar e Consuelo de Castro. Dramaturgia esta, assentada num realismo que o transcendia, pelas características mesmas de sua construção interna, e transbordantes de poesia, poesia que os levavam para temas pouco explorados até então: religião, homossexualismo, drogas, referências autobiográficas sob o véu da ficção dramática. E esta dramática tinha em seu eixo o conflito entre personagens que em cena, suas solidões devassadas, e o niilismo de seus autores exposto.

Trabalhar com esta dramaturgia hoje, é um desafio que Marcelo Drummond encarou com talento excepcional, trazendo à cena sua memória artística fundada no Oficina. Memória, porque muito do que se vê em cena são recriações autorais a partir de seu processo de crescimento como ator, como artista enfim, deste grupo que atua com a paixão maior que se pode ter pelo teatro. OFICINA DE PAIXÕES. No Oficina foram desenvolvidas, através dos anos, técnicas de interação com a platéia que se tornou uma pungente marca desta emblemática companhia teatral, especialmente as que se baseiam na relação intérpretes e platéia. Este jogo que foi sendo paulatinamente elaborado por Zé Celso desde os anos 60, encontrou na poética da sedução, da orgia metaforizada ou não, uma interlocução que não passa pelos trâmites do realismo, embora este sempre tenha sobrevoado o trabalho do grupo para assenhoreado dele, desconstruí-lo. Por isto penso que a memória que Drummond traz em si do teatro, não diz respeito apenas aos momentos nos quais fez nele seu rito de iniciação, mas seu rito continuou a medida que foi se apossando da história de seu grupo em seu próprio cerne, garantindo a partir daí uma feição pessoal de encontrar seu próprio caminho.

Nesta encenação na há somente o minucioso trabalho dos atores Haroldo Ferrari (Victor, o bancário) e Fransérgio Araújo (Hugo, o faxineiro do banco), mas especialmente os jogos de sedução que entre eles se estabelece, não só como sugestão ou reverberação do texto de José Vicente, mas da releitura produzida por Drummond. Esta releitura implicou em fazer os atores contracenarem a partir de referências concretas no que diz respeito às personagens, ressoando esta relação em direção à platéia que, envolvida, chega mesmo a replicar sem que eles quebrem o “efeito do real” no qual estão empenhados em materializar, mas, sobretudo na reteatralização deste “efeito”, distanciando-se dele com criticidade e ironia, enfatizando a espontaneidade em que se dá a relação ator versus ator e atores versus platéia. Para mim este é o maior exemplo da maturidade artística do encenador que em pleno domínio deste procedimento é capaz de brincar com ele, seduzir e deixar-se seduzir, provocando enorme comoção não só pela trama da peça, mas pelo modo como se deu sua realização.


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